23.9.13

Em tempo

Bianchi Jr chamou a atenção por e-mail para um erro perpetuado há tempos na barra lateral aqui do bloguinho. Um das frases de que mais curto do Eduardo Galeano não é, ora pois, do Galeano.
A confusão se deve a uma entrevista em que o escritor cita a definição de utopia que o diretor de cinema argentino Fernando Birri deu durante uma palestra que os dois fizeram juntos em Cartagena há alguns anos, como a gente vê (e é sempre bom escutar esse uruguaio) no vídeo abaixo.



Engano esclarecido, sigo concordando com Galeano apud Birri:  "A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."
Valeu pela correção e pelo vídeo, Caro!

Onde está Amarildo e a situação da sua família

Mais uma materia pra avivar a tags impressas (pero online). Fala da situação da família do ajudante de pedreiro Amarildo, desaparecido depois de ser levador por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha no dia 14 de julho. Apesar do texto ser do fim de agosto, a esposa dele, Bete, ainda pergunta "onde está Amarildo?" e sabe-se lá se vai ter alguma resposta.



Com medo da polícia, família de Amarildo vive em casa na Rocinha com 17 pessoas

Com medo da polícia, a mulher do pedreiro Amarildo de Souza, visto pela última vez no dia 14 de julho quando foi levado algemado por PMs da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, passou a morar, no começo de agosto, na casa da cunhada, Maria Eunice Dias Lacerda. 
Lá, Elisabeth Gomes da Silva divide com os seis filhos um quartinho de cerca de 3 m², antes usado como cozinha, anexo à casa de dois quartos, sala e banheiro que abriga ainda outros dez parentes.
Entre filhos, sobrinhos, netos e agregados, numa escala de idade que vai dos seis aos 60, ao todo 17 pessoas vivem no local. "Acha que é fácil fazer comida para 17 pessoas? Vai um botijão de gás a cada 13 dias!", diz Bete, como é chamada pelos amigos.
Nas noites de chuva, todos se amontoam na sala para dormir, por conta das goteiras e dos ratos que passam por cima do cômodo sem forro, que dá para o quintal fechado por tapumes improvisados, onde patos, gansos e uma tartaruga fazem as vezes de bichinhos de estimação. 
Quase sem espaço, os poucos pertences – torradeira, som, televisão e um que outro eletrônico -, ficam empilhados junto às roupas. Apesar de morar no anexo, o banheiro é compartilhado com todos e uma das coisas que Bete mais sente falta da casa antiga. "Aqui não tenho nem banheiro. Se der vontade no meio da noite, tem sair , pegar frio, chuva, e ir lá na casa", diz.
A comida vem de doações de moradores e pessoas de fora da comunidade  – "Um dia um vizinho dá um litro de óleo, outro dia outro vizinho dá um saco de arroz" -, e do ordenado da cunhada, que trabalha como diarista, e da sobrinha Michele, professora de teatro, as únicas com emprego fixo na casa.
"Quando meu marido era vivo, ele ganhava pouco, mas tinha carteira assinada e se esforçava. Um mês dava um chinelo para um filho, outro mês para o outro e assim ia", diz, ao comentar as dificuldades que a família tem passado. Por conta da repercussão do caso e do tempo perdido entre buscas por Amarildo e depoimentos, os filhos e sobrinhos têm tido dificuldade para conseguir trabalho.
A família também se reveza para acompanhar Bete, que não vai à rua sozinha nem para levar os filhos ao colégio. "Outro dia passou um policial da UPP de carro e começou a me xingar de vagabunda, safada, abusada. Se mataram o Amarildo, por que não matar a mulher dele?", questiona. "Estou com medo até de sair para comprar o pão."
Desde o dia em que o pedreiro sumiu, ela e os parentes perguntam pelos corredores da favela "onde está Amarildo", em um grito que extrapolou as proporções da comunidade e do Rio: ganhou as páginas dos jornais internacionais e as mesas de bar e passou a ser palavra de ordem nas manifestações que têm ocorrido toda semana. Para ela, a repercussão não agradou as forças policiais, acostumadas ao silêncio dos moradores. 
"O destino do meu marido é que ele está morto, e foi morto pela polícia", afirma. Segundo ela, tudo que a família quer é um fim para a história. Ela conta que não sabe o que dizer à filha de seis anos, que pergunta pelo pai todos os dias. "Se acharem um ossinho dele que for, a gente quer, para ter a honra de fazer um sepultamento direitinho", diz a cunhada Maria Eunice.
Na última quinta-feira (22), a família e um grupo de manifestantes fecharam mais uma vez a autoestrada Lagoa-Barra, uma das principais vias de acesso à Barra de Tijuca, na zona oeste do Rio, em passeata até a casa do governador Sérgio Cabral (PMDB) e do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, perguntando "onde está Amarildo".
 "Virou uma epidemia", diz Bete, ao citar os locais aonde a busca pelo marido chegou. "Outro dia, minha sobrinha me mostrou no computador que tem gente até na Rússia perguntando pelo Amarildo."

Pequenas alegrias da segunda de manhã

Cumprir listas. Adoro listas. Parte da lista era escrever aqui. Check.

3.9.13

Federico em su balcón

Entrei em uma livraria no centro da cidade pra fazer aquele tradicional passeio entre os livros e alegrar o dia e acabei com um exemplar do último livro do mexicano Carlos Fuentes por conta do título e do primeiro parágrafo, o famoso lide em jornalistês.

"Eu o conheci por acaso. Era uma noite mais que quente, pegajosa, irritante, inquieta. Uma dessas noites que não aliviam o calor do dia, mas o aumentam. Como se o dia acumulasse, hora após hora, sua própria temperatura só para soltá-la, toda junta, ao morrer a tarde, entregá-la, como uma noiva molesta e manchada, à longa noite."

Me lembrou o verão em Porto Alegre, quando as madrugadas se enchem de latidos dos moradores aflitos que levam os cachorros pra passear na esperança de que passar calor na rua pareça menos sufocante do que em casa.

É uma conversa entre Fuentes e Nietzsche, ambos na sacada.

Leremos.