28.11.13

Notas sobre o novo lar

- O dono do apê deve ser daltônico. Em um kitinete de menos de 30 m² ele conseguiu colocar duas paredes vermelhas, uma laranja e uma... verde limão!

- Me assustei ao descobrir que no meu prédio existem mais de 700 apartamentos. É muita portinha, muita alma, muita história no mesmo lugar.

- Entre os serviços oferecidos a esta pequena cidade em forma de edifício estão desde uma academia com entrada direta para o prédio até uma capela.

- Para não dizer que fiquei sem vista, da janela lá do quarto dá para ver o cocoruto do pão de açúcar.

Lusofonia

rapariga: s.f., fem. de rapaz: mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.
Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada
no café, em frente da chávena de café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar o
atlântico para desembarcar no rio de janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga do
café. A solução, então, é mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem café ao balcão.

JÚDICE, N. Matéria do Poema. Lisboa: D. Quixote, 2008

(poema presente no Enem deste ano)

27.11.13

A dor e a beleza da criatividade

Trabalhar com coisas relacionadas à criatividade como escrever envolve com frequência momentos em que parece mais fácil nevar no Rio de Janeiro que ter uma ideia. Foge o texto, foge o lide e, muitas vezes, parece fugir também a sanidade. Por isso a beleza dessa palestra do Ted da Elisabeth Gilbert.
E se a inspiração ou falta dela não for toda culpa nossa? E se pudermos olhar para o processo criativo com mais serenidade? Por que é preciso sempre associa-lo ao sofrimento?

26.11.13

Rua das Laranjeiras, 336

Chove no Rio. O tempo, fora o calor, lembra um dia qualquer de inverno em Porto Alegre. Entro em uma livraria no caminho até a parada de ônibus. Namoro as capas, leio um trecho aqui, outro ali, e começo, sem querer, a presentear novos e velhos amigos mentalmente. "Esse combina com fulano, esse é a cara de ciclano, esse tenho certeza que não sei quem iria adorar." Cruzo com livros para reler, faço uma conta valor-almoço-no-centro-da-cidade x preço-livros-em-geral e acabo me presenteando com um Agualusa, desses que quase cabem no bolso da calça. Tudo para poder escrever na folha de rosto, "Rio de Janeiro, novembro de 2013, meu primeiro apartamento".

25.11.13

Diferenças RJ-RS

Chamo um amigo - gaúcho - para almoçar comigo e outra amiga. Ele pergunta que horas marcamos, digo que dali a pouco,13h, e ele devolve. "Pode ser 13h15?"
Vontade de abraçar.

Diálogos - versão operadora de táxi

Quase meia noite de domingo. Saída da cobertura de um show na Apoteose, onde fica o sambódromo, em uma das pontas do centro do Rio. Frente às milhares de pessoas desesperadas para ir embora que tomam as ruas decido caminhar com alguns colegas até a Lapa e de lá dar um jeito de ir para casa.
Sento no primeiro bar com cadeiras livres que aparece e ligo para a cooperativa de táxi.
- Boa noite, gostaria de um táxi. Estou na Mem de Sá, 175, no Bar das Quengas.
- Bar do que?
- Das Quengas.
- Que o que?
- Que-en-gas.
- Quengas?
- Quengas. Tipo puta, sabe?Tem umas calcinhas e sutiãs pendurados nas janelas. Não tem erro.
Silêncio do outro lado da linha.
- Só aguardar o carro.

24.11.13

Ironia

Revejo as notas do bloquinho do começo do ano, durante os dias ciganos viajando, e, entre uma anotação e outra, a reflexão de que um pouco de estabilidade - emprego, casa, essas coisas -, não fariam mal.
Logo na linha de baixo, a melhor mea culpa.
A gente prega tanto a revolução e acaba sonhando com a propaganda de margarina.

Idiomas particulares

Tenho uma amiga brasileira que se apaixonou por um italiano durante um mestrado no Chile. Hoje os dois moram juntos em Turino e seguem falando, entre si, em espanhol.
Eles não falam o espanhol correto, gramatical - antes de pisar em Santiago nenhum dos dois sabia uma palavra de castelhano -, mas um idioma particular que ampliam a cada dia de convivência.
Falamos por Skype, toca o telefone, ela atende - "estoy hablando con Paula" -, e sei que é ele do outro lado da linha.
É um tanto esquizofrênico, já que ela fala italiano perfeitamente e ele arranha bem o português, e, de certa forma, um atentado a Cervantes.
E é tão bonito.

22.11.13

Closing time

Cheguei ao Rio com duas malas (de mão e sem rodinhas!), meia dúzia de livros e um travesseiro há, agora, quase quatro anos. Começo a fazer as malas para mudar - de bairro, apenas -, e só deus sabes quantas malas e sacolas sairão desse quarto.
Quanto papel, quinquilharia, memória a gente consegue guardar em um endereço?

21.11.13

Uma janela para sentir saudade

(Foto gentilmente roubada do @mauropimentel_)

O samba do criolo doido das buscas que levam ao Palim

É sempre divertido ler o relatório de estatísticas do blog que mostra como vez ou outra aparece alguém perdido por estas bandas internéticas. A melhor parte são as buscas.
Nesta semana da mesma forma que alguém chegou até aqui ao digitar "o que fazer em Roma em cinco dias", busca justíssima, já que lá ganhei vários e memoráveis quilos, devidamente registrados por aqui, outra pessoa deve ter levado um susto ao buscar "bebês mutantes" e ver esse fundo branco com o topo azul bebê.
Outra busca frequente é sopa - mafalda, mafalda sopa, não gosto de sopa mafalda e outras variações. Pois é, amigos, sinto que o Quino não era lá muito fã de comidas liquidas, mas não é por aqui que você vai chegar a algum lugar. Apesar de muito fã da Mafalda, sou bem chegada também em uma sopinha.
À galera que buscou manifestação, caras pintadas e Parque Lage também deve ter ficado um cadinho decepcionada, mas ao menos acertou o expectro da coisa: um samba do criolo doido post sim, post também.

20.11.13

Sobre quilombos e reportagens que valem a pena

Nesse dia da consciência negra, segue uma história que me deu muito prazer de apurar, sobre uma comunidade quilombola que vive há quase cem anos, quem diria, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos metros quadrados mais caros da mui valorosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.


Quilombo sobrevive em meio 

a uma das áreas mais caras do Rio



(fotos e parceria do grande Mauro Pimentel)

O número 250 da rua Sacopã, no bairro Lagoa, uma das regiões mais valorizadas do Rio de Janeiro, contrasta com a opulência dos vizinhos -  um sem fim de condomínios e casas luxuosas. O portão simples, cercado de árvores, dá acesso a um terreno de 18 mil metros quadrados de área verde preservada com vista privilegiada para o Cristo e para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Lá, sete famílias de descendentes de escravos lutam desde os anos 70 pelo direito de permanecer no local, avaliado em R$ 160 milhões.

Como eu quero cliques, fama e sucesso, deixo só esse trechinho. Mais aqui.

Berlim Bomfim

Aqui em casa, quando abro o pc, é sempre manhã de sol de inverno em Berlim.


Dessas memórias pra sair cantarolando por aí, "Berlim, Bomfim, Berlim, Bomfim"...

19.11.13

Praga em tópicos

(Do bloquinho, no agora longínquo março de 2013)
- Tom chegou a Praga. Toca na voz de uma cantora qualquer - Céu? Bebel Gilberto? - num café em Praga. Estranho ouvir português direto do rádio quando tudo ao redor fala checo ou inglês e a neve ameaça voltar lá fora.
- No topo de uma das colinas de Praga tem um metrônomo, desses de piano mesmo, em tamanho gigante. O monumento em si não lá muito/nada bonito - afinal é um triângulo com uma ponta indo de um lado a outro -, mas a simbologia é bacana. Com o fim do comunismo no país o governo decidiu trocar a estátua de Stálin, que até então observava a cidade em seu lugar, pelo aparelhinho, mostrando que agora a República Checa ditava o seu próprio ritmo.
- Walt Disney deve ter baseado os castelos dos seus desenhos em Praga, só pode. Parte da cidade parece uma casa de bonecas gigantes e as torres das igrejas e prédios apareceram em mais de um conto de fada animado da Disney.
- Um programa bacana e off-turístico da cidade é visitar uma das diversas casas de chá espalhadas pela cidade e aproveitar para espantar o frio de pantufas sentada em almofadas. A Cajovna Ve Vezi, além de ficar em uma torre com vista para a cidade, tem até chimarrão!
- Em Praga, pela primeira vez, usei meus óculos de sol como para-neve. Pior. Funciona.
- Assim como em muitas cidades da Europa é uma boa aproveitar o menu do almoço para comer bem e barato. O Ubalouna, rua Vaclavké Namestí, 20, é bem servido e vale a caminhada. Comi sopa, peixe com batatas, appfestrudell e tomei suco pelo o equivalente a 4 euros (ou 133 coroas)!
- Depois de pagar de turista até na Itália foi aqui, entre o checos, que me senti mais em casa. Ou que ao menos acharam que eu era de casa. Restaurantes após restaurante recebo o menu e as primeiras informações em checo.
- Praga fica na Bavária e a Europa é o paraíso dos fumantes.
- É interessante notar a diferença entre o lugar que a gente chega e o lugar que a gente deixa. De uma hora para outra o que até então era estranho e muitas vezes ameaçador ganha marcas, caminhos preferidos, diminui de tamanho. Passa a deixar saudade.

18.11.13

Ficções

Toma, feliz natal. É um cedê do Djvan. Misturei as músicas. Não gosto quando fica tudo muito certinho, muita música famosa junto.
Sabe que encasquetei com aquela música do dinossauro?

Mas sério, não precisa me levar a pé até em casa. Tu vai perder o ônibus.
Eu sei.

Tem que limpar essas venezianas. Fica muita poeira, faz mal. Se tu quiser eu te ajudo.
Brigada, acho que vou precisar de ajuda, sim.

Desisto, não desisto, desisto.
Oi, como foi o dia? Quer tomar uma cerveja?
Calorão, né? Brigada, mas vou lavar a louça.
Não precisa lavar agora. Termina a cerveja antes.

Não vai embora. Dorme só mais essa noite aí.
Não posso. A gente já viveu tudo o que tinha para viver.

Tem uma bermuda, uma cueca, uma escova de dentes, um chinelo e um desodorante que não são meus aqui em casa.
Ué, como eu ia escovar os dentes e tomar banho?

Quer namorar comigo pelos próximos nove meses?
A gente já não está namorando?

Tu viu que eu deixei as tuas coisas com o porteiro?
Vi. Até a escova de dentes.
Até a escova.
Preciso te entregar as tuas. Tua escova ainda tá aqui.
A escova não precisa.
(O plano é desovar as anotações da viagem as zooropa do caderninho. Portanto não estranhem a falta de ordem cronológica ou os países aleatórios. Sigo pelo Rio nesse doce e quente novembro - mas com a mente viajando, para variar.)

Os sem fim de Bianchis pela Itália


Cartaz anunciando os tipos de vinho branco em um restaurante em Bologna. No começo fotografei toda e qualquer menção ao nome Bianchi como se não houvesse amanhã me sentindo especial e esperta. Até que um garçom em um café chamado, advinha, cortou meus naipes em Florença.
"Ah, moço, é que o nome da minha família é Bianchi. Sou brasileira."
"Sei. Muitos brasileiros que vem aqui dizem isso."
"Ahhh (suspiro de decepção)."
Passado o trauma, me contento em ter um sobrenome que serve como designação para vinhos. Bons vinhos, até onde provei.

17.11.13

Mi Buenos Aires querida

Fui a Buenos Aires com a baby sister no comecinho de outubro, curtir a primavera bombando na cidade e a saudade das terras porteñas que me ataca vez em sempre. A viagem foi uma delícia e teve como mérito, além da boa companhia, a sábia decisão de desencanar do turismo tradicional e apenas flanar sem culpa.

Pela terceira vez na cidade, dei pulinhos quando Bianchi jr, que fazia sua primeira visita, comunicou que tinha zero ganas de conhecer o caminito e afins:

"Eu quero é saber de passear, beber e comer bem", declarou nas nossas primeiras horas em solo hermano.
E assim fizemos. Entre um café e outro os seis dias que fiquei por lá passaram voando e nem bem um mês que voltei já estou com saudade.

Ficamos primeiro na casa de uma amiga no charmoso bairro de Villa Crespo, vizinho ao hype Palermo, e depois na casa de outra amiga, também em Palermo, do que sai a primeira dica: na hora de se hospedar, esqueça o centro. Essa região é cheia de programas legais e um deleite para os olhos, o que torna qualquer caminhadinha um passeio bacanudo. Se você não tiver a sorte de ter amigos na cidade, o melhor é alugar um quarto/ap por sites como o Airbnb. É um privilegio acordar, passar na padaria mais próxima e tomar café com um sem fim de mejas lunas diferentes em casa mesmo. O que me lembra: padarias porteñas, visite, sente, coma, seja feliz.

De diferente, além do flanar, comer, flanar, comer, flanar, que me parece, basicamente, o melhor a fazer na cidade, fomos, por conta da amiga que no recebeu, a uma ilhazinha na foz do tigre. O processo é simples e barato. Pega-se o trem até o final e de lá um barco-ônibus que passa pelas ilhas, quase todas habitadas. Paramos em uma chamada Três bocas, com carinha e trilhas de jardim secreto.

Por que é sempre bom redescobrir um lugar que já mora em nosso coração - e voltar a Buenos Aires uma questão de quando, não de se.
A procrastinação é uma arte. Estou frente ao pc desde às 11h a fim de terminar uma materia. Já tomei dois chás, comi um sanduíche, li um artigo sobre Frances Ha, recomendei o artigo para os amigos, liguei para casa para saber das novidades, abri a geladeira cinco vezes em busca de alimentos que sabidamente não estavam lá, discorri sobre os acontecimentos do fim de semana com os roomies Mauro e Rafa e quedê materia, ein?

13.11.13

Meu pai, meu herói, meu melhor personagem

O pai fez uma cirurgia hoje. Nada grave, nada tão simples. Internação, essas coisas. Ligo para saber se correu tudo bem (uma das agonias de morar a 2 mil km de casa é não poder correr pra casa caso a resposta seja negativa). A mãe diz que sim, que a anestesia foi leve, ele falou o tempo todo, devem voltar pra casa ainda hoje à noite. "Acabou de vir o médico aqui me dizer que ele falou que quer ser avô."

10.11.13

“It reminds me of that old joke- you know, a guy walks into a psychiatrist's office and says, hey doc, my brother's crazy! He thinks he's a chicken. Then the doc says, why don't you turn him in? Then the guy says, I would but I need the eggs. I guess that's how I feel about relationships. They're totally crazy, irrational, and absurd, but we keep going through it because we need the eggs.”


― Woody AllenAnnie Hall