28.12.13

Fast Food tips Amsterdam-Londres-Paris

Ok, ok, ok. Nosso querido 2013 está indo para o saco e nada desta que vos fala encerrar as crônicas do mochilão. Eu sei, finjo que não, vocês também sabem, talvez nem cheguem a fingir, mas fato é, nunca vou terminá-las. Um jornalista sem prazo é um animal relapso. Mas como é sempre bom ter algo a prometer, esses textos, se nascerem, existirão apenas no famigerado ano que vem.

Para diminuir a culpa cristã de não te-los parido até o presente momento, seguem algumas dicas "fast food" dos destinos que ficaram para trás - Amsterdam, Londres e Paris.

Começando pela sempre nublada, mas adorável capital da Holanda. Uma vez perdido pelos canais de Amsterdam - e você vai se perder -, e com fome, é hora de experimentar uma das iguarias típicas da cidade: a batata-frita. Sim senhores, em Ams é possível comer batata frita no meio da tarde na rua sem ser julgado e ainda pagar de "turista" explorando a cultura local. O que me lembra. É bom não esperar muita coisa da culinária holandesa.
Há lojas específicas de batata frita, servida em cones para comer caminhando enquanto se desvia dos sem fim de bicicletas da cidade e se busca o caminho de volta.

Olha ela aí. Gordurosa e gostosa, servindo de lanchinho das 15h.

Cruzando o canal da mancha chegamos àquela que é e sempre será mesmo não sendo mais e mesmo sendo o clichê dos clichês dizer isso:  a capital do mundo, Londres.
Uma vez aqui eu poderia dar a vocês 552 dicas e ainda seria pouco. E ainda foi pouco ter passado apenas uma semana por lá. Posto isso, aproveite que os britânicos começam a bebedeira cedo e veem virar a madrugada dançando como encerrar a noite às 2h e acorde cedo no domingo para ir ao mercado de flores da Columbia Road.
O mercado é uma graça e pode ser alcançado a uma pequena caminhada da estação de metrô Old Street. Além de admirar as flores - até comprar, quem sabe -, é possível comprar chocolate ou vinho quente e dali seguir andando até a feira que toma toda a Brick Lane, aka rua do Jack Estripador.
Junto com as tendas de artesanatos, brechós e afins - quase um brique -, mais para o fim da rua, há uma feirinha com várias barraquinhas de comida oriental, perfeita para o almoço de domingo. E você ainda paga de turista cool por ter saído da rota tradicional e desbravado East London.

"Eu vejo flores em vocêeee..."

Bye, bye, London é hora do destino quase final: Paris. A viagem encerrou, realmente, em Madri, mas daí foi quase como voltar a uma velha amiga, tamanha a relação que criei com a cidade na semana que passei por lá. Pois bem, Paris é tudo aquilo que dizem e mais um pouco. 
E também é cara. Muito cara. Enquanto na maior parte das cidades que visitei foi possível comer na rua sem estourar o orçamento, em Paris optei por passar a semana de lanche em lanche, com direito apenas a um jantar e um almoço decentes. O que nos levas a nossa última fast food tip: piqueniques!
Poucas coisas são mais parisienses que montar um lanchinho e levá-lo para passear em uma das inúmeras praças e parques da cidade. Recomento o pacote Sena-Pontes. Passe em um mercado, arrume uma garrafa de vinho de fácil abertura, queijo, torradinhas, frutas secas e afins e sente o mais próximo possível do Sena. Depois de morgar ao sol aproveite para matar as calorias do queijo e o álcool do vinho caminhando de ponte em ponte até, quem sabe, a Torre Eiffel, ou a vontade de retornar e descansar. O que vier primeiro.

Um ponto das margens do Sena esnobando beleza.

Ok, ok, ok, acho que agora posso passar a virada tranquila, não? Ano que vem tem mais. Ou não. Ou novas viagens, o que é ainda melhor.


27.12.13

Mais serra gaúcha

Sexta-feira, 7h. Fui dormir relativamente cedo, perto das 0h30, um pouco depois da família.
"Vem tomar café, Paula!", grita o pai ou a mãe ou o ser humano que entrou nos meus sonhos depois de ter aberto a porta do quarto, começado a limpeza da sala e ter feito todos os pequenos ruídos que caracterizam uma casa acordada.
“Tô dormindo!”, grito de volta, com a licença poética de me manifestar ainda dormindo, apesar de já plenamente desperta pelo grito, cereja no bolo no processo de ser acordado, que os pais serranos sabem tão bem infligir aos filhos.
Levanto a contragosto. Chego à mesa do café. Farta, gorda, cercada de rostos felizes com mais um amanhecer – eles ainda por cima são sempre sorridentes a essa hora da manhã, como se zombassem internamente desse desejo vil e pequeno que é dormir até hora que o corpo quiser acordar.
Ensaio um último protesto. “Vocês sabem quão sacana é acordar alguém para tomar café pouco mais de seis horas depois de ela ter ido dormir na SEMANA DE FOLGA da pessoa?”
Silêncio.
“Toma o teu café depois volta a dormir”, contesta a mãe, ignorando por completo meu argumento.

Desisto e sento.

Colônia em chamas

Ainda vou escrever um romance com ares de Juan Rulfo. Vai se chamar A colônia em chamas e se passar nas franjas dessas estradas do interior da serra, cobertas pela poeira cor-de-rosa que toma conta do mundo durante a estiagem no verão.

26.12.13

Para 2014

Daí que o relógio girou e chegamos a mais um 26 de dezembro. Pós ceia e pós comemorações natalinas, o que dizer de um ano que teve até hidroginástica com velhinhos em Budapeste? Que foi, no mínimo, interessante.

Um ano difícil, mas um bom ano. Mas sem a pataquada de ter passado voando, que de janeiro até aqui dava pra ter tido um três réveillons e ainda seria pouco frente a velocidade que o mundo resolveu tomar. Que o digam os dois meses de Europa, a visita do papa, as agora batizadas de jornadas de julho e as pequenezas gerais.

Enquanto 2012 se encerrava calcado na desesperança e cansaço - que termine, apenas, é o que lembro de sentir -, este caro ano ímpar, e ímpar de tantas formas, vai embora com o rastro de uma palavra bonita que costumo usar tão pouco e que merecia ser mais lembrada: gratidão.

Lá pelos idos de fevereiro uma amiga deixou um bilhete na minha mala entre os dias nevados passados na querida Bologna com uma quase mensagem natalina, desejando sorte e um porvir mais aprazível. "A vida é grande."

E não é que é mesmo? Olha os sonhos aí, tomando lugar, as necessidades de alguma estabilidade - ap, emprego e outras pequenezas -, atendidas, o futuro, otimista, piscando a frente. Nada necessariamente fácil, eu não poderia viver só de calmaria, mas ali, desafiador.

Não foi dessa vez que aprendi italiano, apesar de que agora sou capaz de compreende-lo sem problemas e arrisco bem mais que duas, três frases. Também não tirei o meu adesivo de inimiga do ritmo da testa e desbravei o violão nem criei uma rotina de desenho e alimentação saudável, como prometido por aqui. Mas é preciso sobrar algo para prometer cumprir nos próximos 365 dias.

Se ano passado escrevi, "para 2013, peço apenas que seja mais leve", para 2014, esse ano que já me é tão bem vindo, nem me atrevo a pedir nada. Apenas que seja. E que tenhamos o peito e o coração aberto para fazer frente a altura dos desafios que aparecerem.

Deixo vocês com um desejo de um grande recomeço - por mais que entre o dia 31 e o dia 1 não mude muita coisa além um giro de relógio -, e com uma frase do Guimarães Rosa no Grande Sertão: Veredas que gosto muito e já apareceu por aqui ao menos uma vez.

"Todo caminho da gente é resvaloso. Mas também, cair não prejudica demais A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!... O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."

23.12.13

“O que veio primeiro, a música ou a dor? Eu ouvia a música porque estava infeliz? Ou estava infeliz porque ouvia a música? Esses discos todos transformam você numa pessoa melancólica?
As pessoas se preocupam com o fato das crianças brincarem com armas e dos adolescentes assistirem a vídeos violentos; temos medo de que assimilem um certo tipo de culto à violência. Ninguém se preocupa com o fato das crianças ouvirem milhares – literalmente milhares – de canções sobre amores perdidos e rejeições e dor e infelicidade e perda. As pessoas mais infelizes que conheço são as que mais gostam de música pop; e não sei se foi a música pop que causou tal infelicidade, mas sei que elas vêm ouvindo as canções tristes há mais tempo do que vêm vivendo suas vidas infelizes.”

(Alta Fidelidade – Nick Hornby)

17.12.13

Milagrário

Me dei de presente, mais uma vez, um livro por conta do título. Quem resistiria a uma pequena brochura com a lombada azul celeste batizada de “milagrário pessoal”? Aposto que não fui a primeira leitor  que o angolano José Eduardo Agualusa ganhou com essa delicadeza.
Também prevejo pobreza no meu futuro graças a recém descoberta livraria localizada estrategicamente entre o ponto de ônibus e o escritório. Dessas de rede, mas organizada por amantes de livros, sabe? Com vitrines e bancadas que parecem ter saído de dentro da gente, tamanho o carinho da seleção. Mas tergiverso.
Este post é para registrar, além da vontade de imitar o narrador do livro e criar meu próprio milagrário pessoal – caderneta onde se anotam os pequenos e grandes milagres do cotidiano -, algumas frases doce de leite, roubadas da leitura. Dessas que dão vontade de guardar e reler e já valeram dobras ao longo do texto - tenho esse defeito. Todos meus livros acabam com uma ou outra ou muitas páginas com as pontas carinhosamente em triângulos, para lembrar um sei lá o quê, que nem sempre consigo decifrar.
Como a noção de desamparinho  (estou, percebe-se, numa fase de namorada das palavras, amando o português cada dia mais). Explica o narrador, “...desamparinho, na minha opinião uma das mais belas palavras do crioulo cabo-verdiano, dá nome àquela hora feliz, ao final da tarde, quando o dia cede lugar à noite, o calor esmorece e os velhos se sentam nos passeios, fruindo o fresco e as cigarras, e vendo as moças passarem sacudindo as ancas”.
Mais uma dobra, mais um pedaço de doce de leite, que descreve tão bem tantas primeiras vezes que a gente teima em guardar na memória com lugar cativo e iluminação especial. “Uma aventura. A maior da minha vida. Ou não, e eu sinto isso por ter sido a primeira.”
E, por fim, última dobra – me segurei pra não fazer isso com todas as páginas do livro -, um adágio em prol das raias e ideias incompreendidas. “Esperava-se que eu produzisse conjeturas esdrúxulas e perigosas, um pouco como se espera de uma raia que segregue eletricidade e magoe quem a tente agarrar. Perdoa-se às raias, não é assim? Afinal é da natureza delas defenderem-se dos potenciais inimigos com chicotadas elétricas.”

* Em tempo, Carol Maia me deu outra "palavra africana bonita" de presente semana passada: ubuntu, "eu sou porque nós somos". Lindo esse nosso português, não?

13.12.13

Histórias do 336

Meu novo lar é um kitinete em um prédio que reúne outras 700 moradias de um cômodo só no mui valoroso bairro de Laranjeiras. A princípio, me assustei com os longos corredores verdes em que cada  porta equivale a, ao menos, uma alma - muita gente junta empilhada em um lugar só, temi -, mas conforme os dias passam percebo que mudei, na verdade, para uma pequena cidade de interior.

Por conta de um abridor de vinho tive a chance de conhecer alguns vizinhos. Como a dona Helena, que mora na porta ao lado, por exemplo, e descreve o abridor como "aquele de rosquear e puxar assim, pá (incluir largo movimento com as mãos rosqueando e puxando)". Ao todo, são 40 anos de 336. Vinte no quarto andar e outros 20 no oitavo. O suficiente para criar filhos, netos e, daqui a pouco, bisnetos.

Como não tinha o abridor -"só o de abrir pra cima, plac" -, me pegou pela mão e bateu comigo em outras duas portas. Dona Teresa e dona Lúcia, cada uma de um lado do corredor, assistiam a novela das 21h de porta aberta, proseando e bebericando uma cerveja, o que fazia bem mais sentido que meu humilde vinho de rolha neste dezembro tropical carioca, devo admitir, e ficaram felizes em ajudar.

Abridor em mãos, dona Helena foi comigo até a porta de casa e sorriu satisfeita. "Aqui todo mundo se conhece, pode bater quando precisar", disse, com seu ainda inconfundível sotaque pernambucano, indiferente ao pedido de abridor feito às já 22h e alguma coisa.

Entro no elevador, mais gente, mais histórias. Cruzo com seu Djalma, vindo do sexto andar, sorrindo com o cabelo grisalho desalinhado. Catarinense de Lages, fugiu do frio e há 15 anos vive sua aposentadoria pelas ruas e praias do Rio de Janeiro. No primeiro domingo da casa nova, moradora recente que sou, me embananei com a porta e fui obrigada a tirar uma fechadura na marra - leia-se arrombar a porta de casa -, e ele me ajudou. Imbuído do sentimento que torna todos aqueles que moram do Paraná para baixo compatriotas, pediu da porta e ofereceu os serviços de eletricista e encanador. "Sou especialista."

Nesse dia, em especial, envergava uma camiseta do Grêmio com as listras pretas caprichosamente trocadas por pedaços de pano roxos. "Que é isso, seu Djalma, mistura de Grêmio com Caxias?", fiz troça. "Que nada, retrucou. Foi uma aposta. Achei que trocando o preto, essa 'cor do mal', pelo roxo, o time ia melhorar. Não adiantou", disse. Dei risada, ele balançou a cabeça. "Quem sabe ano que vem."

Outro dia, mesmo elevador. Dona Cleusa, a ascensorista da ala B do prédio, que entre às 18h e a meia noite se ocupa de subir e descer o sem fim de moradores que voltam para casa após mais um dia na cidade além 336, se abana, tentando espantar o calor. Pergunto do prédio, citos os 700 e tantos apartamentos, as tais histórias de lenda urbana contadas por taxistas, ela garante que não tem nada disso e dispara. "É um prédio muito bom. Moro aqui há 31 anos."  Quase 23h, olha ansiosa para o relógio. "Só quero saber de ir para casa, gosto tanto de ficar em casa...". Quem sou eu para duvidar.

9.12.13

Uma história de amor dessas que dão gosto de contar

Neste fim de semana aconteceu no Rio mais uma cerimônia de casamento coletivo gay, um projeto muito bacana organizado pelo programa Rio Sem Preconceito, parte da Secretaria de Direitos Humanos da cidade. Por conta do casório, fui atrás do povo que ia juntar os trapinhos oficialmente e tive a sorte de encontrar um casal que, além de simpático e apaixonado, resume muitas das questões enfrentadas pela comunidade gay hoje.

Negros, pobres e moradores de Belford Roxo, uma das regiões mais violentas da Baixada Fluminense, Márcio e Alexandre estão juntos há 15 anos, sonham em adotar uma menina, mas evitam andar de mãos dadas na rua. Toda a vizinhança foi a festa de casamento, menos a mãe de Alexandre. 

Exemplo desse nosso país em que se dá um passo a frente no caminho da aceitação e dois atrás, numa valsa confusa que tenta unir as pontas de um país que tem um pé no presente e boa parte do corpo amarrada ao passado e ao retrocesso. Nosso Brasilzão de contradições.

Foto do querido Mauro Pimentel.

Em prol dos cliques, segue apenas um trecho.


Juntos há 15 anos, casal participa de casamento gay coletivo no RJ e sonha em adotar menina


(Foto do Mauro Pimentel)

Alexandre Teodoro de Lima, 35 anos, e Marcio Nascimento Cunha, 41, se conheceram por meio de uma amiga há quase 15 anos. “Acho que você vai gostar dele”, disse ela a Márcio. Um com 20 anos, outro com 26, foi quase amor à primeira vista. Não deu seis meses já estavam morando juntos em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio.

Márcio, costureiro por vocação e auxiliar de serviços gerais para pagar as contas, já havia sido casado dois anos com um mecânico que morreu. Foi o primeiro namorado de Alexandre, também auxiliar de serviços gerais, que deixou a casa da mãe, evangélica, e até hoje descrente do casal, em prol do relacionamento.
Mais aqui.

8.12.13

Todo jornalista tem um quê de abutre

Trecho do vencedor do Pulitzer, Greg Marinovich, no Clube do Bangue Bangue, ao lembrar a primeira foto que vendeu para uma agência internacional.
"Era a chance de eu deixar a minha marca no mundo do fotojornalismo e, esperava, de abandonar as fileiras dos freelancers perpetuamente sem dinheiro. Pude fazer isso por causa da morte selvagem de um homem."

7.12.13

Palavra encontrada

A-lá-fi-a

Cortesia da Aline Custódio, que entende mais de buscas internéticas que eu.

Significa também "tudo de bom, felicidade".

Palavra perdida

Outro dia ganhei uma palavra de presente. É raro, mas às vezes acontece de nos darem uma delicadeza dessas assim, sem compromisso. Veio de uma moça em um festival de música. Ela queria muito entregar um cd para o povo de uma banda que eu ia entrevistar, ajudei, e ela veio com a palavra. Perguntei o que significava. "Sabe quando aparece "O" caminho em meio da desordem e é o caminho certo? É isso." Alguma coisa do candomblé temperada com muito de África, pelo que lembro. Tão bonita, tão sonora, tão cheia de história. E eu perdi. Ficou anotada entre os 350 bloquinhos que moravam comigo no Humaitá. Nem todos sobreviveram a mudança. Agora fico aqui, “alefa, aleia, como era mesmo?”, na esperança de cruzar com a moça ou a palavra outra vez.