13.12.13

Histórias do 336

Meu novo lar é um kitinete em um prédio que reúne outras 700 moradias de um cômodo só no mui valoroso bairro de Laranjeiras. A princípio, me assustei com os longos corredores verdes em que cada  porta equivale a, ao menos, uma alma - muita gente junta empilhada em um lugar só, temi -, mas conforme os dias passam percebo que mudei, na verdade, para uma pequena cidade de interior.

Por conta de um abridor de vinho tive a chance de conhecer alguns vizinhos. Como a dona Helena, que mora na porta ao lado, por exemplo, e descreve o abridor como "aquele de rosquear e puxar assim, pá (incluir largo movimento com as mãos rosqueando e puxando)". Ao todo, são 40 anos de 336. Vinte no quarto andar e outros 20 no oitavo. O suficiente para criar filhos, netos e, daqui a pouco, bisnetos.

Como não tinha o abridor -"só o de abrir pra cima, plac" -, me pegou pela mão e bateu comigo em outras duas portas. Dona Teresa e dona Lúcia, cada uma de um lado do corredor, assistiam a novela das 21h de porta aberta, proseando e bebericando uma cerveja, o que fazia bem mais sentido que meu humilde vinho de rolha neste dezembro tropical carioca, devo admitir, e ficaram felizes em ajudar.

Abridor em mãos, dona Helena foi comigo até a porta de casa e sorriu satisfeita. "Aqui todo mundo se conhece, pode bater quando precisar", disse, com seu ainda inconfundível sotaque pernambucano, indiferente ao pedido de abridor feito às já 22h e alguma coisa.

Entro no elevador, mais gente, mais histórias. Cruzo com seu Djalma, vindo do sexto andar, sorrindo com o cabelo grisalho desalinhado. Catarinense de Lages, fugiu do frio e há 15 anos vive sua aposentadoria pelas ruas e praias do Rio de Janeiro. No primeiro domingo da casa nova, moradora recente que sou, me embananei com a porta e fui obrigada a tirar uma fechadura na marra - leia-se arrombar a porta de casa -, e ele me ajudou. Imbuído do sentimento que torna todos aqueles que moram do Paraná para baixo compatriotas, pediu da porta e ofereceu os serviços de eletricista e encanador. "Sou especialista."

Nesse dia, em especial, envergava uma camiseta do Grêmio com as listras pretas caprichosamente trocadas por pedaços de pano roxos. "Que é isso, seu Djalma, mistura de Grêmio com Caxias?", fiz troça. "Que nada, retrucou. Foi uma aposta. Achei que trocando o preto, essa 'cor do mal', pelo roxo, o time ia melhorar. Não adiantou", disse. Dei risada, ele balançou a cabeça. "Quem sabe ano que vem."

Outro dia, mesmo elevador. Dona Cleusa, a ascensorista da ala B do prédio, que entre às 18h e a meia noite se ocupa de subir e descer o sem fim de moradores que voltam para casa após mais um dia na cidade além 336, se abana, tentando espantar o calor. Pergunto do prédio, citos os 700 e tantos apartamentos, as tais histórias de lenda urbana contadas por taxistas, ela garante que não tem nada disso e dispara. "É um prédio muito bom. Moro aqui há 31 anos."  Quase 23h, olha ansiosa para o relógio. "Só quero saber de ir para casa, gosto tanto de ficar em casa...". Quem sou eu para duvidar.

Nenhum comentário: