17.12.13

Milagrário

Me dei de presente, mais uma vez, um livro por conta do título. Quem resistiria a uma pequena brochura com a lombada azul celeste batizada de “milagrário pessoal”? Aposto que não fui a primeira leitor  que o angolano José Eduardo Agualusa ganhou com essa delicadeza.
Também prevejo pobreza no meu futuro graças a recém descoberta livraria localizada estrategicamente entre o ponto de ônibus e o escritório. Dessas de rede, mas organizada por amantes de livros, sabe? Com vitrines e bancadas que parecem ter saído de dentro da gente, tamanho o carinho da seleção. Mas tergiverso.
Este post é para registrar, além da vontade de imitar o narrador do livro e criar meu próprio milagrário pessoal – caderneta onde se anotam os pequenos e grandes milagres do cotidiano -, algumas frases doce de leite, roubadas da leitura. Dessas que dão vontade de guardar e reler e já valeram dobras ao longo do texto - tenho esse defeito. Todos meus livros acabam com uma ou outra ou muitas páginas com as pontas carinhosamente em triângulos, para lembrar um sei lá o quê, que nem sempre consigo decifrar.
Como a noção de desamparinho  (estou, percebe-se, numa fase de namorada das palavras, amando o português cada dia mais). Explica o narrador, “...desamparinho, na minha opinião uma das mais belas palavras do crioulo cabo-verdiano, dá nome àquela hora feliz, ao final da tarde, quando o dia cede lugar à noite, o calor esmorece e os velhos se sentam nos passeios, fruindo o fresco e as cigarras, e vendo as moças passarem sacudindo as ancas”.
Mais uma dobra, mais um pedaço de doce de leite, que descreve tão bem tantas primeiras vezes que a gente teima em guardar na memória com lugar cativo e iluminação especial. “Uma aventura. A maior da minha vida. Ou não, e eu sinto isso por ter sido a primeira.”
E, por fim, última dobra – me segurei pra não fazer isso com todas as páginas do livro -, um adágio em prol das raias e ideias incompreendidas. “Esperava-se que eu produzisse conjeturas esdrúxulas e perigosas, um pouco como se espera de uma raia que segregue eletricidade e magoe quem a tente agarrar. Perdoa-se às raias, não é assim? Afinal é da natureza delas defenderem-se dos potenciais inimigos com chicotadas elétricas.”

* Em tempo, Carol Maia me deu outra "palavra africana bonita" de presente semana passada: ubuntu, "eu sou porque nós somos". Lindo esse nosso português, não?

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