27.1.14

San Telmo, Buenos Aires, outubro de 2013

24.1.14

Rio de Janeiro sentimental

(Pôr-do-sol no Morro da Urca. Foto da Caroline Bianchi/Bianchi Jr)


O ano começou com a baby sister passando uma semana ao meu lado no novo ap e aquela saudadezinha do Rio que ataca a gente vez em quando, quando em vez, culpa da uma semana e pouco longe da cidade. Como Bianchi Jr é veterana em termos de Rio - está é a terceira vez que a moça passa por aqui -, pudemos, assim como em Buenos Aires, escapar dos roteiros tradicionais e passar a semana seguindo uma programação que gosto de chamar de "Rio de Janeiro sentimental", já que reúne quase todos os meus locais preferidos na cidade.

Então, caro leitor, se der a sorte de passar por essas bandas, eu te diria...

- Para ir à praia do Leme. Por mais que Ipanema e o Leblon façam a cabeça da galera, é naquele cantinho que de areia que me sinto mais a vontade. Porque o Leme tem a beleza de ser perto de tudo e ainda assim longe da muvuca, porque só vai ao Leme quem quer ir ao Leme, porque essa ponta da praia, além da pedra, que tem uma vista de algodão doce, consegue reunir o povo do asfalto e do morro e, de quebra, ainda ter preços mais camaradas das areias da zona sul.
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Depois, é só subir a ladeira e almoçar uma feijoada de frutos no mar do Bar do Davi, logo ali, na favela Chapéu Mangueira, vizinha à praia.

- Para passar um fim de tarde na mureta da Urca, um dos bairros mais charmosos do Rio. Da mureta se vê, além da cidade, um dos pôres-do-sol mais gostosos dessas bandas, com direito a barquinhos no mar e Cristo no fundo. Acrescido de cerveja e pastel, então, é imbatível. Mas fique pelo primeiro bar, o Urca Grill, logo que começa o burburinho, onde a cerveja ainda não é tão cara nem a mureta tão pop quando no agora famoso Bar Urca. Depois é só caminhar na direção do mar até o ponto final dos ônibus no bairro, de onde você pode, então, retornar saudoso para casa.

- Ir à Pedra do Sal, lá na zona portuária, sambar numa segunda e, se o calendário bater e você der a sorte de passar aqui num primeiro fim de semana do mês, ouvir um jazz por lá no sabadão. O local se orgulha de ser um dos pontos em que o samba nasceu e eu não duvido. Independente disso é um cantinho muito especial que merece a visita, além de reunir ar livre e boa música.

- Trocar a praia por uma das cachoeiras do Horto. Nem precisa ter muita localização. É só pegar o 409 até o ponto final e subir a rua que leva ao Parque Nacional da Tijuca. Os guardinhas informam numa boa onde ficam as cachoeiras. Uma versão mais preguiçosa do passeio inclui ir de táxi até a Vista Chinesa, aquela mesma que aparece no começo do filme de animação Rio, e, de lá, descer caminhando até o primeiro burburinho, entrada de uma das cachoeiras.

- Passar uma noite bebendo sem culpa e sem hora marcada ali na Praça São Salvador, em Laranjeiras. Em alguns sábados é possível até encontrar músicos tocando no coreto. Com carinha de interior a pracinha fica escondida perto do metrô Largo do Machado e ferve de segunda a segunda, ainda mais no verão. E ainda dá pra juntar a cerveja com pipoca, churras e todas essas gostosuras de praças - isso tanto às 19h quanto às 2h.

- Fechar o passeio com um pôr-do-sol no Morro da Urca, mas faze-lo a carioca: gastando zero tostões. É só subir a trilha que sai da pista Cláudio Coutinho, à esquerda da Praia Vermelha, na Urca, ali onde você pegaria o tradicional bondinho para o Pão de Açúcar. Como no verão o guardinha fecha o portão que liga o morro a trilha a volta é obrigatoriamente de bondinho e de graça.

Porque o Rio é uma dessas cidades para gente ser feliz e curtir, não marcar xizinho em ponto turístico. E olha que faltou o piquenique no Parque Lage, a volta de bicicleta pela lagoa e os pés-sujos de Botafogo...

Troféu diálogo surreal da semana

versão capacidade carioca de identificar sotaques

- Bom dia, esse ônibus vai pra Lapa? -, pergunto para o motorista de um ônibus x. Motora responde que não e um senhorzinho ao meu lado no ponto retruca.
- Hoje em dia a Lapa virou ponto turístico e todo mundo quer ir pra lá.
- Imagino que sim, mas vou a trabalho.
- Ah, é que você fica falando castelhano e a gente acha que é turista.
- Mas eu estava e estou falando em português.
- De que país você é?
- Brasil.

21.1.14

Para 2014

Faz uns meses rabisquei um desenho mega despretensioso baseado em uma conversa com uma amiga e no coração da moça, sempre levinho e aberto pro mundo, fotografei e mandei pra ela. E não é que ela e outra amiga pegaram o desenho e fizeram, de surpresa, a coisa mais meiga possível: o transformaram num cartão postal de boas novas pra esse ano recém chegado. Posto que o ano ainda cheira a novo, fica aí um desejo para 2014. 



A delicadeza é obra da Gabriela Voskelis e da Nanna Possa.

15.1.14

Mais 336

Ponho o pé no corredor para colocar o lixo para fora e cruzo com dona Ida, vizinha de porta, também com o lixo na mão. Me ofereço para levar o saquinho por ela; ela agradece.
“Obrigada por ajudar a velhinha”, sorri.
Sessenta e muitos, setenta e poucos?
“Você é mora aqui há pouco tempo?”, pergunta com um cigarro na mão esquerda e a porta aberta para uma quitinete milimetricamente organizada.
“Um mês e pouquinho.”
“Minha filha, você é casada?”, segue dona Ida.
“Não, sou solteira”, respondo, escolada em interrogatórios do gênero pela serra gaúcha.
“Eu sou solteirona”, ela retruca.
Silêncio. Já ia mudar de assunto, emendar alguma colocação sobre o prédio, a vista, ela continua.
“Mas tenho um namorado. A gente namora há 23 anos. Eu morava em São Paulo, ele aqui no Rio. Aposentei, comprei esse apartamento e me mudei. Dois velhos namorando”, sorri mais uma vez.
O táxi, sempre sem timing, resolve chegar na hora marcada. Tive que me despedir.
“Precisar de alguma coisa, é só falar. Você grita dai e eu grito daqui.”

Sorrio de volta e fecho a porta da minha quitinete, não tão milimetricamente organizada. Ah, essa minha cidade de interior em forma de edifício.

13.1.14

Argumento para uma futura história

Um casal de namorados, ébrio, tenta desligar um poste. Motivo: atrapalha apreciar as estrelas.

8.1.14

Deixa eu roubar mas um trecho, de um blog português com o nome mais português possível: escrever é triste. É epígrafe de um texto sobre a morte do jogador luso Eusébio. O texto, gostando ou não de futebol, também é muito bonito.

"O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste."

E é.

6.1.14

Um desejo para 2014

Escrever mais simples.

Sabe? Contar uma história contando, sem salamaleques desnecessários.

Ser capaz de tecer frases bonitas como, "Paciência: uns nascem para desentortar edifícios, outros para embrulhar o remorso numa folha de jornal", que roubei da última crônica do Antônio Prata na Folha.

A ver.