15.1.14

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Ponho o pé no corredor para colocar o lixo para fora e cruzo com dona Ida, vizinha de porta, também com o lixo na mão. Me ofereço para levar o saquinho por ela; ela agradece.
“Obrigada por ajudar a velhinha”, sorri.
Sessenta e muitos, setenta e poucos?
“Você é mora aqui há pouco tempo?”, pergunta com um cigarro na mão esquerda e a porta aberta para uma quitinete milimetricamente organizada.
“Um mês e pouquinho.”
“Minha filha, você é casada?”, segue dona Ida.
“Não, sou solteira”, respondo, escolada em interrogatórios do gênero pela serra gaúcha.
“Eu sou solteirona”, ela retruca.
Silêncio. Já ia mudar de assunto, emendar alguma colocação sobre o prédio, a vista, ela continua.
“Mas tenho um namorado. A gente namora há 23 anos. Eu morava em São Paulo, ele aqui no Rio. Aposentei, comprei esse apartamento e me mudei. Dois velhos namorando”, sorri mais uma vez.
O táxi, sempre sem timing, resolve chegar na hora marcada. Tive que me despedir.
“Precisar de alguma coisa, é só falar. Você grita dai e eu grito daqui.”

Sorrio de volta e fecho a porta da minha quitinete, não tão milimetricamente organizada. Ah, essa minha cidade de interior em forma de edifício.

Um comentário:

Pati Benvenuti disse...

“Minha filha, você é casada?”, segue dona Ida.
“Não, sou solteira”, respondo, escolada em interrogatórios do gênero pela serra gaúcha.

Sei bem como é :P