30.3.14

O castelo de cartas das UPPs no Rio

Em tempos de ocupação policial do Complexo da Maré e frenesi por conta da proximidade da Copa do Mundo e dos ataques a Unidades de Polícia Pacificadora do Rio vale ler uma entrevista que publiquei ainda em janeiro, quando o caos desenhava. A Julita, que já foi diretora do sistema prisional do Rio, toca em vários pontos importantes e ajuda a gente entender o castelo de cartas em que se sustenta a política de segurança pública do estado.

Aquele esquema. Um trechinho da materia por aqui e o resto lá no site.

Socióloga: UPPs têm dificuldade de se sustentar em qualquer governo

Julita Lemgruber foi a primeira mulher a comandar o sistema penitenciário do Rio de Janeiro entre 1991 e 1994 e hoje é coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes (Cesec) Foto: Daniel Ramalho / Terra
Julita Lemgruber foi a primeira mulher a comandar o sistema penitenciário do Rio de Janeiro entre 1991 e 1994 e hoje é coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes (Cesec)
Foto: Daniel Ramalho / Terra
  • Paula Bianchi
    Direto do Rio de Janeiro
Os recentes confrontos nas regiões do Rio de Janeiro que já receberam Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e o descontentamento dos moradores, que teve seu ápice com o assassinato do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza por PMs da UPP da Rocinha em junho, levantam dúvidas sobre a perenidade do modelo, implementado pelo governador Sérgio Cabral (PMDB), que deixa o Palácio da Guanabara no final do mês. Se antes as UPPs eram vistas como ilhas de tranquilidade, agora casos de violências nas comunidades ocupadas são comuns. Apenas em fevereiro, uma policial militar morreu ao ser baleada na UPP do Parque Proletário, na zona norte da cidade, e o coordenador geral das UPPs, coronel Frederico Caldas, foi ferido ao ser surpreendido por um tiroteio na Rocinha no domingo.
Para a socióloga Julita Lemgruber, primeira mulher a comandar o sistema penitenciário do Rio de Janeiro entre 1991 e 1994 e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes (Cesec), o modelo não tem como se sustentar no longo prazo. Ela define a política de segurança pública do Rio como “esquizofrênica” ao pregar o modelo de polícia de proximidade em parte do território e fechar os olhos para a violência e a letalidade dos agentes no resto do Estado. “Falamos da garotada lá no Flamengo que está querendo fazer justiça com as próprias mãos, mas o que a gente não vê é que eles estão replicando um modelo que o estado desenvolve no dia-a-dia.”
Terra - O modelo de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) se sustenta para além do governo Sérgio Cabral?
Julita - A UPPs têm dificuldades de se sustentar no longo prazo seja em que governo for. Mesmo que venha um governo que se proponha a dar continuidade ao programa, a modalidade de policiamento que as UPPs propõem implica em um número de policiais muito grande. Era mais fácil quando você só tinha meia dúzia. Todo o mecanismo de controle, tanto interno quanto externo, tinha mais chance de funcionar. Crescer nesse ritmo frenético - e estamos chegando a 40 UPPs, que é a meta até a Copa do Mundo -, é preocupante. A possibilidade de controlar a violência e a corrupção diminui muito. E é o que estamos vendo. O caso do Amarildo foi o mais emblemático, mas temos visto com frequência episódios envolvendo corrupção nessas unidades de polícia pacificadora.

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