10.4.14

A alicate e o feminismo

Podem invejar meu mimo ferramentoso paterno

Contei pro pai das minhas proezas com o chuveiro e ele me presenteou com esse embrulho bonito, com o básico para um ser humano se virar sozinho nos consertos da casa. E também com um pequeno esporro - quando fui morar em Porto Alegre ganhei ferramentas parecidas, incluindo uma alicate de estimação dele, que ficaram para trás na mudança apressada para o Rio.

Além de ter achado muito bacana - nem pedi, e ele que apareceu depois todo faceiro com a sacola antes de eu ir embora -, fiquei refletindo o quanto esse gesto fala em termos de criação de filhos e posicionamento da mulher na sociedade e como isso influenciou a forma como vejo o mundo.

O seu Paulo podia ter simplesmente me orientando a chamar alguém para fazer o serviço na próxima vez, como muita gente sugeriria. Mas ele preferiu me ver como um ser humano capaz de se virar independente do gênero (ou vocês acham que iriam sugerir que um guri chamasse um "marido de aluguel?).

A Carol Maia participa de uma banda/coletivo chamada Putinhas Aborteiras com uma balada muito bonita, a Gênero*, que discorre sobre as diferenças entre crescer menina e menino. Segue um trechinho:

"meu corpo tem seios e vagina
e um nome de menina
me foi dado ao nascer
logo a pequena carolina
ganhou coisas de casinha
e bonecas que eram bebês

já o meu irmão ganhou carrinhos
rolimã e um estilingue
coisas de brincar na rua
meninas e meninos desde cedo
aprendem com seus brinquedos
qual função será a sua"

É o mesmo mote de uma campanha contra o machismo equatoriana que já reproduzi aqui e o tipo de pequeno detalhe que vai construindo a nossa sociedade.

Eu e Bianchi Jr ganhamos carrinhos, fizemos casas em árvore, campeonatos de bolinha de gude, tivemos um carrinho de rolimã e até um carrinho de bombeiro (!) e por aí vai. Também ganhamos bonecas, brincamos de casinha e outras meninices, mas era apenas mais uma parte da brincadeira.

Nessas horas fico felizona em ter um pai feminista, mesmo que não declarado, e perceber como essas pequenas atitudes ao lado com a convivência com mulheres fortes e com opinião - minha família é um matriarcado serrano -, me fizeram quem sou hoje. Na hora de acessar a caixa de ferramentas da vida eu não quero uma delimitação por cromossomo, eu quero sempre poder ir all in. Ou como dizem as Putinhas:

"essas divisões são culturais
mas parecem naturais
algo que nasceu com a gente
porque existe uma ideologia
que diz que a biologia
é o que nos torna diferentes

o problema é que essa sociedade
discrimina os desviantes
e oprime a mulher
vamos mudar essa mentalidade
para que então toda a gente
possa ser como quiser"

*Gênero, Carolina Maia, Putinhas

4.4.14

Almoço vegano made in horta da casa do pai e da mãe



Aqui em Caxias a quinta foi de almoço vegano pra família toda - e o mais bacana, por acaso! Quando me dei conta do prato, fotografei e mandei pre Carol Maia, minha vegana de estimação. Sempre dividi apê e tive muitos amigos vegetarianos, mas ter alguém que não come absolutamente nada de origem animal por perto volta e meia faz a gente por a cabeça pra pensar.

O prato não está tão bonito porque lembrei na foto na hora que sentei e a fome foi maior que o desejo de enfeitá-lo. Aí a gente tem arroz, cenoura ralada, ervilha e milho refogados, repolho com redução de vinagre de vinho e farofa de pinhão, além de um generoso copo de suco de uva caseiro. Esnobando, tudo, menos o arroz e o repolho, foi produzido aqui na horta pelo seu Paulo e pela dona Marlei. O suco vem de uvas amigas, que viraram chimia (geléia) e depois tiveram o bagaço cozido com água, engarrafada e congelada pela mãe especialmente pras minhas visitas pra casa. O que me lembra. Não posso ficar tanto tempo longe daqui. Morre um pedaço miúdo de mim.

O arroz, a cenoura e o refogado eu confio que todo mundo é capaz de reproduzir sem problemas, mas o repolho, meu orgulho do dia, e a farofa merecem uma explicaçãozinha.

Pra fazer o repolho você pega um pedaço de uma cabeça (?) e corta em fatias com uns dois dedos de altura por uns três, quatro dedos de largura (olhômetro e bom senso são sempre boas pedidas nesses momentos). Daí é só colocar um fio de azeite generoso em uma frigideira e "grelhar" os pedaços de repolho, devidamente temperados com um pouquinho de sal e pimenta branca. Coisa de uns dois minutos cada lado, até ele ficar meio dourado/chamuscado. É legal tentar manter o pedaço inteiro, como se fosse um medalhão, o que nem sempre é possível. Depois tu aquece, na mesma frigideira, um pouco de vinagre de vinho com açúcar e um fiozinho de azeite de oliva. Espera reduzir e joga por cima do repolho, devidamente arrumado em uma travessa. Como o repolho é docinho, combina tri bem!

A farofa de pinhão dá um pouco mais de trabalho. É preciso cozinhar o pinhão na água, descascar e depois passar no mixer ou no liquidificador. Aqui em casa a mãe tinha um saco de farofa guardada no freezer - não há nada que aquele freezer salvador não tenha -, então partimos direto pra etapa B, de barbada. É só refogar o pinhão com cebola e cebolinha, temperar, esperar esquentar e jogar salsinha picada no fim e pronto. Almoço vegano e completinho! Aqui ainda rolou uma salada clássicona de alface, que o povo não passa sem um verde no prato.

3.4.14

Vir pra casa - e entenda-se por casa o sul, a serra, esta terra que me pariu -, é sempre uma maratona. Um táxi, um avião, um aeromóvel, um trem, um busão e uma carona da rodoviária até a João Bisol depois quase cheguei ao abraço da dona Marlei cantando, "você não saber o quanto eu caminheeeeeei pra chegar até aquiii".

Seu Geraldo

"Mulher não morre de infarte", diz o taxista. "Não tem coração". E começa a me contar, num sotaque potiguar rasgado, a história da sua vida. Faz 80 anos mês que vem, é do interior do Rio Grande do Norte e desde os dez mora no Rio. Foi caminhoneiro a vida inteira, o táxi é uma diversão pra manter a cabeça "arejada". Comprou o caminhão com o dinheiro que juntou vendendo leite de porta em porta. "Antigamente madame não ia a botequim, pedia tudo em casa." Dirige só de manhã. Cruzou o país inteiro várias vezes. Ia carregando madeira de Erechim, no Rio Grande, a João Pessoa, e voltava com a carga que aparecesse. Casou cedo - a filha mais velha tem 60 anos e é engenheira aposentada da Petrobras -, porque antigamente "conseguir mulher era uma coisa muito difícil". "A gente tinha que ir pra zona, o "redevu". Pra você conseguir dar um beijo na boca, meu deus, era uma dificuldade. Passava um vento, a gente via um pouco mais que a canela das moças e  era um alvoroço. Que diferença pra hoje. Hoje as mulheres que cantam os rapazes." Acabou casando com uma colega de escola que conheceu aos 12 anos. Soube que queria namorá-la em um dia de calor, quando ela mexeu na manga da blusa e ele conseguiu ver os pelos do axila dela. "Naquele tempo mulher não raspava o sovaco e eu fiquei louco. Disse pra ela, 'Lúcia, mas você já ta mocinha!'". Pediu permissão pra levá-la ao cinema. Os pais não gostaram. Ameaçou fugir. "Avisei que se não deixassem eu ia roubar ela, e eu ia roubar mesmo!". A mãe convenceu a filha de que se ela deixasse ele encostar na mão dela que fosse a barriga dela ia crescer, e crescer e crescer sem parar. "Pior que nós dois acreditamos, às vezes eu esbarrava nela, e fica até com medo." Foram ter mais alguma intimidade mesmo só depois de casados mesmo, quando fizeram 20 anos. Seu Geraldo culpa o "estado geral da sociedade" às mulheres. "A mulherada revolucionou tudo. Virou o quadro. São mais inteligentes, mais tudo. Homem se tivesse que parir no primeiro filho já ia pra terra da canela junta." Filosofou sobre como o estresse toma conta das pessoas, assombrado por eu morar sozinha e sem medo por estar bandas. Desejou tudo de bom, suspirou pelo passado. "Ai que saudade daquele tempo, ai que saudade de Erechim. No fim todo mundo morre do coração, já que a gente só se vai quando ele para de bater."