3.4.14

Seu Geraldo

"Mulher não morre de infarte", diz o taxista. "Não tem coração". E começa a me contar, num sotaque potiguar rasgado, a história da sua vida. Faz 80 anos mês que vem, é do interior do Rio Grande do Norte e desde os dez mora no Rio. Foi caminhoneiro a vida inteira, o táxi é uma diversão pra manter a cabeça "arejada". Comprou o caminhão com o dinheiro que juntou vendendo leite de porta em porta. "Antigamente madame não ia a botequim, pedia tudo em casa." Dirige só de manhã. Cruzou o país inteiro várias vezes. Ia carregando madeira de Erechim, no Rio Grande, a João Pessoa, e voltava com a carga que aparecesse. Casou cedo - a filha mais velha tem 60 anos e é engenheira aposentada da Petrobras -, porque antigamente "conseguir mulher era uma coisa muito difícil". "A gente tinha que ir pra zona, o "redevu". Pra você conseguir dar um beijo na boca, meu deus, era uma dificuldade. Passava um vento, a gente via um pouco mais que a canela das moças e  era um alvoroço. Que diferença pra hoje. Hoje as mulheres que cantam os rapazes." Acabou casando com uma colega de escola que conheceu aos 12 anos. Soube que queria namorá-la em um dia de calor, quando ela mexeu na manga da blusa e ele conseguiu ver os pelos do axila dela. "Naquele tempo mulher não raspava o sovaco e eu fiquei louco. Disse pra ela, 'Lúcia, mas você já ta mocinha!'". Pediu permissão pra levá-la ao cinema. Os pais não gostaram. Ameaçou fugir. "Avisei que se não deixassem eu ia roubar ela, e eu ia roubar mesmo!". A mãe convenceu a filha de que se ela deixasse ele encostar na mão dela que fosse a barriga dela ia crescer, e crescer e crescer sem parar. "Pior que nós dois acreditamos, às vezes eu esbarrava nela, e fica até com medo." Foram ter mais alguma intimidade mesmo só depois de casados mesmo, quando fizeram 20 anos. Seu Geraldo culpa o "estado geral da sociedade" às mulheres. "A mulherada revolucionou tudo. Virou o quadro. São mais inteligentes, mais tudo. Homem se tivesse que parir no primeiro filho já ia pra terra da canela junta." Filosofou sobre como o estresse toma conta das pessoas, assombrado por eu morar sozinha e sem medo por estar bandas. Desejou tudo de bom, suspirou pelo passado. "Ai que saudade daquele tempo, ai que saudade de Erechim. No fim todo mundo morre do coração, já que a gente só se vai quando ele para de bater."

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