21.8.14

A valsa do afeto e da dor

Não me deixem sozinha em casa com tempo livre. Corro o risco de cometer textos.

Com carinho, para A. e V. Que seja doce, já dizia Caio F.


A valsa do afeto e da dor


Eles se encontraram pela primeira vez no Rio. Obra do acaso e de amigos que achavam que os dois, mineiros exilados, se dariam bem. Se deram melhor e a história, que poderia ter começado e terminado com a fogueira da festa junina que embalava a noite, foi além.

A segunda vez foi a vez de SP ser o pano de fundo do encontro, já não tão casual. Ela cheia de expectativas, mestrado fora, passagens compradas pra breve, recém curada de um desamor comprido; ele tímido,desacostumado que estava de ter alguém o querendo também. Os dois amaciados pelo afeto que crescia sem pedir licença. Se apaixonaram ali, talvez?

A terceira foi na Espanha. Ferias dele, intervalo das aulas dela. Tudo lindo até ela ve-lo, uma vez mais, fazendo as malas. "presença a gente não leva de baixo do braço, nem tem como guardar pra aquecer o inverno", pensou, sofrendo a partida desde a hora em que ele chegou e azedando os dias.

Da quarta vez, em Bruxelas, quase nem se viram. Valia a pena mesmo seguir sem certeza de final feliz? Acabaram se encontrando, se amando, imaginando um futuro que de distante passou a vizinho e já ensaiava bater na porta.

Quinta vez, quinta cidade.Sonharam de olhos abertos, já não haveria com o que se preocupar e tudo correria doce. Berlim tentou sorrir, não foi o bastante. O que era para ser brisa leve, virou tornado. Amor quebrado, repetia ela. Amor no começo, insistia ele. Choraram, velando a história que ainda não tinha nascido. Se despediram, doídos, para nunca mais.

Na sexta vez, Rio de novo. Sem planos, sem oceanos, mais uma vez o acaso e os amigos. Ele barbudo; ela de cabelos curtos. Ele seguro, ela claudicante. Ao se ver, sorriram.

Sentaram para conversar na beira da praia. Dois mineiros sós. Mineiros sem mar. Maltratados que estavam depois de tantas estradas tortas, era difícil esquecer as malas de poréns guardados. Quando perceberam já ensaiavam dançar uma vez mais a valsa do afeto e da dor. Se apaixonariam de novo ali, talvez?

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