30.12.15

Para 2016


Em 2014, escrevi por aqui que, independente das bizarrices do ano, a vida quem vive é a gente, segunda, terça, ônibus, almoço, contas, sexta à noite, e por aí vai, sem folga. E é, mais uma vez, focando no meu caro umbigo – porque 2015, em termos nacionais e mundiais, francamente, o que falta acontecer? -, que faço essa retrospectiva.

O fim de ano me pegou de susto. Nem lembrava da existência de 2016 e ele apareceu, abanando além da esquina. Ao contrário do ano passado, em que me agarrava à esperança de que uma virada na folhinha levaria também todo o drama dos últimos 12 meses, chego aqui pensando que, por mim, 2015 ainda podia durar mais um pouquinho.

Lembro de ter feito uma lista de resoluções enquanto passava a primeira semana do ano com o povo em São Thomé das Letras, em Minas, e estou curiosa para encontrá-la e saber o quanto restou por fazer – sei que itens como voltar a estudar e usar mais batom (a lista, veja vem, tinha um grau variável de seriedade), foram devidamente riscados, mas é sempre bacana voltar à gente e ver o que nos movia há um tempo atrás.

De qualquer forma, foi um ano bom. Não foi um ano de grandes aventuras, mas foi um tempo de navegar. A calmaria costuma perder espaço na memória frente a qualquer momento mais frenético, mas há beleza em apenas ser, sem precisar lutar por isso.

Esse ano, como escrevi a uns posts atrás, não teve passaralho - como são chamadas as demissões no mundo jornalístico -, nem Copa ou paixões, e apenas isso já seria o suficiente para agradecer (e também me faz temer 2016, que já vem com Olimpíadas e eleições nas costas).

Mas 2015 foi ainda o ano em que voltei a estudar – alou sociologia urbana, alou Uerj! -, passei um mês mochilando a Colômbia, acrescentei mais bons amigos a lista de pessoas com quem tenho prazer de dividir os dias e, depois de um ano e meio morando all by myself, retornei a uma casa compartilhada, com a vantagem de pores do sol na rede da varanda e a presença sempre doce de dois roomies sensacionais.

Também fiz uma boa quantidade de reportagens das quais posso me orgulhar, passei o Carnaval ao lado da galera da Fabico depois de ter passado um fim de semana com eles, comemorando os 10 anos de amizade e da chegada à faculdade, coloquei a visita aos amigos em outros Estados em dia (MG, esse ano vai ser a tua vez) e parei até no Piauí fazendo matérias. Ufa. No meio disso tudo, ainda rolaram vários bons momentos, tanto em SP, quanto em Brasília, Caxias e no Rio.

2015 teve ainda alguma amargura. Caiu a ficha da passagem do tempo, bateu algum medo da solidão, algumas amizades deram uma estremecida e me liguei que os 30 tão logo ali, quase tão perto quanto 2016. Lidar com isso de uma forma saudável não deixa de ser uma boa meta para os próximos meses.

Como não pensei muito em 2016 também não cheguei a fazer nenhuma lista. Quem sabe nos próximos dias? Dá para manter os já tradicionais fazer mais exercícios, escrever e desenhar mais, comer melhor e por aí vai. Acrescentaria ainda as pequenezas como usar menos o telefone celular – ô vício dos tempos modernos -, e as redes sociais, e aprender a pegar jacaré e a jogar xadrez.

Mas mais do que isso, caro 2016, venha com erros novos. Porque a gente vai errar, dar murro em ponta de faca, bater com a cabeça na parede, não tem jeito. Mas que sejam, ao menos, erros novos, que dos velhos eu já tirei todo o aprendizado que podia.

Ta aí. Acho que se for para desejar algo, é isso. Por mais 365 dias para errar diferente e, no meio disso tudo, acertar um pouco também e, quem sabe, viver mais algumas aventuras.

P.S. Rá! Achei as resoluções do ano passado - na verdade, uma espécie de carta que escrevi para meu eu do futuro. E, poxa, que demais ver que o futuro chegou e cumpri duas das principais resoluções - voltar a estudar e viajar. Elas chegavam a estar pontuadas no P.S. Respondi um "sim, sra" mental e sorri. Um grande 2016 para todos nós!

19.12.15

Cicatrizes

Não sei vocês, mas eu tenho uma bela coleção de cicatrizes. E não falo metaforicamente. Sou cheia desses pequenos cortes, cada um, a sua maneira, com uma história para contar. Muitas, inclusive, viraram boas lembranças. Por mais que eu ache que meu joelho passaria bem sem a pequena elevação roxa um tanto quanto feiosa que ele ganhou nas últimas férias, não deixa de ser legal olhar pra ele e lembrar que, na mesma noite em que me estabaquei ao pisar em falso num degrau em uma pousada sem luz me sentindo o mais desastrado dos seres humanos, também passei, um joelho limpo e corte coberto com papel higiênico para estancar o sangue depois, um bom par de horas deitada na areia admirando o céu mais coalhado de estrelas que já vi em uma praia quase deserta de um caribe colombiano de sonho. O mesmo vale para as mais antigas. Só tem no meio da testa uma cicatriz de “ai meu deus se eu não morrer minha mãe me mata” por ter perdido o controle da bicicleta numa tarde de verão quem não via problemas em ser crianças e desafiar a gravidade e o bom senso em duas rodas. Olho, mais uma vez, meu joelho e sua mais nova marquinha e penso que toda a dor, de certa forma, carrega, se não alguma beleza, aprendizado. E seguimos. Evitando escadas em noites sem luz e colecionando memórias.


18.12.15

Rabiscos da Câmara

Do bloquinho na quarta-feira. Deputados Eduardo Cunha and Aníbal Gomes.


Spice, para apimentar a última sexta útil do ano

E o meu coraçãozinho fica pura nostalgia com essa versão da Mel C. de Too Much, das Spice, que muito alentaram minha pré-adolescência.

15.12.15

Carlos, Cleiton, Roberto, Wilton e Wesley

E teve essa história aqui, triste por demais, sobre os garotos assassinados pela PM na zona norte do Rio agora no fim de novembro, que acabei esquecendo de postar por estas bandas. Das matérias que deveriam ser a mais abusarda das exceções, e acabam se repetindo de novo e de novo. Porque quem mora além do Rebouças também tem nomes, histórias e sonhos.

14.12.15

Adeus às armas, 2015

E lá se vai 2015 dobrando a esquina, sorrateiro. Um ano – excluindo o mundo ao redor e a realidade política nacional –, tranquilo. Sem Copa, sem passaralho, sem novas paixões pra irem a pique. Ano para navegar. 2016, ainda mal pensei em você. O que será de nós?

Pequeno mapa romântico sentimental da Colômbia


11.12.15

Sobre machismos cotidianos

11 de dezembro de 2015.

Algum elevador em um prédio de escritórios no centro do Rio.

Três engravatados conversam sobre uma vaga. Um deles comenta que há dois candidatos muito qualificados, um homem e uma mulher. Outro pergunta se ele tem alguma preferência – ‘homem ou mulher’. Ele diz que não. O terceiro retruca.

“Homem. Sempre. Mulher fica de conversinha, de mimimi.”

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2015, amigos.
E esse dezembro da pá virada, como faz?

25.11.15

Pizza caseira e gauchada em casa

A visita do Ale Lucchese e a consequente reunião de não dois, mas três fabicanos lá em casa em uma mesma noite – Carol Maia fez a ponte São Cristóvão-Laranjeiras e também prestigiou o apê com sua ilustre presença -, me deu a desculpa para sujar a mesa lá de casa e tentar fazer uma homemade pizza. Meia garrafa de vinho branco e umas duas horas depois, o resultado foi tão bacana que me deu vontade de tirar também o pó do Momento Chef aqui do blog.

Me inspirei em algumas massas de pizza que vi na internet mais o velho fator “é o que tem em casa” e fui colocando as coisas meio a olho. Basicamente, tu mistura farinha, sal, açúcar, fermento (era para ser biológico, usei Royal), azeite de oliva e água morna. Fiz na proporção seis xícaras de farinha, duas colheres rasas de açúcar mais pitadas e pitadões do resto.

Primeiro é preciso misturar tudo, amassar com carinho e alguma força e deixar a massa descansar por mais ou menos uma hora. Acho que usando o fermento biológico ela deve crescer bem. A minha ficou meio jururu, mas não atrapalhou o resultado final.

Massa crescida, é só fazer bolinhas e abrir em discos. Eu, que apesar de filha de mãe gringa não tenho rolo de macarrão, usei uma garrafa de vinho vazia de outros carnavais. Massa na forma, forma no forno por uns dez minutos para pré-assar, coloca o recheio, volta para o forno e voi-á-lá: você tem a sua one and only pizza caseira.

Fiz duas: uma marguerita, com queijo mussarela, tomatinhos cerejas e manjericão, tudo espalhado em cima da massa sem muito compromisso, e outra vegana, para a Carol, coberta com ratatouille (nome chique pra picadinho de legumes – cebola, berinjela, abobrinha e pimentão - refogados) e castanha ralada.

A foto da pizza eu vou, para variar, ficar devendo – aquela história, o papo tava bom, a gente estava com fome, a garrafa de vinho já estava a muito no fim, ninguém nem pensou em registrá-la. A ver, tô pensando em fazer um desenho, quem sabe, para resolver isso.

Mas acreditem, ficou bonita, lisinha, digna até de ligar para casa e contar para a mãe padeira toda orgulhosa. E a receita ainda tem aquela beleza de ser facinha, facinha.

***

Pra não dizer que ficamos sem imagens da noite, foco na Kafi, divando no colo do Breno, um dos meus roomates, e tentando ver se sobrava ao menos uma lasquinha de pizza pra ela.


24.11.15

Os indígenas e a luta pela terra no Mato Grosso do Sul

Parte da beleza de ser jornalista está em conversar e dar espaço a pessoas bacanas, que merecem o nosso tempo e o do leitor. Conversando com o antropólogo guarani-kaiowá Tonico Benites me surpreendi ao descobrir que as reservas criadas pelo governo são vistas pelos indígenas como locais de confinamento. A expulsão dos índios de suas terras para essas áreas, diz Benites, está na raiz de todos os conflitos no Estado. Com a PEC 215 a todo vapor na Câmara de Deputados, vale muito tomar uns minutos para entender esse emaranhado todo que tornou o Mato Grosso do Sul campeão em assassinato de indígenas - foram quase 400 mortos nos últimos dez anos –, e o que faz famílias inteiras deixarem esses espaços e enfrentarem fazendeiros e milícias armadas para voltar para as suas terras.

Índios que vivem em reservas estão confinados, diz líder guarani-kaiowá

Ao menos 390 indígenas foram assassinados entre 2003 e 2014 no Mato Grosso do Sul, segundo relatório do Cimi (Conselho Indigenista Missionário). O número de assassinatos é mais que a soma dos índios mortos em todo o resto do país no mesmo período (364). Para o antropólogo e professor Tonico Benites, no entanto, essa é apenas a face mais cruel da luta pela terra no Estado.
Para Benites, as reservas criadas pelo governo são locais de "confinamento". Guarani-kaiowá nascido na aldeia Sassoró, em Tacuru (MS) e pós-doutorando em antropologia pelo Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ele já foi ameaçado de morte quando fazia pesquisas na região e vê na expulsão dos índios de suas terras para essas áreas a raiz dos conflitos. A única solução, defende, é a devolução de parte do território do Estado para os indígenas.
UOL - Qual a situação dos povos indígenas no Mato Grosso do Sul?
Tonico Benites - O Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indígena do Brasil [em primeiro lugar vem o Amazonas]. São 77 mil indígenas, cerca de 47 mil apenas guarani kaiowá, concentrados no sul do Estado, na fronteira com o Paraguai. O principal problema é a disputa pela terra, que já é demandada há muito tempo. Frente à demora na regularização dos territórios, os indígenas reocuparam uma parte.
Entrevista completa, cliques e tal, aqui.

21.11.15

Gol anulado e a Maria da Penha

Tava aqui, de bobeira, em mais um plantão do barulho, quando me dei conta que tem violência doméstica ATÉ NAS CANÇÕES DA ELIS.



A música segue linda, mas esse "tirei sem pensar o cinto e bati até cansar" me ficou travado na garganta.

20.11.15

Quase balzaca

Reclamo com uma amiga que vi uma matrona italiana surgindo no espelho. Ela retruca: “tenho comprado cremes para rugas AND espinhas”. Estranho esse mundo que se avizinha dos 30.

11.11.15

El Tiempo esta despues



E mais uma versão, pra aquecer o fim da primavera.

9.11.15

Pequenos grandes assédios [#AgoraÉQueSãoElas] - ou Palim no Vitralizado

Oi oi oi. Passando rapidinho aqui só pra dizer que hoje (sábado, na verdade) tem Palim lá no Vitralizado, como parte da campanha #agoraéquesãoelas. O plano era falar de pop, mas acabou que foi difícil fugir do tema da semana e teci algumas linhas sobre os tais dos pequenos grandes assédios a que nós acabamos nos habituando cotidianamente.

6.11.15

Diálogos ciclísticos

Amigas combinam de sair para pedalar no fim de semana.

- Tô tão sedentária que no fim de semana passado andei meia hora de bicicleta e quase morri. Sério. Quase morri.

- Eu tenho vindo de bike para o trabalho. Hoje também quase morri, mas não pelo exercício. Mais pelos ônibus que esquecem que sou um ser humano.

3.11.15

Para a Fernanda

Lá pelos idos do longínquo 2008 (?) miss Fernanda Schossler foi morar comigo por uns meses num apartamento pertinho da faculdade, em que sobrava amor, loucura e cerveja, incluindo na parte da loucura nossa roomate bipolar de quem, com frequência, nos escondíamos, com a desculpa de estarmos dormindo. 
Também foi nessa época que a Fer passou a trabalhar na Centro, onde ela segue até hoje, depois de uma longa e tensa seleção. A gente acha que um estágio é só um estágio, mas quanto de uma vida não muda pelo simples fato de decidir trabalhar em um lugar e não em outro? 
Não sei precisar agora se foi na primeira ou segunda semana lá, seguramente no primeiro mês, que alguém da firma começou com a brincadeira inocente de chamar o Luciano de marido da Fernanda. A alemoa entrou nessa também e nos contou, entre risos, que havia arrumado um marido de mentira na agência. 
Até então, a coisa não ia além disso, mas eu bem tive uma aula semana passada em que o professor nos lembrou do poder da linguagem: "A forma como a gente narra o mundo constitui o mundo". 
Que desse marido imaginário o Lu tenha se tornado um marido real e, para falar bem a verdade, um dos melhores companheiros que eu como amiga poderia querer para uma das minhas melhores amigas, é de uma coincidência tão grande que parece mais história que qualquer outra coisa. Mas também a gente sabe que é dessas realidades que nascem as histórias para contar para os netos e as fábulas que nos fazem acreditar que é possível sim achar alguém para dividir a vida nesse emaranhado maluco de seis bilhões de almas.
Na sexta-feira à tarde, a Fernanda e o Luciano casaram num cartório qualquer de Porto Alegre, sem chuva de arroz nem festa, coisa de quem já estava casado há bem mais tempo, só não se tinha dado o trabalho de colocar as coisas em papel timbrado. 
E casamos nós todos um pouquinho, vendo mais uma página da inexorável caminhada rumo ao mundo adulto ser virada.
Ficam aqui os meus parabéns.
Amo vocês.
Ainda veto bebê Schossler-Lírio por motivos de bar.

23.10.15

O Morar Carioca que nunca saiu do papel

Faz tempo que não rolava nenhuma propaganda descarada das minhas matérias por aqui. Verdade que como eu passei um bom mês de férias também faz tempo que não escrevia nada que merecesse ser compartilhado. Pra sanar a míngua de reportagens e posts, segue um texto que se não é sensacional lembra um pouco o caos com que convive a galera aqui no Rio.

Orçada em R$ 8,5 bi, urbanização de favelas no Rio só concluiu 3 projetos

(foto: Zulmair Rocha/UOL)


Lançado pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 2010 e orçado em R$ 8,5 bilhões, o programa Morar Carioca transformou em política pública a ambiciosa promessa de urbanizar todas as 763 favelas da cidade, estabelecendo como prazo o ano de 2020. De lá para cá, no entanto, reclamam urbanistas e moradores, pouco foi feito. Dos 40 escritórios de arquitetura escolhidos por concurso para o tocar o projeto, apenas 11 foram contratados e três projetos concluídos e, segundo a Secretaria Municipal de Habitação, não há garantias de que os outros 29 escritórios serão chamados.
"Mudança não teve, só para pior", diz Carlos Hipólito, 43, morador da rua Esperança, na favela Vila União Curicica, localizada na zona oeste do Rio, a cerca de 40 quilômetros do centro da cidade. Ele e os vizinhos passaram parte da manhã do dia 14 de outubro ocupados em colocar fogo em meia dúzia de pneus a fim de fechar uma das ruas paralelas à comunidade em protesto pela falta de água no local, ainda sem saneamento, calçamento ou abastecimento de água formal.
A matéria continua acá.

9.10.15

O melhor meme de todos os tempos da última semana


Minha humilde contribuição, 
rabiscada entre uma pauta e outra (pra quem não entendeu nada, aqui ó).

6.10.15

Elza Soares e setembro

Pulamos setembro. Culpa/graças às férias. Foi um belo mês viajando a Colômbia sem celular e acessando a internet aqui e ali, bem pouquinho, mais para dizer a dona Marlei que a viagem ia bem e que eu seguia viva, respirando e me divertindo. Foi bom apenas ser, sem preocupações jornalísticas ou mesmo de relatar por aqui, como já fiz antes, os caminhos e descaminhos da viagem.

Para compensar a falta divido com vocês minha mais nova descoberta: o novo cd da grande Elza Soares. Me apaixonei pela Elza faz uns anos num show desses pra guardar no coração pro resto da vida no salão de atos da UFRGS.

Eu e a Débora caímos lá por acaso, sem saber muito da história ou da música da moça – já longe de ser moça há tempos, mas com uma vitalidade de fazer invejar qualquer guria de 20 anos. Estudantes interessadas na vida que éramos, topávamos qualquer parada a 1 quilo de alimentos que aparecesse. Saímos fãs para o resto da vida, depois de passar dez minutos em pé batendo palmas e gritando junto com o resto da plateia, também extasiada, pelo bis que nunca veio.

Vida longa a Elza, verdadeira mulher do fim do mundo, que já começa nos rasgando por dentro cantando à capela a primeira canção.

30.8.15

Ao Ildo, melhor garçom da Lanchera

Quando mudei pro Rio, fui tomar uma cerveja derradeira na Lanchera e avisei o Ildo que estava de partida. Ele pediu um momento, correu, pegou caneta e papel, e trouxe o telefone de um primo que fazia mestrado por aqui pra eu ligar caso precisasse de alguma coisa. "Cidade nova, a gente nunca sabe." Vou perder a despedida - acabou que deu tudo tão certo que sigo por estas bandas já há uns bons cinco anos -, mas ficou o gesto. Nessa vida tão corrida e maluca da gente eu, que sai da serra para o Bomfim pra fazer faculdade, tinha no Ildo e na Lanchera parte da minha família em Porto Alegre, assim como tantos outros estudantes pé-rapados que equilibravam o mês entre o RU e o xis coração prensado. Como a gente sempre quer que os lugares em que foi feliz e tem saudade permaneçam os mesmos, torço pra que essa nova fase longe da Oswaldo seja sensacional, maaaas ‪#‎ficaIldo‬!

Plantão ao som dos bandolins



Pra animar essa domingueira de sol passada boa parte dentro da redação.

28.8.15

Mujica e a esperança

Deixa eu tomar dois minutos para falar da beleza de ver o Pepe Mujica, meu gaulês preferido, sentado ontem na Uerj, aqui no Rio, “falando com a juventude”, como fez questão este jovem senhor de 80 anos. O senhor ali naquela mesa, recebido com gritos, suspiros e sinalizadores (!), parecia mais um rockstar que um ex-presidente e ex-preso político de um pequeno país de pouco mais de três milhões de habitantes plantando no sul do mundo. E quem diria que a nossa juventude ainda seria capaz de ovacionar alguém ao ouvir frases como é ‘"é preciso começar a pensar como espécie, não como país"? Tinha outras tantas frases de efeito anotadas que tinha vontade de escrever aqui – e que calham de descer muito verdadeiras quando ditas por alguém que de fato dedicou a vida a viver como pensou -, mas, bom, ficaram para trás junto com os outros 50 bloquinhos que não saíram de casa comigo hoje, e vocês, de certo, lerão matérias melhores sobre a noite passada por aí. Mas fato é. Nesse tempo em que a gente é ensinado a desacreditar antes de por o pé na rua, Mujica e toda a sua trajetória nos lembram que a esperança/necessidade de lutar por um mundo melhor não são nem nunca serão démodé. A fala toda do Pepe e a alegria daquela multidão que o ouvia me deu vontade de citar o seu conterrâneo Galeano (que, por sua vez, também citava alguém, que eu já não lembro mais): “caminhamos dois passos, a utopia se afasta dois passos. Então para que serve a utopia? Para caminhar.”

27.8.15

Volta às aulas



Rabisco entre uma e outra teorização nas noites de estudos de sociologia urbana.

Daltonismo automibilístico

Tenho um problema sério. Sou incapaz de distinguir modelos de carro. O taxista diz ao telefone, “estou numa Zafira”, eu penso, “que bom pra você, amigo, agora diz algo que ajude. Qual é o número do carro, o senhor usa moicano?”.

13.8.15

O crime da cobradora

Rio de Janeiro, perto do meio dia. Uma dessas linhas de ônibus que vão da grande Laranjeiras à estação central. Leio um tanto quanto desatenta. Uma senhora faz psiu para a cobradora liberar a roleta para ela. A cobradora, que dava o troco para outra mulher, retruca, seca, mas polida, “um momento, senhora, estou terminando de dar o troco para uma passageira”. Senhora bufa. Cobradora a libera. Mulher sentada em algum lugar do ônibus grita, “você tem que ter educação! Tem que respeitar os mais velhos! Você é uma grossa!”. Outras duas mulheres começam a fazer coro e a xingar a cobradora também. Cobradora se recusa a pedir desculpas, diz que apenas pediu para a senhora esperar. Indignada, uma das mulheres grita que conhece os seus direitos, irá dar queixa na polícia, e ordena ao motorista que pare no primeiro posto da PM, que a cobradora tem que ir presa! O crime da cobradora. Esquecer o seu lugar na Casa Grande e Senzala.

11.8.15

Begha e seu cine de rua e na bike para crianças na Maré

Deixa eu apresentar pra vocês o Bhega, um desses seres humanos que fazem a gente acreditar na humanidade. Com uma bike e um projetor, ele montou um cineminha de rua em que passa filmes para crianças no Complexo de Favelas da Maré.

E mais não digo, leiam aí. :)

Morador da Maré vende óleo usado para financiar cinema na rua para crianças


Toda quinta, sexta e sábado, por volta das 19h, o músico Begha Silva, 56, escolhe um beco entre o sem fim de vielas que compõem o Complexo de favelas da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, e transforma a rua em um cinema a céu aberto. O público são as crianças do Complexo de cerca de 130 mil habitantes que correm de encontro ao músico a cada nova sessão. 
Begha, que ganha a vida fazendo anúncios pela favela com uma caixa de som presa à inseparável bicicleta, teve a ideia em 2013, ao ver a curiosidade com que os pequenos acompanhavam o seu trajeto. Em novembro, orgulha-se, o 'cinema no beco' completa dois anos. "A comunidade não tem nada para as crianças", diz. "Cinema é caro demais, tudo dentro do shopping. Muitos pais não têm nem como pagar a condução, muito menos o ingresso."
Continua aqui.

9.8.15

Dia dos pais

Desde pequena, decidi que queria ter uma assinatura marcante, inspirada na assinatura do pai, que até hoje me parece linda, altiva e quase que incompreensível. Apesar de ser capaz de desenhar uma letra de professora de colégio (que o jornalismo e a taquigrafia de pautas arruinaram), cresci tentando imitar a assinatura dele. Tentava daqui, tentava dali, nada de igualar a robusteza dos Ps e Bs, a sutileza do formato. Um dia me dei por satisfeita e cheguei, orgulhosa, num arrozoado meu que lembrava, de longe, o do seu Paulo, e que uso até hoje. Daí eu descobri que ele nunca teve assinatura nenhuma, aquela era apenas a forma como ele escreve Paulo Bianchi em sua letra particularmente ruim. Usando o dia dos pais como pano de manga pra reflexão, acho que ainda sigo nessa. Tentando ser mais Paulo Bianchi na vida, repetir a forma generosa como ele vê as pessoas e o mundo, quando ele apenas sai por aí sendo, com a maior naturalidade, sem tomar nem dois segundos para pensar a respeito. Lembro que tem churrascão com a família toda na grande Caxias do Sul e eu estou atrás do pc em mais um domingo de plantão e penso que, em grande parte, é culpa dele. Quem mandou me criar com esse gosto por ver o mundo e essa curiosidade por gente. Almas arrueiras, filhos arrueiros, seu Paulo. Ainda bem.

6.8.15

Sobre mudar

Tava aqui pensando com meus botões como, sim, a gente muda e nem percebe.
Eu, que gostava mais de Rolling Stones, hoje quase só ouço Beatles; que não comia berinjela, coloquei o legume no topo da lista de compras do mercado; que amava a casa cheia me vejo feliz ao constatar que todos os roomies viajaram e poderemos ficar só eu, meus discos, livros e Kafi, lendo até cansar.

Até que ponto essas mudanças são fruto do amadurecimento, até que ponto são irreversíveis? Quanto de nós resiste a passagem do tempo?

4.8.15

Açúcar

Sabe, tenho tentando me recuperar da dependência. De açúcar. A coisa começou inocente. Um cappuccino da máquina da redação no meio da manhã, outro depois do almoço. Um chocolatinho branco só para adoçar à tarde e a sobremesa. Quem sabe só mais um chá antes de ir embora? Quando vi, o te matinal já não vinha com meia, mas com duas colheres cheias de pó branco e o que antes era eventual virou rotina. Gli co se. A çú car. Corpinho pedindo a vida cada vez mais doce, a cintura acompanhando o rebolado, cada vez menos cintura. Mas parou. Chega dessa história, chega, liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós! Para não dizer que metas de segunda não dão certo, começo essa na terça. Adeus às armas. Adeus açúcar desnecessário. Foi bom enquanto durou. Sentirei saudade.

23.7.15

Contra a cultura do estupro, estudo de gênero nas escolas

Os casos de estupros coletivos ocorridos recentemente no Piauí e no Ceará em me levaram a conversar, ainda na semana retrasada, com a juíza Adriana Ramos de Mello, titular do 1º Juizado de Violência Doméstica contra a Mulher, no Rio. Ela lembra que esses casos são apenas a ponta do iceberg frente a uma cultura arraigada no país que estimula a violência contra a mulher. Em média, uma mulher é estuprada no Brasil a cada quatro minutos, de acordo com dados do 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Para a juíza, não basta apenas punir os agressores e não pensar em mecanismos para reverter este quadro. Ela aponta como principal medida a inclusão do estudo de gênero, direitos humanos e combate à discriminação nos currículos escolares. "Quando vejo que foram adolescentes que participaram do estupro coletivo no Piauí, penso que alguma coisa falhou nessa educação", afirma. "Estamos só cuidando de quem já morreu, vai morrer ou já sofreu a violência. E essa mulher que não foi agredida mas vai ser?", questiona.

Só leis não funcionam contra estupros, é preciso mais educação, diz juíza


UOL - Há silêncio em torno dos casos de estupro?
Adriana Ramos de Mello - Existe uma dificuldade por parte das vítimas de denunciar, de se identificarem como vítimas do estupro. E ainda há o medo e a vergonha de se exporem perante as autoridades e reviver aquela experiência. A violência sexual é uma das formas de violência mais graves. Envolve o sentimento de poder que o homem tem sobre a mulher. É cultural.
Podemos falar em uma cultura de estupro?
A cultura patriarcal, de desigualdade de poder nas relações entre homens e mulheres, incita a violência. Além da violência física, há um estímulo simbólico à violência muito forte, principalmente na imprensa e na publicidade. A erotização da mulher, com frequência colocada como se fosse um produto, por exemplo, é uma forma de incitar a violência.
Como de praxe, segue o resto da entrevista aqui.

22.7.15

Um poema pra embalar a chuva

Chove muito, mais, sempre mais… Há como que uma coisa que vai desabar no exterior negro…
Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro pálido.
Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a vela.
Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morte, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morte o coração actual.
[livro do desassossego. Bernardo Soares, semi-heterônimo de F. Pessoa.]

21.7.15

Dois anos sem Amarildo

E lá se vão dois anos que o Amarildo desapareceu. Voltei à casa da Bete, viúva dele, ainda em junho, para ver como estava a família. O bacana de retornar a uma pauta é acompanhar também o crescimento das pessoas. A Bete que gritou pro mundo “Onde está o Amarildo?” em 2013 já era uma leoa, mas a que manteve essa busca acesa é hoje uma mulher diferente. Mais forte. E ainda sem resposta.

Dois anos após sumiço, família ainda sonha enterrar corpo de Amarildo

(foto: Zulmair Rocha/UOL)

Dois anos após a morte do marido, Elizabete Gomes da Silva, 50, e os filhos ainda se perguntam "onde está Amarildo". O ajudante de pedreiro Amarildo de Souzadesapareceu depois de ter sido levado algemado por PMs da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, no dia 14 de julho de 2013. Apesar dos policiais estarem presos, a localização do corpo permanece um mistério.
De lá para cá, a vida de Bete e dos seis filhos deu uma reviravolta. De dona de casa, ela passou a representante das vítimas da violência policial em favelas. No começo de julho, foi à Alemanha falar sobre o tema –antes, viajou a Brasília, Belo Horizonte e São Paulo para participar de encontros organizados por ONGs de direitos humanos. "Aprendi que você gritar pelos seus direitos não é crime.Quantos Amarildos não desapareceram? O medo faz você calar a boca."
A matéria completa, aquela história, aqui.

20.7.15

Os dias

A vida contada em visitas a Caxias.
A vida contada em centímetros do Lucas, primo-sobrinho, novo membro da família.
A vida contada em rugas no rosto do pai.
A vida contada em novos cabelos brancos entre os fios até então moreno alourados.
A vida contada em cartelas de comprimidos para enxaqueca.
A vida contada em aterrissagens.
A vida contada em retorno a matérias e personagens do passado.

13.7.15

Ítaca

Se partires um dia rumo à Ítaca 
Faz votos de que o caminho seja longo 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem lestrigões, nem ciclopes, 
nem o colérico Posidon te intimidem! 
Eles no teu caminho jamais encontrarás 
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes 
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti. 
Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
Nas quais com que prazer, com que alegria 
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
Para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir. 
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos 
E perfumes sensuais de toda espécie 
Quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrinas 
Para aprender, para aprender dos doutos. 
Tem todo o tempo ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas, não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
E fundeares na ilha velho enfim. 
Rico de quanto ganhaste no caminho 
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. 
Ítaca não te iludiu 
Se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência. 
E, agora, sabes o que significam Ítacas. 


Constantino Kabvafis (1863-1933) 
in: O Quarteto de Alexandria - tradução José Paulo Paz.

9.7.15

A civilização, sempre

Uma das partes mais bacanas de ir ao congresso da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), que rolou semana passada em SP, foi ter a chance de ouvir o Clóvis Rossi falar um pouquinho da profissão. Nesses tempos incertos, nada mais atual:

“Uma das coisas que eu prezo muito em jornalismo é que, na hora em que você tem que escolher entre a civilização e a barbárie, não tem outra escolha que não seja a civilização. A defesa da democracia é o único lado que eu tomarei pro resto da vida".

7.7.15

O efeito colateral da gente ter morado - e sido feliz - em mais de uma cidade é acabar, para sempre, meio partido. Nessas horas, só o cancionário sertanejo traduz o sentimento ao deixar a pergunta. E conta da saudade, quem é que paga?

26.6.15

As suásticas da Lapa

E olha a gente aqui de novo com... materia. Coisa pouca, dessas que a gente chama em jornalismo de "cascata". Algo que não tem tanta relevância assim, mas acaba ganhando espaço.
Apesar disso, achei bem interessante ir atrás da história dessas suásticas escondidas em meio a boêmia da Lapa, aqui no Rio. Visitar o prédio então, foi tão legal quanto. O Victor costumava ser um hotel e tem uma pegada de Edifício Master. Apartamentões e quitinetes, gente morando há 50 anos e há seis meses.
Ah, e um fato que acabou não entrando no texto! A suásticas, segundo o professor Milton Teixeira, são símbolos antiquíssimos. "O sol com pernas, porque o sol caminha sobre o céu ao longo do dia."

Prédio na Lapa, no Rio, tem corredores cobertos por ladrilhos com suásticas

Hoje um prédio residencial, o Edifício Victor, um antigo hotel de arquitetura art déco localizado na rua do Riachuelo, próximo aos Arcos da Lapa, no centro do Rio de Janeiro, guarda em seus corredores uma decoração um tanto quanto peculiar. Ao invés de flores ou símbolos abstratos, em alguns andares os ladrilhos desenham pequenas suásticas.
Pesquisadora da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e moradora do Victor desde 2008, Vanessa Leite diz que o piso sempre causa "comoção" entre seus visitantes. Ela conta que uma amiga alemã que se hospedou no local uma vez ficou perturbada com os desenhos. "Os amigos acham estranho, mas para a gente acaba sendo algo pitoresco", diz.

A beleza do jornalismo. Num dia seriedades, noutro curiosidades.

18.6.15

"No Brasil os culpados são sempre os pobres, os negros, os jovens”

E daí que das maquetes do seu Luiz vamos sem escala para o assunto de sempre nesse Rio de braços abertos no cartão posta e punhos fechados na vida real: a violência.
Te dizer que em meio a histeria geral em torno da tal “onda de violência” no Rio, é um alívio sentar para conversar com alguém que amplia e traz sensatez ao debate como o Atila, diretor da Anistia Internacional no Brasil.

Como ele nos lembra, devemos evitar nos deixar levar por surtos de indignação que um ou outro fato provocam. “O risco disso é buscar correndo um culpado. E historicamente no Brasil os culpados são sempre os pobres, os negros, os jovens.”


"Não há onda de violência no Rio", diz diretor da Anistia Internacional


morte do médico cardiologista Jaime Gold, esfaqueado por ladrões em um assalto na Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul do Rio de Janeiro, e os recentes casos de assaltos com facas tanto no centro quanto na zona sul do Rio de Janeiro, trouxeram à tona o debate em torno de uma suposta onda de violência na cidade, que desencadeou até a aprovação de uma medida proibindo o porte de instrumentos pontiagudos no Estado.
Além disso, algumas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) --projeto que completa sete anos em 2015 -- têm sido constantemente atacadas por criminosos que buscam a retomada de territórios hoje ocupados pela polícia, ampliando a sensação de insegurança vivida pelos moradores da capital fluminense.       
Para o historiador carioca e diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil, Atila Roque, 54, é preciso tomar cuidado com os surtos de indignação causados por crimes pontuais e enxergar a política de segurança pública para além da questão da polícia. Roque, que teve o pai morto em uma tentativa de assalto e cujo responsável nunca foi punido, acredita que não há uma onda de violência, mas uma disposição à "indignação seletiva". O caminho, defende, é abandonar a "percepção de guerra contra esse inimigo difuso que acaba sempre sendo incorporado pelo menino pobre da favela por uma perspectiva da preservação e garantia da vida de todas as pessoas".
UOL - Podemos falar em uma onda de violência no Rio de Janeiro?
Atila Roque -
 Não há uma onda de violência. O que nós temos, não apenas no Rio, mas no país, é uma normatização de uma violência muito seletiva. Devemos evitar nos deixar levar pelos surtos de indignação que um ou outro fato destacado pela mídia provocam. O risco disso é buscar correndo um culpado. E historicamente no Brasil os culpados são sempre os pobres, os negros, os jovens. Há um certo tipo de perfil social que acolhe os preconceitos que a sociedade produz. O que não significa que nós não tenhamos um problema grave de violência e, especialmente, de violência letal. O Brasil mata, por ano, cerca de 50 mil pessoas. Em 2012, foram 56 mil homicídios. Desses, 30 mil são jovens e 77%, negros.
Seria então uma questão de uma percepção maior da violência do que necessariamente um aumento?
O debate sobre segurança pública e violência no Brasil sempre foi muito marcado por uma concepção que trata a segurança mais como um mecanismo de controle social do que um direito. É como se a cidade tivesse territórios diferenciados e cidadãos de primeira e segunda classe. Quando essa violência eventualmente atinge uma pessoa dos territórios reconhecidos como Estado pleno, se dá o espanto. O que não quer dizer que não seja legítimo. Qualquer morte merece ser lamentada, não importa a classe social, onde isso aconteça, ou não deveria importar. Na prática, importa muito. A morte do médico na Lagoa gerou uma comoção justificada, mas, mais uma vez, tratada de forma seletiva. Enquanto a sistemática de mortes e execuções que atinge regularmente uma parte grande da juventude carioca e do Brasil, com algumas exceções, passa desapercebida. A violência precisa ser tratada em uma sua integralidade.
O resto da entrevista, aqui.

17.6.15

O Rio de Janeiro do seu Luiz

Outro dia fui fazer uma matéria, aquela da Girlene e das remoções, que comentei por aqui, e, ao me despedir, um dos entrevistados, o seu Luiz, me pediu para esperar. “Vou te dar um presente.”

Abriu a porta da oficina, correu ligar um botão e de repente não estávamos mais na favela Metrô Mangueira, mas na ponte Rio Niterói, no Joá, em Copacabana, acompanhando os bombeiros resgatarem de helicóptero os turistas desatentos na praia. O fotógrafo, encantado, só dizia. “Tu tem que voltar com vídeo, tem que voltar!”

Volta e meia ganho alguma coisa de entrevistados – camiseta, boné, comida -, mas está foi a primeira vez que alguém me deu uma história. Se eu pudesse, nem tinha escrito nada. Só deixava ele aí falando com graça e malemolência do Rio que construiu na garagem entre um ensaio de trompete e um radiador estragado. 

Acabou que voltei com a grande Taís Vilela, que costurou num vídeo de uma delicadeza ímpar todo o nosso deslumbramento.

Segue um trechinho da matéria:

(foto do Fernando Maia/UOL)

No Rio de Janeiro de Luiz Silveira, 47, nunca há engarrafamentos e todos os dias são dias de praia. Também é possível cruzar a avenida Brasil e a ponte Rio-Niterói em minutos e pegar, sem fila, o bondinho até o Pão de Açúcar.
Mecânico e soldador, ele se orgulha de ter reconstituído boa parte da capital fluminense entre as quatro paredes da garagem de sua oficina, na favela Metrô Mangueira, comunidade vizinha ao Estádio do Maracanã e que a Prefeitura do Rio de Janeiro tenta remover desde 2010. Pelas mãos de Luiz, antigos pedaços de motores e peças encontradas no lixo se transformam em pontes, prédios e cenários típicos cariocas.
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Não sei como faz para colocar o link do vídeo aqui, mas seguimos no esquema de sempre. A matéria e o vídeo – que valeu muito ver -, tão lá no site. Por Alah, ele toca Samba de Verão no trompete pra gente! 

Nessas horas a profissão se paga.

Valeu, seu Luiz. Melhor presente

12.6.15

Rio, I Love You But You're Bringing Me Down

Nesse dia dos namorados uma música pra minha valentine, esse conjunto de beleza e caos eternos que é o Rio. Como diz Carol Maia, quando tu vê, já foi. A cidade gruda na gente.

10.6.15

Diálogos maternos, versão Bolo de Milho

Aproveitei a cozinha nova e a possibilidade de usar o forno sem dormir tendo sonhos com o cheiro da comida para fazer um bolo para o aniversário de uma amiga, formato festa junina na praça.

Caprichei na receita – um bolo de milho true, que aprendi com a grande Carol Oms -, e mandei, toda garbosa, uma foto para a dona Marlei. No que, ela retruca:

- Que lindo, filha! É bolo de caixinha?


BOLO DE CAIXINHA?!! Jamais!

Como aqui a gente conta o causo, mas também dá a receita, segue o tintim por tintim do bolo, direto do caderninho/e-mail da Carol. E o melhor, é só amor e liquidificador que não tem erro.

Bolo de milho

Ingredientes:
4 ovos
1 lata de milho
1 lata de leite
1 lata açúcar
1/2 lata de óleo
10 colheres de milharina
1 pitada sal
coco ralado
queijo ralado
fermento


Colocar no liquidificador o ovo e o milho. Acrescentar o leite. açúcar, óleo e uma pitada de sal. Acrescentar a milharina aos poucos. 
Acrescentar o coco e o queijo. E, por último, o fermento. Colocar numa forma untada e por no forno pré-aquecido por cerca de 40 minutos.

E que bolo, folks. Lágrimas estomacais de saudade pelo piquenique em que Carol nos apresentou, alguns outonos atrás.

8.6.15

Pessoas

Tche, a graça desse mundo são mesmo as pessoas. À espera da minha consulta no dentista, batia um papo com a secretária, Lô, uma jovem e animada senhora. Ela contava que está atrás de alguém para adotar um gatinho que achou preso em uma macumba fim de semana. Daí a conversa passou para o candomblé, Lô lembrando como viu cerimônias muito bonitas em terreiros na época em que morou na Bahia, há 30 anos. Chegou até a conhecer a mãe Menininha antes da fama. Pergunto o que ela fazia por lá, ela responde. “Ah, é que eu era de uma gangue de motoqueiros, os Hells Angels.” Falta de timing total, o dentista decide aparecer e me chamar para entrar. Consulta que vem chego antes só para saber o resto da história.

3.6.15

Anotações de um padre preso numa cidade sem zoológico

Tenho me divertido horrores na companhia do padre João, protagonista de "Agora deus vai te pegar lá fora". Dá vontade até de ler mais devagar, pra não ter que me despedir tão cedo do personagem.

Preso durante a ditadura com base na lei de segurança nacional em uma cidadezinha de fronteira gaúcha, ele passa os dias a teorizar a vida, tentando entender como parou ali, e a receber visitas, o que, acredita, é um os efeitos colaterais  de ser um 'padre preso numa cidade sem zoológico".

O padre também teoriza muito sobre o acreditar ou não em algo além de nós, questão que volta e meia assombra meu agnosticismo. Além de encher o livro de causos contados com forte sotaque gaúcho entre rodas de chimarrão o que, por si só, já vale a leitura.

Deixo o padre com plano de reler os Contos Gauchescos do Simões Lopes Neto (ou ler de fato, já que o que vi foi mais por conta do vestibular que por gosto) e me aventurar nos textos de São Tomáz de Aquino.

"Confesso que sempre tive dificuldade com essa possível interferência de Deus nos destinos dos homens, com o cruel silêncio dos céus em relação ao labirinto de causas e efeitos deste mundo. Tento me consolar pensando que talvez seja melhor assim. Melhor que as religiões não passem de meras frestas para o Grande Mistério. Assim vi as muitas crenças ontem à noite: simples frestas para o Grande Mistério. Porque logo que uma delas se julga porta escancarada, com que arrogância e frieza começa a definir quem entra e quem não entra. E, não raro, a matar os que julga indignos. Assim que obrigado, Senhor, por Teu silêncio relativo, pelas frestas que de Ti nos concedes na Tua grande e vívida noite."

Agora deus vai te pegar lá fora, Carlos Moraes

2.6.15

A família do 336

Tenho planos de transformar o meu agora antigo prédio em objeto de estudo. Cursando sociologia urbana, nada mais justo que pôr o 336 na roda. Uma das coisas que mais me impressionam por lá é o senso de comunidade; muitas vezes fico com a impressão de que os porteiros, ao me saberem família de uma pessoa só, se veem no papel também de irmãos mais velhos. Consertam chuveiros e encanamentos sem cobrar nada, se preocupam, às vezes pagam até de alcoviteiros. Um olhar parecido com o dos taxistas que volta e meia ameaçam não querer me largar em algumas pautas temendo pela minha segurança. Nessas, a quentura no coração cruza com a aversão a dar satisfações e a vontade de explanar que me viro bem sozinha. Vence a quentura, que tranquiliza dona Marlei. Laranjeiras, o 336, é mesmo uma cidade de interior. Sentirei saudade.

1.6.15

Girlene, a favela Metrô Mangueira e os nossos 28 anos

(Fernando Maia/UOL)

Na última sexta-feira fui até a favela Metrô-Mangueira, na zona norte do Rio, conversar com os moradores, surpreendidos na quinta-feira por tratores da Prefeitura dispostos a colocar o local abaixo. Sobrevivente e vizinha ao estádio do Maracanã, a Metrô-Mangueira resistiu, com muitas baixas, às remoções realizadas em nome da Copa do Mundo e agora espera existir ainda depois das Olimpíadas.

Ao menos oito casas foram derrubadas naquele podetudo que a administração municipal não vê problema em praticar nesses locais que fogem ao cartão postal. Entre os agora desabrigados, encontrei Girlene.

Uma mochila nas costas com documentos, algumas memórias e mudas de roupas, um filho de oito meses e outro de quatro anos para cuidar, uma geladeira e uma máquina de lavar – tudo o que conseguiu salvar nos 15 minutos que teve para esvaziar a sua casa -, mais um desespero que jornalismo nenhum conseguiria registrar.

Paraibana, ela deixou o filho mais velho, de 10 anos, com a mãe e veio tentar a sorte com o namorado e o filho, então recém-nascido, no Rio. Arrumaram um barraco por R$ 400 ao mês na Mangueira, ela um trabalho em uma barraquinha de caldo de cana na mesma Metrô Mangueira que depois se tornou seu lar e foram tocar a vida.

O namorado acabou matando alguém por motivos que Girlene preferiu não comentar, foi pego e condenado a oito anos de prisão. O caldo de cana, demolido em uma das primeiras tentativas da Prefeitura de acabar com a Metrô Mangueira.

Desempregada, ela ainda engravidou de novo do namorado numa das visitas que fez a ele na prisão, em Bangu, e se viu só no Rio sem ter como pagar nem os R$ 400 do barraco que os dois haviam montado. Invadiu, ainda em 2012, um quarto e sala abandonado num prédio feito de improviso na Metrô Mangueira e dormia com as crianças do lado quando ouviu uma vizinha gritando que ela para ela correr que perigava de os tratores derrubarem a construção com ela dentro.

Conversei com ela e com outros moradores, escrevi a matéria do melhor jeito que pude no que me restou de tempo da cruel equação apuração/publicação/internet e não me saiu da cabeça que nós duas temos 28 anos. Só que os nosso 28 correm em planetas diferentes.

31.5.15

Sobre o domingo na casa nova

(Aquela cabecinha ali é a da quarta moradora, Kafi, que observa a manhã a passar preguiçosa)

29.5.15

E assim chegamos ao 12º dia da semana

A sexta-feira depois do plantão, a sexta ao quadrado, o 12º dia da semana.


Sobreviveremos. I hope.

27.5.15

Decisões

Depois de muito quebrar a cabeça, decidi mudar de ares começando pelo meu apê (eu sei, eu sei. E a parede branca? Talvez fosse preciso mais do que isso). Abandonarei o cafofo onde fui, quase sempre, muito feliz no último ano e meio em prol de um apê grandão com varanda e piscina com amigos.
Sempre quis morar solita, então foi meio difícil desapegar dessa ideia, mas percebi que já não estava curtindo tanto o meu espaço como no começo. Talvez quitinetes sejam lugares para bacanas para se viver, só venham com um prazo de validade embutido.
Nessas de decidir Bianchi Jr. me fez chegar a uma conclusão importante: a gente tem o direito de sonhar com algo e mudar de ideia. Simples assim.
Às vezes, a gente toma uma decisão e ela acaba tomando a gente também. Nessas horas, para não surtar, é sempre bom lembrar que poucas coisas são definitivas. Que o diga o meu em breve antigo lar.

26.5.15

A água grátis de Itatiaia

Em tempos de estiagem e possível falta d'agua, os moradores da pequena Itatiaia, na serra fluminense, sambam na cara da sociedade. Lá a água não apenas corre marota por todos os cantos da cidade, como chega de graça às torneiras da população. Tem até quem diga que "desperdiça conscientemente" e uma fonte, FONTE, dentro de uma farmácia!

Conheça a cidade no Rio onde a água é de graça há 26 anos


Às margens do rio Paraíba do Sul e vizinha à Serra da Mantiqueira, na região serrana fluminense, a pequena Itatiaia e seus cerca de 30 mil moradores vivem uma situação única: enquanto São PauloRio de Janeiro e outras cidades da região Sudeste sofrem com a crise hídrica, lá a água não apenas é abundante como gratuita.
O município é abastecido por diversos rios e nascentes localizados, em sua maioria, no Parque Nacional do Itatiaia e, desde a sua emancipação, em 1989, aboliu os hidrômetros. A água, distribuída pela prefeitura, recebe apenas cloro antes de chegar até a torneira dos moradores.
Pela cidade é comum cruzar com cenas de desperdício: moradores lavando a calçada com mangueiras, lava-rápidos despreocupados em economizar e até uma fonte instalada dentro de uma farmácia.
Matéria inteira, aqui

25.5.15

Sobre se ler

Por motivos de plantão de domingo tranquilo, me peguei lendo posts antigos aqui do Palim. Quando vi, lá estava eu em 2008, rememorando as reflexões daquele quarto ano de faculdade ou mesmo acompanhando o meu deslumbramento com a, então, ainda desconhecida Porto Alegre em 2005. Tem uma coisa maluca nisso da gente se ler retroativamente. Além dos momentos de concordância e vergonha alheia – quem nunca -, tem umas horas em que tu não te reconhece no texto. Ou, como me aconteceu muito, te reconhece, mas já não lembra de ter escrito/sentido aquilo. Daí tu vira, de fato, leitor de si mesmo. Dialogando com um passado, mas também com o autor, como a gente faz quando lê qualquer coisa de outra pessoa.