27.2.15

“Não é nada pessoal, mas abaixe as pernas”

Sobre os machismos cotidianos.

Aconteceu no começo da semana no centro do Rio, mas podia ter sido em qualquer outro lugar. Estava sentada com uma amiga em uma padaria em frente ao trabalho, matando os últimos minutos do horário de almoço. À minha frente, Vanessa e seu suco de laranja, a mesa, dessas de madeira, de abrir, a cadeira e ainda a cadeira ao lado dela, já que ocupávamos uma mesa de quatro lugares. Apesar de ser fã da postura ‘criança de 8 anos’ e estar com frequência sentada sob um dos pés, neste momento os apoiava na barra da mesa. Vestido passando um pouco o joelho, concentrada na conversa, aproveitava a sombra da marquise e o resto de brisa que sobrevivia aos 40º do verão carioca. Um cara de camisa e calça social se aproximou, abaixou para falar comigo – achei que fosse pedir informação --, e disparou: “Não é nada pessoal, mas abaixe as pernas.” Saiu quase correndo, deixando eu e Vanessa sem reação. Pensei em uns bons palavrões para dirigir ao moço, Vanessa também, todos depois dele ter passado, mas o que mais me pegou foi a necessidade desse total desconhecido, pelo seu caminho de homem apressado e engomado no Rio, precisar vir ali, me colocar no meu lugar, me lembrar da ofensividade das minhas pernas entreabertas por baixo de uma mesa. Acho que não é nada pessoal mesmo. Ao menos não comigo. “Abaixe as pernas, feche as pernas, cruze as pernas, ai meu deus vai que essas pernas ai me distraiam, o que os outros vão pensar.” A homarada toda de perna aberta, arejando as partes, não ofende ninguém, já pernas de mulher, God. Amigo, já vai meio tarde, mas faltou te dizer. Você é um babaca e eu abaixo as minhas pernas quando e se eu quiser. 

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