27.4.15

"Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para."
O comecinho do A morte do pai, do Knausgård, tipo a descoberta do gelo pelo Aureliano Buendía. Quando eu crescer, quero escrever assim.

24.4.15

A violência como rotina

O Palim tá meio tiro, porrada e bomba demais, mas é que eu só tenho feito mesmo trabalhar e estudar nos últimos tempos e o caos carioca tem pesado mais na balança que a beleza.

Essa materia nasceu de várias conversas com crianças e adolescentes durante uma caminhada no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio.

Dessas coisas tristes de noticiar.

Crianças e adolescentes falam sobre rotina no Alemão: "Não protegem, matam"

Jaqueline, 17, já não sai de casa sozinha à noite por medo de ser confundida com um dos "homens de preto". André, 14, diz ter apanhado da polícia ao não saber responder "onde estava a boca". Ágata, 17, perdeu um primo, vítima de bala perdida. Daniel, 13, conta que a mãe o espera no portão até quando ele vai ao mercadinho na esquina. Daniela, 16, deixou a Paraíba há seis meses e já teve um amigo ferido em um tiroteio. Todos vivem no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro.

Mais, aqui.

23.4.15

O Mapa

(um pouco de Quintana pra adoçar a quinta de feriado no Rio trabalhando e a saudade que a gente gosta de alimentar dos lugares em que foi feliz)

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso... 

Mário Quintana, in 'Apontamentos de História Sobrenatural'

22.4.15

Duas vezes retirantes

Fui com a Taís Vilela ao Piauí no fim de semana passado conversar com a família do menino Eduardo, morto com um tiro na cabeça na frente de casa, no Complexo do Alemão. Ele tinha só 10 anos.

Deixo aí pra vocês essa história que, provavelmente, amanhã já vai ser suplantada por outra barbaridade, infelizmente tão comum a essa terra de beleza e de caos, caos e beleza.

Não fosse a sua mãe, Tereza, que partiu pra cima do PM e gritou pro mundo o tamanho daquela injustiça, talvez esse caso nem tivesse passado das páginas policias. Não sei se vocês lembram, mas em janeiro um guri de 11 anos também morreu após ser atingido por um tiro de fuzil no Lins, na zona norte do Rio. 

Quem chorou por ele? Que terra é essa em que se morre na frente de casa só por ter nascido do lado errado da cidade?

A tia de Eduardo, Lúcia, e a mãe do menino, Tereza, em frente à casa da família, em Corrente (PI)

Tereza de Jesus, 40, chegou à pequena Corrente (PI), a quase 900 km de Teresina, no dia 6 de abril. Deixou no Rio de Janeiro o quarto e sala que dividia com a família no Areal (uma das áreas mais pobres do conjunto de favelas do Complexo do Alemão, na zona norte da cidade), a rotina de tiroteios e a escadaria na qual viu o filho Eduardo, 10, cair após ser atingido por um tiro de fuzil na cabeça, diante da casa, durante uma ação da Polícia Militar.
Aos 17 anos, quando deixou o Piauí pela primeira vez, rumo a Brasília e depois ao Rio, tinha planos de ajudar a família, esquecer infância e adolescência sofridas, a vida morando com a mãe e os irmãos embaixo da ponte do rio Corrente, que dá nome à cidade, e as noites em que teimava a pegar no sono por falta de comida no prato. Antes retirante da fome, agora retornava a sua cidade natal por conta da violência.
"Tinha dias em que a minha mãe não tinha comida para duas refeições e preferia deixar a gente sem almoço para poder servir o jantar. O dia, quando a gente é criança e fica brincando, passa rápido, mas quem consegue dormir com fome?", diz. Mãe pela primeira vez aos 15 anos, ela lembra que o dinheiro que ganhava nos pequenos trabalhos que conseguia como babá "mal dava para comprar o leite" para o filho.
(a matéria inteira, aqui)

18.4.15

Sobre escrever

Às vezes tu acha que não vai ser capaz de escrever nada, passar nada, daí nasce uma flor. Ou não nasce nada mesmo e sobra só a dor na boca do estômago.

Depois do túnel

Daí a gente passa a faculdade toda querendo ser correspondente de guerra, tal e coisa, coisa e tal (culpem o Hemingway e o Kapuściński) e vai falar com um guria de 17 anos, que não está além oceano, só depois do túnel, que te diz, como se fosse a coisa mais normal do mundo, que o primo dela morreu baleado quando chegava em casa em outubro, que volta e meia ela não consegue chegar na escola porque tem tiroteio no caminho e que teve aquela vez, não muito tempo atrás, que entraram entrando na casa dela quando ela e a família dormiam com fuzis na mão, o que faz com que ela tenha medo meio que o tempo todo.

16.4.15

Galeano

Uma vez, viajando, conheci um guri que rodou boa parte da América do Sul de bicicleta e planejava chegar a Cuba. E o que mais invejei da viagem dele, e olha que tinha coisa para caramba para invejar, foi quando ele contou que bateu na porta da casa do Galeano com As Veias Abertas da América Latina debaixo e eles tomaram um café. 

Tinha até uma bicicletinha no autógrafo no livro, seguramente o bem mais precioso de toda a tralha de mochileiro que ele carregava.

Não que eu tenha as Veias como o meu favorito. Calou fundo, principalmente quando visitei as montanhas esvaziadas de prata de Potosí, mas acho, como achava o Galeano, que o livro ficou meio datado.

O que mais me encanta são as pequenas histórias de gente, o olhar. Aquele gosto pela vida. 

Numa palestra em Porto Alegre o ouvi teorizar sobre o entusiasmo, a necessidade dele. A palavra entusiasmo, dizia, daquele jeito apaixonado dele de contar, vem do grego e significa “ter os deuses por dentro”. Depois descobri que ele falava isso sempre que podia. Quem nunca.

Nessa segunda uns quantos amigos me mandaram mensagens. “Lembrei de ti.” Como se tivesse morrido alguém da família. E a sensação é parecida. Sou dessas malucas que recitam trechos da obra do Galeano sempre que possível e acho que O Livro dos Abraços deveria ser leitura obrigatória.


Vai-se mais um dos grandes. Posto que escrever como ele não vai dar, que a gente ao menos tente viver assim. Com os deuses por dentro, caminhando atrás da utopia sempre dois passos além do horizonte. 

15.4.15

Anedotas de um domingo à noite no "Brasil profundo"

(no caso, a pequena Corrente, no Piauí, a quase 900 km de Teresina)

Após um dia que começou às 4h30, sento com Taís em uma pizzaria chamada Shalom, estrategicamente posicionada entre dois templos evangélicos, um deles, se não me engano, batizado de "O DNA de Jesus". Peço uma cerveja. A atendente sorri, "aqui não tem". Levanto e pergunto o mesmo na lancheria ao lado. Nada feito. Comemos nossa pizza com suco de tamarindo e voltamos para o hotel. Taís desce para comprar algo para bebermos/beliscarmos enquanto trabalhamos. Volta com um litro de LEITE. 

Fim.

14.4.15

O sapo baiano

Em um café no aeroporto de Barreiras (BA) , duas mulheres pulam da cadeira ao perceberem que havia um sapo embaixo da mesa. Um homem na mesa ao lado espanta o bicho, que segue seu caminho para longe da gritaria pulo a pulo, sem pressa.
"Que sapo folgado, ainda vai devagar", observa uma das mulheres.
"É que esse sapo é baiano", responde a outra enquanto se acomoda de novo na cadeira.



Na foto o amigo sapo, de boa, curtindo a segunda-feira

6.4.15

Alemão, Maré e a "esperança entre aspas"

Tenho pensado muito na nossa indignação seletiva. E se aquele guri do Alemão assassinado por um PM no meio da tarde tivesse morrido em Ipanema, não teríamos agora uma nação comovida? E se fosse o Leblon que estivesse sobre uma GLO (Garantia de Lei e Ordem), com militares carregando fuzis e tanques passando para cima e para baixo all day, ainda acharíamos isso normal?

Segue um trecho de um texto publicado no site do trampo já há alguns dias sobre como os moradores da Maré vêem esse Estado de Sítio em que vivem e a (des)esperança que acompanha a chegada de uma Unidade de Polícia Pacificadora.

As donas Marias que calam cotidianamente as violências que a gente nem sonha existirem ali depois da curva, do túnel, do que passa no telejornal.

Sai Exército, vem UPP: após ano violento Maré tem "esperança entre aspas"

Maria*, 65, vive há 45 anos no Complexo de Favelas da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. Quando se mudou, a área, até então à beira da Baía de Guanabara, era repleta de casas sobre palafitas e ainda pouco urbanizada. Com o tempo, o conjunto de favela e a região cresceram –hoje, cerca de 130 mil pessoas se dividem entre 16 comunidades. O mar deu lugar a um aterro e o local em que ela morava, antes tranquilo, ganhou o apelido de "Faixa de Gaza", por representar o ponto simbólico da divisão entre as favelas Nova Holanda e Baixa do Sapateiro e também entre as áreas dominadas pelas facções Comando Vermelho e Terceiro Comando.
A chegada do Exército ao conjunto de favelas, que completa um ano no dia 5 de abril, no entanto, não foi suficiente para mudar a rotina de violência a que ela e os vizinhos acabaram por se acostumar. A região guarda nas paredes a memória dos inúmeros confrontos que presenciou. Não há uma casa sem marcas de tiros na fachada. Maria não é exceção: em sua sala, há quatro buracos feitos por tiros de fuzil cobertos por reboco, contrastando com a parede vermelha. Em dúvida quanto ao futuro da comunidade, Maria preferiu manter os buracos sem tinta.
(o resto da matéria segue lá no UOL.)

5.4.15

Buba

Caneta sobre bloco de anotações do pai e da mãe.

4.4.15

Aterrissar em Porto Alegre



(Pôr-do-sol no Guaíba num desses fins de tarde de janeiro)

Na primeira vez que me vi sozinha em Porto Alegre, 17 anos e uns bons quilos de orgulho quase intactos, não quis ligar para casa e dizer, "mãe, acontece que eu não anotei as orientações de como chegar na casa da tia Marilam e estou perdida", afinal, tantas visitas depois, eu meio que deveria saber, não?, e decidi trabalhar com o que minha parca memória geográfica possuía e sai perguntando para quem me aparecia pela frente, "tu conhece uma rua que tem uma Caixa Econômica com um teto estranho/engraçado na esquina?". Pensava, "é chegar na Redenção e estou salva", mas se a Redenção, aquele lugar incrível, sabe ser gigante quando a gente a conhece, quiçá quando a vê como apenas um parque. E o caminho entre a Fundação, onde me largou a carona de uma colega de colégio que vinha acompanhar a irmã que, assim como eu, ia fazer a inscrição da faculdade, e a Cidade Baixa, ah, a Cidade Baixa, também sabe ser maior que a vã filosofia e as descrições do Quintana. De pergunta em pergunta, fiz amigos. Uma mulher que achou por bem cruzar o parque e o viaduto da João Pessoa comigo, um guri no segundo semestre de Artes, também de algum interior, com quem acabei cruzando umas quantas vezes depois, e até um casal de motoqueiros, com direito a bandana de couro e tudo, além de alguns velhinhos. Parei, mais por teimosia que por informações erradas - seguir orientações, já disse, nunca foi o meu forte -, em uma agência da Caixa na subida da Borges, consertei o curso e ao custo de uns cinco ou seis pedidos de informação cheguei, enfim, ao meu destino, e é por essas e por outras que aterrissar em Porto Alegre sempre aquece o meu coração. O tio Neu - eram, vejam bem, tempos pré smartphone -, ainda arrancou umas páginas do mapa do começo da lista telefônica, que desenhavam o que seria boa parte da minha vida pelos próximos cinco anos e que carreguei na bolsa por meses, até ficarem surradas de tanto dobrar e desdobrar, e marcou, com carinho e cuidado, aquela casa grande e de portas sempre abertas perto da Caixa Econômica com telhado engraçado, o apê que dividi com a Jê logo que cheguei e em que tive meu primeiro quarto só para mim até então e, claro, a Fabico, que me trazia até ali. Sei lá. Essas coisas que a gente lembra quando voa de volta para casa.