4.4.15

Aterrissar em Porto Alegre



(Pôr-do-sol no Guaíba num desses fins de tarde de janeiro)

Na primeira vez que me vi sozinha em Porto Alegre, 17 anos e uns bons quilos de orgulho quase intactos, não quis ligar para casa e dizer, "mãe, acontece que eu não anotei as orientações de como chegar na casa da tia Marilam e estou perdida", afinal, tantas visitas depois, eu meio que deveria saber, não?, e decidi trabalhar com o que minha parca memória geográfica possuía e sai perguntando para quem me aparecia pela frente, "tu conhece uma rua que tem uma Caixa Econômica com um teto estranho/engraçado na esquina?". Pensava, "é chegar na Redenção e estou salva", mas se a Redenção, aquele lugar incrível, sabe ser gigante quando a gente a conhece, quiçá quando a vê como apenas um parque. E o caminho entre a Fundação, onde me largou a carona de uma colega de colégio que vinha acompanhar a irmã que, assim como eu, ia fazer a inscrição da faculdade, e a Cidade Baixa, ah, a Cidade Baixa, também sabe ser maior que a vã filosofia e as descrições do Quintana. De pergunta em pergunta, fiz amigos. Uma mulher que achou por bem cruzar o parque e o viaduto da João Pessoa comigo, um guri no segundo semestre de Artes, também de algum interior, com quem acabei cruzando umas quantas vezes depois, e até um casal de motoqueiros, com direito a bandana de couro e tudo, além de alguns velhinhos. Parei, mais por teimosia que por informações erradas - seguir orientações, já disse, nunca foi o meu forte -, em uma agência da Caixa na subida da Borges, consertei o curso e ao custo de uns cinco ou seis pedidos de informação cheguei, enfim, ao meu destino, e é por essas e por outras que aterrissar em Porto Alegre sempre aquece o meu coração. O tio Neu - eram, vejam bem, tempos pré smartphone -, ainda arrancou umas páginas do mapa do começo da lista telefônica, que desenhavam o que seria boa parte da minha vida pelos próximos cinco anos e que carreguei na bolsa por meses, até ficarem surradas de tanto dobrar e desdobrar, e marcou, com carinho e cuidado, aquela casa grande e de portas sempre abertas perto da Caixa Econômica com telhado engraçado, o apê que dividi com a Jê logo que cheguei e em que tive meu primeiro quarto só para mim até então e, claro, a Fabico, que me trazia até ali. Sei lá. Essas coisas que a gente lembra quando voa de volta para casa.

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