22.4.15

Duas vezes retirantes

Fui com a Taís Vilela ao Piauí no fim de semana passado conversar com a família do menino Eduardo, morto com um tiro na cabeça na frente de casa, no Complexo do Alemão. Ele tinha só 10 anos.

Deixo aí pra vocês essa história que, provavelmente, amanhã já vai ser suplantada por outra barbaridade, infelizmente tão comum a essa terra de beleza e de caos, caos e beleza.

Não fosse a sua mãe, Tereza, que partiu pra cima do PM e gritou pro mundo o tamanho daquela injustiça, talvez esse caso nem tivesse passado das páginas policias. Não sei se vocês lembram, mas em janeiro um guri de 11 anos também morreu após ser atingido por um tiro de fuzil no Lins, na zona norte do Rio. 

Quem chorou por ele? Que terra é essa em que se morre na frente de casa só por ter nascido do lado errado da cidade?

A tia de Eduardo, Lúcia, e a mãe do menino, Tereza, em frente à casa da família, em Corrente (PI)

Tereza de Jesus, 40, chegou à pequena Corrente (PI), a quase 900 km de Teresina, no dia 6 de abril. Deixou no Rio de Janeiro o quarto e sala que dividia com a família no Areal (uma das áreas mais pobres do conjunto de favelas do Complexo do Alemão, na zona norte da cidade), a rotina de tiroteios e a escadaria na qual viu o filho Eduardo, 10, cair após ser atingido por um tiro de fuzil na cabeça, diante da casa, durante uma ação da Polícia Militar.
Aos 17 anos, quando deixou o Piauí pela primeira vez, rumo a Brasília e depois ao Rio, tinha planos de ajudar a família, esquecer infância e adolescência sofridas, a vida morando com a mãe e os irmãos embaixo da ponte do rio Corrente, que dá nome à cidade, e as noites em que teimava a pegar no sono por falta de comida no prato. Antes retirante da fome, agora retornava a sua cidade natal por conta da violência.
"Tinha dias em que a minha mãe não tinha comida para duas refeições e preferia deixar a gente sem almoço para poder servir o jantar. O dia, quando a gente é criança e fica brincando, passa rápido, mas quem consegue dormir com fome?", diz. Mãe pela primeira vez aos 15 anos, ela lembra que o dinheiro que ganhava nos pequenos trabalhos que conseguia como babá "mal dava para comprar o leite" para o filho.
(a matéria inteira, aqui)

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