16.4.15

Galeano

Uma vez, viajando, conheci um guri que rodou boa parte da América do Sul de bicicleta e planejava chegar a Cuba. E o que mais invejei da viagem dele, e olha que tinha coisa para caramba para invejar, foi quando ele contou que bateu na porta da casa do Galeano com As Veias Abertas da América Latina debaixo e eles tomaram um café. 

Tinha até uma bicicletinha no autógrafo no livro, seguramente o bem mais precioso de toda a tralha de mochileiro que ele carregava.

Não que eu tenha as Veias como o meu favorito. Calou fundo, principalmente quando visitei as montanhas esvaziadas de prata de Potosí, mas acho, como achava o Galeano, que o livro ficou meio datado.

O que mais me encanta são as pequenas histórias de gente, o olhar. Aquele gosto pela vida. 

Numa palestra em Porto Alegre o ouvi teorizar sobre o entusiasmo, a necessidade dele. A palavra entusiasmo, dizia, daquele jeito apaixonado dele de contar, vem do grego e significa “ter os deuses por dentro”. Depois descobri que ele falava isso sempre que podia. Quem nunca.

Nessa segunda uns quantos amigos me mandaram mensagens. “Lembrei de ti.” Como se tivesse morrido alguém da família. E a sensação é parecida. Sou dessas malucas que recitam trechos da obra do Galeano sempre que possível e acho que O Livro dos Abraços deveria ser leitura obrigatória.


Vai-se mais um dos grandes. Posto que escrever como ele não vai dar, que a gente ao menos tente viver assim. Com os deuses por dentro, caminhando atrás da utopia sempre dois passos além do horizonte. 

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