20.5.15

O presente da Judite

Uma amigona, a Judite, sofreu um acidente muito feio ao atravessar a rua em Porto Alegre. Não se lembra direito do que aconteceu, só de acordar no hospital após a pancada com um bando de ossos quebrados. Depois de uns dois meses acamada, ela agora está reaprendendo, pouco a pouco, aquelas coisas que a gente vê como tão naturais que dá por inatas, como caminhar. Nesta terça, foi o aniversário de 29 anos dela que sempre curtiu tanto reunir os amigos e festejar. Ao invés de se lamentar, ela chamou o povo para um “presente coletivo”.
Achei tão, tão bonito, que me deu vontade de compartilhar com o mundo. Roubo um trechinho do convite que ela nos escreveu, batizado de Retorno de Saturno. Dizem os astrólogos que 29 anos é o tempo que Saturno leva para voltar ao ponto onde estava quando nascemos, trazendo com esse retorno uma série de questionamentos sobre quem nos tornamos e quem queremos ser. No caso da Ju, esse retorno chegou um pouco mais ao pé da letra do que qualquer um esperaria:

Nesse tempo, praticamente fixa na cama, o que eu mais faço é pensar. E o pensamento maior, aquele que resume todos os outros, é: como a vida sabe ser pequena e gigante ao mesmo tempo. A única coisa que lembro com clareza sobre o acidente é de acordar na ambulância sem saber sequer se eu existia, muito menos se eu continuaria existindo a partir dali. Com o passar dos dias, à medida em que eu fui compreendendo que não foi dessa vez, eu fui também percebendo que eu não sei quando a vez vai ser, e que até lá tem uma quantidade gigante de vida a ser sentida com cada pedacinho de mim. Uma vida mágica demais para ser desperdiçada na rotina impensada na qual a gente tão facilmente acaba entrando. Comemorar é uma coisa que a gente não devia fazer a cada ano, mas a cada dia vivido.”


A partir disso, ela chamou os amigos para pensarem que algo que sempre dizem que gostariam de fazer, mas deixam pra outra hora seja por culpa da rotina, seja por preguiça, enfim. “Desse jeito, daqui até lá, eu vou me encher de motivos para sorrir – e no momento, pra mim não tem festa melhor do que essa”, continua ela.

Além de convidar a todos pra entrar nessa do presente da Ju – a conhecendo, ela vai ficar feliz da vida ao saber que inspirou outras pessoas -, deixo aqui o que escolhi fazer pensando nela.

“Fiquei pensando aqui no que eu poderia fazer para te dar de “presente” e percebi que, no geral, vou bem atrás das minhas vontades. Ao menos quando a gente pensa nessas coisas de forma mais grandiosa. Eu ainda não saltei de paraglider - no fim, acho que não queria tanto assim -, mas já viajei sozinha afu, corri a Europa, parte da América do Sul e a aurora boreal, a África e a Índia tb não ia rolar matar antes do dia 19. 
Daí me ocorreu - o tipo de coisa que chega pra gte numa terça de manhã, no meio de um pensamento e outro, e acaba nos pegando pegando pelo contrapé e virando o dia -, que ainda não pintei as paredes do apezinho em que moro. E eu moro em um quitinete pintado de vermelho, verde limão e laranja faz mais de um ano! (O dono tinha um lance das cores serem do guru dele, ‘não é minha culpa’, explico a todas as visitas…) E não pintei pq, no fundo, achei q iria sair logo dali, e saindo logo dali não valeria a pena, e não valendo a pena venho improvisando formas de viver no espaço desde então (na esteira da parede, percebi dezenas de outras pequenezas que ignorei, como a máquina de lavar que lava mas não bate a roupa como deveria, o negócio de colocar o xampu a caminho de enferrujar, a cortina tosca e por aí vai).
Um pouco por preguiça outro pouco – aí veio a grande “ocorrência” -, por também pensar, apesar de não ter nada em vista para isso, que logo sairia do Rio. Mas, pôxa, nenhum apartamento, nenhuma cidade e, em última escala, nenhuma vida merecem ser tratados como uma sala de espera, né?
Posto isso, vou te dar e me dar de presente uma singela parede branca. Pq, mesmo se eu decidir me mudar amanhã, como tu bem nos lembrou com esta tua comemoração tão bonita, e vem lembrando a cada nova postagem, a vida é agora, não o que faremos dela semana que vem.”

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