26.6.15

As suásticas da Lapa

E olha a gente aqui de novo com... materia. Coisa pouca, dessas que a gente chama em jornalismo de "cascata". Algo que não tem tanta relevância assim, mas acaba ganhando espaço.
Apesar disso, achei bem interessante ir atrás da história dessas suásticas escondidas em meio a boêmia da Lapa, aqui no Rio. Visitar o prédio então, foi tão legal quanto. O Victor costumava ser um hotel e tem uma pegada de Edifício Master. Apartamentões e quitinetes, gente morando há 50 anos e há seis meses.
Ah, e um fato que acabou não entrando no texto! A suásticas, segundo o professor Milton Teixeira, são símbolos antiquíssimos. "O sol com pernas, porque o sol caminha sobre o céu ao longo do dia."

Prédio na Lapa, no Rio, tem corredores cobertos por ladrilhos com suásticas

Hoje um prédio residencial, o Edifício Victor, um antigo hotel de arquitetura art déco localizado na rua do Riachuelo, próximo aos Arcos da Lapa, no centro do Rio de Janeiro, guarda em seus corredores uma decoração um tanto quanto peculiar. Ao invés de flores ou símbolos abstratos, em alguns andares os ladrilhos desenham pequenas suásticas.
Pesquisadora da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e moradora do Victor desde 2008, Vanessa Leite diz que o piso sempre causa "comoção" entre seus visitantes. Ela conta que uma amiga alemã que se hospedou no local uma vez ficou perturbada com os desenhos. "Os amigos acham estranho, mas para a gente acaba sendo algo pitoresco", diz.

A beleza do jornalismo. Num dia seriedades, noutro curiosidades.

18.6.15

"No Brasil os culpados são sempre os pobres, os negros, os jovens”

E daí que das maquetes do seu Luiz vamos sem escala para o assunto de sempre nesse Rio de braços abertos no cartão posta e punhos fechados na vida real: a violência.
Te dizer que em meio a histeria geral em torno da tal “onda de violência” no Rio, é um alívio sentar para conversar com alguém que amplia e traz sensatez ao debate como o Atila, diretor da Anistia Internacional no Brasil.

Como ele nos lembra, devemos evitar nos deixar levar por surtos de indignação que um ou outro fato provocam. “O risco disso é buscar correndo um culpado. E historicamente no Brasil os culpados são sempre os pobres, os negros, os jovens.”


"Não há onda de violência no Rio", diz diretor da Anistia Internacional


morte do médico cardiologista Jaime Gold, esfaqueado por ladrões em um assalto na Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul do Rio de Janeiro, e os recentes casos de assaltos com facas tanto no centro quanto na zona sul do Rio de Janeiro, trouxeram à tona o debate em torno de uma suposta onda de violência na cidade, que desencadeou até a aprovação de uma medida proibindo o porte de instrumentos pontiagudos no Estado.
Além disso, algumas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) --projeto que completa sete anos em 2015 -- têm sido constantemente atacadas por criminosos que buscam a retomada de territórios hoje ocupados pela polícia, ampliando a sensação de insegurança vivida pelos moradores da capital fluminense.       
Para o historiador carioca e diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil, Atila Roque, 54, é preciso tomar cuidado com os surtos de indignação causados por crimes pontuais e enxergar a política de segurança pública para além da questão da polícia. Roque, que teve o pai morto em uma tentativa de assalto e cujo responsável nunca foi punido, acredita que não há uma onda de violência, mas uma disposição à "indignação seletiva". O caminho, defende, é abandonar a "percepção de guerra contra esse inimigo difuso que acaba sempre sendo incorporado pelo menino pobre da favela por uma perspectiva da preservação e garantia da vida de todas as pessoas".
UOL - Podemos falar em uma onda de violência no Rio de Janeiro?
Atila Roque -
 Não há uma onda de violência. O que nós temos, não apenas no Rio, mas no país, é uma normatização de uma violência muito seletiva. Devemos evitar nos deixar levar pelos surtos de indignação que um ou outro fato destacado pela mídia provocam. O risco disso é buscar correndo um culpado. E historicamente no Brasil os culpados são sempre os pobres, os negros, os jovens. Há um certo tipo de perfil social que acolhe os preconceitos que a sociedade produz. O que não significa que nós não tenhamos um problema grave de violência e, especialmente, de violência letal. O Brasil mata, por ano, cerca de 50 mil pessoas. Em 2012, foram 56 mil homicídios. Desses, 30 mil são jovens e 77%, negros.
Seria então uma questão de uma percepção maior da violência do que necessariamente um aumento?
O debate sobre segurança pública e violência no Brasil sempre foi muito marcado por uma concepção que trata a segurança mais como um mecanismo de controle social do que um direito. É como se a cidade tivesse territórios diferenciados e cidadãos de primeira e segunda classe. Quando essa violência eventualmente atinge uma pessoa dos territórios reconhecidos como Estado pleno, se dá o espanto. O que não quer dizer que não seja legítimo. Qualquer morte merece ser lamentada, não importa a classe social, onde isso aconteça, ou não deveria importar. Na prática, importa muito. A morte do médico na Lagoa gerou uma comoção justificada, mas, mais uma vez, tratada de forma seletiva. Enquanto a sistemática de mortes e execuções que atinge regularmente uma parte grande da juventude carioca e do Brasil, com algumas exceções, passa desapercebida. A violência precisa ser tratada em uma sua integralidade.
O resto da entrevista, aqui.

17.6.15

O Rio de Janeiro do seu Luiz

Outro dia fui fazer uma matéria, aquela da Girlene e das remoções, que comentei por aqui, e, ao me despedir, um dos entrevistados, o seu Luiz, me pediu para esperar. “Vou te dar um presente.”

Abriu a porta da oficina, correu ligar um botão e de repente não estávamos mais na favela Metrô Mangueira, mas na ponte Rio Niterói, no Joá, em Copacabana, acompanhando os bombeiros resgatarem de helicóptero os turistas desatentos na praia. O fotógrafo, encantado, só dizia. “Tu tem que voltar com vídeo, tem que voltar!”

Volta e meia ganho alguma coisa de entrevistados – camiseta, boné, comida -, mas está foi a primeira vez que alguém me deu uma história. Se eu pudesse, nem tinha escrito nada. Só deixava ele aí falando com graça e malemolência do Rio que construiu na garagem entre um ensaio de trompete e um radiador estragado. 

Acabou que voltei com a grande Taís Vilela, que costurou num vídeo de uma delicadeza ímpar todo o nosso deslumbramento.

Segue um trechinho da matéria:

(foto do Fernando Maia/UOL)

No Rio de Janeiro de Luiz Silveira, 47, nunca há engarrafamentos e todos os dias são dias de praia. Também é possível cruzar a avenida Brasil e a ponte Rio-Niterói em minutos e pegar, sem fila, o bondinho até o Pão de Açúcar.
Mecânico e soldador, ele se orgulha de ter reconstituído boa parte da capital fluminense entre as quatro paredes da garagem de sua oficina, na favela Metrô Mangueira, comunidade vizinha ao Estádio do Maracanã e que a Prefeitura do Rio de Janeiro tenta remover desde 2010. Pelas mãos de Luiz, antigos pedaços de motores e peças encontradas no lixo se transformam em pontes, prédios e cenários típicos cariocas.
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Não sei como faz para colocar o link do vídeo aqui, mas seguimos no esquema de sempre. A matéria e o vídeo – que valeu muito ver -, tão lá no site. Por Alah, ele toca Samba de Verão no trompete pra gente! 

Nessas horas a profissão se paga.

Valeu, seu Luiz. Melhor presente

12.6.15

Rio, I Love You But You're Bringing Me Down

Nesse dia dos namorados uma música pra minha valentine, esse conjunto de beleza e caos eternos que é o Rio. Como diz Carol Maia, quando tu vê, já foi. A cidade gruda na gente.

10.6.15

Diálogos maternos, versão Bolo de Milho

Aproveitei a cozinha nova e a possibilidade de usar o forno sem dormir tendo sonhos com o cheiro da comida para fazer um bolo para o aniversário de uma amiga, formato festa junina na praça.

Caprichei na receita – um bolo de milho true, que aprendi com a grande Carol Oms -, e mandei, toda garbosa, uma foto para a dona Marlei. No que, ela retruca:

- Que lindo, filha! É bolo de caixinha?


BOLO DE CAIXINHA?!! Jamais!

Como aqui a gente conta o causo, mas também dá a receita, segue o tintim por tintim do bolo, direto do caderninho/e-mail da Carol. E o melhor, é só amor e liquidificador que não tem erro.

Bolo de milho

Ingredientes:
4 ovos
1 lata de milho
1 lata de leite
1 lata açúcar
1/2 lata de óleo
10 colheres de milharina
1 pitada sal
coco ralado
queijo ralado
fermento


Colocar no liquidificador o ovo e o milho. Acrescentar o leite. açúcar, óleo e uma pitada de sal. Acrescentar a milharina aos poucos. 
Acrescentar o coco e o queijo. E, por último, o fermento. Colocar numa forma untada e por no forno pré-aquecido por cerca de 40 minutos.

E que bolo, folks. Lágrimas estomacais de saudade pelo piquenique em que Carol nos apresentou, alguns outonos atrás.

8.6.15

Pessoas

Tche, a graça desse mundo são mesmo as pessoas. À espera da minha consulta no dentista, batia um papo com a secretária, Lô, uma jovem e animada senhora. Ela contava que está atrás de alguém para adotar um gatinho que achou preso em uma macumba fim de semana. Daí a conversa passou para o candomblé, Lô lembrando como viu cerimônias muito bonitas em terreiros na época em que morou na Bahia, há 30 anos. Chegou até a conhecer a mãe Menininha antes da fama. Pergunto o que ela fazia por lá, ela responde. “Ah, é que eu era de uma gangue de motoqueiros, os Hells Angels.” Falta de timing total, o dentista decide aparecer e me chamar para entrar. Consulta que vem chego antes só para saber o resto da história.

3.6.15

Anotações de um padre preso numa cidade sem zoológico

Tenho me divertido horrores na companhia do padre João, protagonista de "Agora deus vai te pegar lá fora". Dá vontade até de ler mais devagar, pra não ter que me despedir tão cedo do personagem.

Preso durante a ditadura com base na lei de segurança nacional em uma cidadezinha de fronteira gaúcha, ele passa os dias a teorizar a vida, tentando entender como parou ali, e a receber visitas, o que, acredita, é um os efeitos colaterais  de ser um 'padre preso numa cidade sem zoológico".

O padre também teoriza muito sobre o acreditar ou não em algo além de nós, questão que volta e meia assombra meu agnosticismo. Além de encher o livro de causos contados com forte sotaque gaúcho entre rodas de chimarrão o que, por si só, já vale a leitura.

Deixo o padre com plano de reler os Contos Gauchescos do Simões Lopes Neto (ou ler de fato, já que o que vi foi mais por conta do vestibular que por gosto) e me aventurar nos textos de São Tomáz de Aquino.

"Confesso que sempre tive dificuldade com essa possível interferência de Deus nos destinos dos homens, com o cruel silêncio dos céus em relação ao labirinto de causas e efeitos deste mundo. Tento me consolar pensando que talvez seja melhor assim. Melhor que as religiões não passem de meras frestas para o Grande Mistério. Assim vi as muitas crenças ontem à noite: simples frestas para o Grande Mistério. Porque logo que uma delas se julga porta escancarada, com que arrogância e frieza começa a definir quem entra e quem não entra. E, não raro, a matar os que julga indignos. Assim que obrigado, Senhor, por Teu silêncio relativo, pelas frestas que de Ti nos concedes na Tua grande e vívida noite."

Agora deus vai te pegar lá fora, Carlos Moraes

2.6.15

A família do 336

Tenho planos de transformar o meu agora antigo prédio em objeto de estudo. Cursando sociologia urbana, nada mais justo que pôr o 336 na roda. Uma das coisas que mais me impressionam por lá é o senso de comunidade; muitas vezes fico com a impressão de que os porteiros, ao me saberem família de uma pessoa só, se veem no papel também de irmãos mais velhos. Consertam chuveiros e encanamentos sem cobrar nada, se preocupam, às vezes pagam até de alcoviteiros. Um olhar parecido com o dos taxistas que volta e meia ameaçam não querer me largar em algumas pautas temendo pela minha segurança. Nessas, a quentura no coração cruza com a aversão a dar satisfações e a vontade de explanar que me viro bem sozinha. Vence a quentura, que tranquiliza dona Marlei. Laranjeiras, o 336, é mesmo uma cidade de interior. Sentirei saudade.

1.6.15

Girlene, a favela Metrô Mangueira e os nossos 28 anos

(Fernando Maia/UOL)

Na última sexta-feira fui até a favela Metrô-Mangueira, na zona norte do Rio, conversar com os moradores, surpreendidos na quinta-feira por tratores da Prefeitura dispostos a colocar o local abaixo. Sobrevivente e vizinha ao estádio do Maracanã, a Metrô-Mangueira resistiu, com muitas baixas, às remoções realizadas em nome da Copa do Mundo e agora espera existir ainda depois das Olimpíadas.

Ao menos oito casas foram derrubadas naquele podetudo que a administração municipal não vê problema em praticar nesses locais que fogem ao cartão postal. Entre os agora desabrigados, encontrei Girlene.

Uma mochila nas costas com documentos, algumas memórias e mudas de roupas, um filho de oito meses e outro de quatro anos para cuidar, uma geladeira e uma máquina de lavar – tudo o que conseguiu salvar nos 15 minutos que teve para esvaziar a sua casa -, mais um desespero que jornalismo nenhum conseguiria registrar.

Paraibana, ela deixou o filho mais velho, de 10 anos, com a mãe e veio tentar a sorte com o namorado e o filho, então recém-nascido, no Rio. Arrumaram um barraco por R$ 400 ao mês na Mangueira, ela um trabalho em uma barraquinha de caldo de cana na mesma Metrô Mangueira que depois se tornou seu lar e foram tocar a vida.

O namorado acabou matando alguém por motivos que Girlene preferiu não comentar, foi pego e condenado a oito anos de prisão. O caldo de cana, demolido em uma das primeiras tentativas da Prefeitura de acabar com a Metrô Mangueira.

Desempregada, ela ainda engravidou de novo do namorado numa das visitas que fez a ele na prisão, em Bangu, e se viu só no Rio sem ter como pagar nem os R$ 400 do barraco que os dois haviam montado. Invadiu, ainda em 2012, um quarto e sala abandonado num prédio feito de improviso na Metrô Mangueira e dormia com as crianças do lado quando ouviu uma vizinha gritando que ela para ela correr que perigava de os tratores derrubarem a construção com ela dentro.

Conversei com ela e com outros moradores, escrevi a matéria do melhor jeito que pude no que me restou de tempo da cruel equação apuração/publicação/internet e não me saiu da cabeça que nós duas temos 28 anos. Só que os nosso 28 correm em planetas diferentes.