3.6.15

Anotações de um padre preso numa cidade sem zoológico

Tenho me divertido horrores na companhia do padre João, protagonista de "Agora deus vai te pegar lá fora". Dá vontade até de ler mais devagar, pra não ter que me despedir tão cedo do personagem.

Preso durante a ditadura com base na lei de segurança nacional em uma cidadezinha de fronteira gaúcha, ele passa os dias a teorizar a vida, tentando entender como parou ali, e a receber visitas, o que, acredita, é um os efeitos colaterais  de ser um 'padre preso numa cidade sem zoológico".

O padre também teoriza muito sobre o acreditar ou não em algo além de nós, questão que volta e meia assombra meu agnosticismo. Além de encher o livro de causos contados com forte sotaque gaúcho entre rodas de chimarrão o que, por si só, já vale a leitura.

Deixo o padre com plano de reler os Contos Gauchescos do Simões Lopes Neto (ou ler de fato, já que o que vi foi mais por conta do vestibular que por gosto) e me aventurar nos textos de São Tomáz de Aquino.

"Confesso que sempre tive dificuldade com essa possível interferência de Deus nos destinos dos homens, com o cruel silêncio dos céus em relação ao labirinto de causas e efeitos deste mundo. Tento me consolar pensando que talvez seja melhor assim. Melhor que as religiões não passem de meras frestas para o Grande Mistério. Assim vi as muitas crenças ontem à noite: simples frestas para o Grande Mistério. Porque logo que uma delas se julga porta escancarada, com que arrogância e frieza começa a definir quem entra e quem não entra. E, não raro, a matar os que julga indignos. Assim que obrigado, Senhor, por Teu silêncio relativo, pelas frestas que de Ti nos concedes na Tua grande e vívida noite."

Agora deus vai te pegar lá fora, Carlos Moraes

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