1.6.15

Girlene, a favela Metrô Mangueira e os nossos 28 anos

(Fernando Maia/UOL)

Na última sexta-feira fui até a favela Metrô-Mangueira, na zona norte do Rio, conversar com os moradores, surpreendidos na quinta-feira por tratores da Prefeitura dispostos a colocar o local abaixo. Sobrevivente e vizinha ao estádio do Maracanã, a Metrô-Mangueira resistiu, com muitas baixas, às remoções realizadas em nome da Copa do Mundo e agora espera existir ainda depois das Olimpíadas.

Ao menos oito casas foram derrubadas naquele podetudo que a administração municipal não vê problema em praticar nesses locais que fogem ao cartão postal. Entre os agora desabrigados, encontrei Girlene.

Uma mochila nas costas com documentos, algumas memórias e mudas de roupas, um filho de oito meses e outro de quatro anos para cuidar, uma geladeira e uma máquina de lavar – tudo o que conseguiu salvar nos 15 minutos que teve para esvaziar a sua casa -, mais um desespero que jornalismo nenhum conseguiria registrar.

Paraibana, ela deixou o filho mais velho, de 10 anos, com a mãe e veio tentar a sorte com o namorado e o filho, então recém-nascido, no Rio. Arrumaram um barraco por R$ 400 ao mês na Mangueira, ela um trabalho em uma barraquinha de caldo de cana na mesma Metrô Mangueira que depois se tornou seu lar e foram tocar a vida.

O namorado acabou matando alguém por motivos que Girlene preferiu não comentar, foi pego e condenado a oito anos de prisão. O caldo de cana, demolido em uma das primeiras tentativas da Prefeitura de acabar com a Metrô Mangueira.

Desempregada, ela ainda engravidou de novo do namorado numa das visitas que fez a ele na prisão, em Bangu, e se viu só no Rio sem ter como pagar nem os R$ 400 do barraco que os dois haviam montado. Invadiu, ainda em 2012, um quarto e sala abandonado num prédio feito de improviso na Metrô Mangueira e dormia com as crianças do lado quando ouviu uma vizinha gritando que ela para ela correr que perigava de os tratores derrubarem a construção com ela dentro.

Conversei com ela e com outros moradores, escrevi a matéria do melhor jeito que pude no que me restou de tempo da cruel equação apuração/publicação/internet e não me saiu da cabeça que nós duas temos 28 anos. Só que os nosso 28 correm em planetas diferentes.

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