18.6.15

"No Brasil os culpados são sempre os pobres, os negros, os jovens”

E daí que das maquetes do seu Luiz vamos sem escala para o assunto de sempre nesse Rio de braços abertos no cartão posta e punhos fechados na vida real: a violência.
Te dizer que em meio a histeria geral em torno da tal “onda de violência” no Rio, é um alívio sentar para conversar com alguém que amplia e traz sensatez ao debate como o Atila, diretor da Anistia Internacional no Brasil.

Como ele nos lembra, devemos evitar nos deixar levar por surtos de indignação que um ou outro fato provocam. “O risco disso é buscar correndo um culpado. E historicamente no Brasil os culpados são sempre os pobres, os negros, os jovens.”


"Não há onda de violência no Rio", diz diretor da Anistia Internacional


morte do médico cardiologista Jaime Gold, esfaqueado por ladrões em um assalto na Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul do Rio de Janeiro, e os recentes casos de assaltos com facas tanto no centro quanto na zona sul do Rio de Janeiro, trouxeram à tona o debate em torno de uma suposta onda de violência na cidade, que desencadeou até a aprovação de uma medida proibindo o porte de instrumentos pontiagudos no Estado.
Além disso, algumas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) --projeto que completa sete anos em 2015 -- têm sido constantemente atacadas por criminosos que buscam a retomada de territórios hoje ocupados pela polícia, ampliando a sensação de insegurança vivida pelos moradores da capital fluminense.       
Para o historiador carioca e diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil, Atila Roque, 54, é preciso tomar cuidado com os surtos de indignação causados por crimes pontuais e enxergar a política de segurança pública para além da questão da polícia. Roque, que teve o pai morto em uma tentativa de assalto e cujo responsável nunca foi punido, acredita que não há uma onda de violência, mas uma disposição à "indignação seletiva". O caminho, defende, é abandonar a "percepção de guerra contra esse inimigo difuso que acaba sempre sendo incorporado pelo menino pobre da favela por uma perspectiva da preservação e garantia da vida de todas as pessoas".
UOL - Podemos falar em uma onda de violência no Rio de Janeiro?
Atila Roque -
 Não há uma onda de violência. O que nós temos, não apenas no Rio, mas no país, é uma normatização de uma violência muito seletiva. Devemos evitar nos deixar levar pelos surtos de indignação que um ou outro fato destacado pela mídia provocam. O risco disso é buscar correndo um culpado. E historicamente no Brasil os culpados são sempre os pobres, os negros, os jovens. Há um certo tipo de perfil social que acolhe os preconceitos que a sociedade produz. O que não significa que nós não tenhamos um problema grave de violência e, especialmente, de violência letal. O Brasil mata, por ano, cerca de 50 mil pessoas. Em 2012, foram 56 mil homicídios. Desses, 30 mil são jovens e 77%, negros.
Seria então uma questão de uma percepção maior da violência do que necessariamente um aumento?
O debate sobre segurança pública e violência no Brasil sempre foi muito marcado por uma concepção que trata a segurança mais como um mecanismo de controle social do que um direito. É como se a cidade tivesse territórios diferenciados e cidadãos de primeira e segunda classe. Quando essa violência eventualmente atinge uma pessoa dos territórios reconhecidos como Estado pleno, se dá o espanto. O que não quer dizer que não seja legítimo. Qualquer morte merece ser lamentada, não importa a classe social, onde isso aconteça, ou não deveria importar. Na prática, importa muito. A morte do médico na Lagoa gerou uma comoção justificada, mas, mais uma vez, tratada de forma seletiva. Enquanto a sistemática de mortes e execuções que atinge regularmente uma parte grande da juventude carioca e do Brasil, com algumas exceções, passa desapercebida. A violência precisa ser tratada em uma sua integralidade.
O resto da entrevista, aqui.

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