23.7.15

Contra a cultura do estupro, estudo de gênero nas escolas

Os casos de estupros coletivos ocorridos recentemente no Piauí e no Ceará em me levaram a conversar, ainda na semana retrasada, com a juíza Adriana Ramos de Mello, titular do 1º Juizado de Violência Doméstica contra a Mulher, no Rio. Ela lembra que esses casos são apenas a ponta do iceberg frente a uma cultura arraigada no país que estimula a violência contra a mulher. Em média, uma mulher é estuprada no Brasil a cada quatro minutos, de acordo com dados do 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Para a juíza, não basta apenas punir os agressores e não pensar em mecanismos para reverter este quadro. Ela aponta como principal medida a inclusão do estudo de gênero, direitos humanos e combate à discriminação nos currículos escolares. "Quando vejo que foram adolescentes que participaram do estupro coletivo no Piauí, penso que alguma coisa falhou nessa educação", afirma. "Estamos só cuidando de quem já morreu, vai morrer ou já sofreu a violência. E essa mulher que não foi agredida mas vai ser?", questiona.

Só leis não funcionam contra estupros, é preciso mais educação, diz juíza


UOL - Há silêncio em torno dos casos de estupro?
Adriana Ramos de Mello - Existe uma dificuldade por parte das vítimas de denunciar, de se identificarem como vítimas do estupro. E ainda há o medo e a vergonha de se exporem perante as autoridades e reviver aquela experiência. A violência sexual é uma das formas de violência mais graves. Envolve o sentimento de poder que o homem tem sobre a mulher. É cultural.
Podemos falar em uma cultura de estupro?
A cultura patriarcal, de desigualdade de poder nas relações entre homens e mulheres, incita a violência. Além da violência física, há um estímulo simbólico à violência muito forte, principalmente na imprensa e na publicidade. A erotização da mulher, com frequência colocada como se fosse um produto, por exemplo, é uma forma de incitar a violência.
Como de praxe, segue o resto da entrevista aqui.

22.7.15

Um poema pra embalar a chuva

Chove muito, mais, sempre mais… Há como que uma coisa que vai desabar no exterior negro…
Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro pálido.
Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a vela.
Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morte, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morte o coração actual.
[livro do desassossego. Bernardo Soares, semi-heterônimo de F. Pessoa.]

21.7.15

Dois anos sem Amarildo

E lá se vão dois anos que o Amarildo desapareceu. Voltei à casa da Bete, viúva dele, ainda em junho, para ver como estava a família. O bacana de retornar a uma pauta é acompanhar também o crescimento das pessoas. A Bete que gritou pro mundo “Onde está o Amarildo?” em 2013 já era uma leoa, mas a que manteve essa busca acesa é hoje uma mulher diferente. Mais forte. E ainda sem resposta.

Dois anos após sumiço, família ainda sonha enterrar corpo de Amarildo

(foto: Zulmair Rocha/UOL)

Dois anos após a morte do marido, Elizabete Gomes da Silva, 50, e os filhos ainda se perguntam "onde está Amarildo". O ajudante de pedreiro Amarildo de Souzadesapareceu depois de ter sido levado algemado por PMs da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, no dia 14 de julho de 2013. Apesar dos policiais estarem presos, a localização do corpo permanece um mistério.
De lá para cá, a vida de Bete e dos seis filhos deu uma reviravolta. De dona de casa, ela passou a representante das vítimas da violência policial em favelas. No começo de julho, foi à Alemanha falar sobre o tema –antes, viajou a Brasília, Belo Horizonte e São Paulo para participar de encontros organizados por ONGs de direitos humanos. "Aprendi que você gritar pelos seus direitos não é crime.Quantos Amarildos não desapareceram? O medo faz você calar a boca."
A matéria completa, aquela história, aqui.

20.7.15

Os dias

A vida contada em visitas a Caxias.
A vida contada em centímetros do Lucas, primo-sobrinho, novo membro da família.
A vida contada em rugas no rosto do pai.
A vida contada em novos cabelos brancos entre os fios até então moreno alourados.
A vida contada em cartelas de comprimidos para enxaqueca.
A vida contada em aterrissagens.
A vida contada em retorno a matérias e personagens do passado.

13.7.15

Ítaca

Se partires um dia rumo à Ítaca 
Faz votos de que o caminho seja longo 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem lestrigões, nem ciclopes, 
nem o colérico Posidon te intimidem! 
Eles no teu caminho jamais encontrarás 
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes 
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti. 
Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
Nas quais com que prazer, com que alegria 
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
Para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir. 
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos 
E perfumes sensuais de toda espécie 
Quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrinas 
Para aprender, para aprender dos doutos. 
Tem todo o tempo ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas, não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
E fundeares na ilha velho enfim. 
Rico de quanto ganhaste no caminho 
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. 
Ítaca não te iludiu 
Se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência. 
E, agora, sabes o que significam Ítacas. 


Constantino Kabvafis (1863-1933) 
in: O Quarteto de Alexandria - tradução José Paulo Paz.

9.7.15

A civilização, sempre

Uma das partes mais bacanas de ir ao congresso da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), que rolou semana passada em SP, foi ter a chance de ouvir o Clóvis Rossi falar um pouquinho da profissão. Nesses tempos incertos, nada mais atual:

“Uma das coisas que eu prezo muito em jornalismo é que, na hora em que você tem que escolher entre a civilização e a barbárie, não tem outra escolha que não seja a civilização. A defesa da democracia é o único lado que eu tomarei pro resto da vida".

7.7.15

O efeito colateral da gente ter morado - e sido feliz - em mais de uma cidade é acabar, para sempre, meio partido. Nessas horas, só o cancionário sertanejo traduz o sentimento ao deixar a pergunta. E conta da saudade, quem é que paga?