22.7.15

Um poema pra embalar a chuva

Chove muito, mais, sempre mais… Há como que uma coisa que vai desabar no exterior negro…
Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro pálido.
Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a vela.
Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morte, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morte o coração actual.
[livro do desassossego. Bernardo Soares, semi-heterônimo de F. Pessoa.]

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