30.8.15

Ao Ildo, melhor garçom da Lanchera

Quando mudei pro Rio, fui tomar uma cerveja derradeira na Lanchera e avisei o Ildo que estava de partida. Ele pediu um momento, correu, pegou caneta e papel, e trouxe o telefone de um primo que fazia mestrado por aqui pra eu ligar caso precisasse de alguma coisa. "Cidade nova, a gente nunca sabe." Vou perder a despedida - acabou que deu tudo tão certo que sigo por estas bandas já há uns bons cinco anos -, mas ficou o gesto. Nessa vida tão corrida e maluca da gente eu, que sai da serra para o Bomfim pra fazer faculdade, tinha no Ildo e na Lanchera parte da minha família em Porto Alegre, assim como tantos outros estudantes pé-rapados que equilibravam o mês entre o RU e o xis coração prensado. Como a gente sempre quer que os lugares em que foi feliz e tem saudade permaneçam os mesmos, torço pra que essa nova fase longe da Oswaldo seja sensacional, maaaas ‪#‎ficaIldo‬!

Plantão ao som dos bandolins



Pra animar essa domingueira de sol passada boa parte dentro da redação.

28.8.15

Mujica e a esperança

Deixa eu tomar dois minutos para falar da beleza de ver o Pepe Mujica, meu gaulês preferido, sentado ontem na Uerj, aqui no Rio, “falando com a juventude”, como fez questão este jovem senhor de 80 anos. O senhor ali naquela mesa, recebido com gritos, suspiros e sinalizadores (!), parecia mais um rockstar que um ex-presidente e ex-preso político de um pequeno país de pouco mais de três milhões de habitantes plantando no sul do mundo. E quem diria que a nossa juventude ainda seria capaz de ovacionar alguém ao ouvir frases como é ‘"é preciso começar a pensar como espécie, não como país"? Tinha outras tantas frases de efeito anotadas que tinha vontade de escrever aqui – e que calham de descer muito verdadeiras quando ditas por alguém que de fato dedicou a vida a viver como pensou -, mas, bom, ficaram para trás junto com os outros 50 bloquinhos que não saíram de casa comigo hoje, e vocês, de certo, lerão matérias melhores sobre a noite passada por aí. Mas fato é. Nesse tempo em que a gente é ensinado a desacreditar antes de por o pé na rua, Mujica e toda a sua trajetória nos lembram que a esperança/necessidade de lutar por um mundo melhor não são nem nunca serão démodé. A fala toda do Pepe e a alegria daquela multidão que o ouvia me deu vontade de citar o seu conterrâneo Galeano (que, por sua vez, também citava alguém, que eu já não lembro mais): “caminhamos dois passos, a utopia se afasta dois passos. Então para que serve a utopia? Para caminhar.”

27.8.15

Volta às aulas



Rabisco entre uma e outra teorização nas noites de estudos de sociologia urbana.

Daltonismo automibilístico

Tenho um problema sério. Sou incapaz de distinguir modelos de carro. O taxista diz ao telefone, “estou numa Zafira”, eu penso, “que bom pra você, amigo, agora diz algo que ajude. Qual é o número do carro, o senhor usa moicano?”.

13.8.15

O crime da cobradora

Rio de Janeiro, perto do meio dia. Uma dessas linhas de ônibus que vão da grande Laranjeiras à estação central. Leio um tanto quanto desatenta. Uma senhora faz psiu para a cobradora liberar a roleta para ela. A cobradora, que dava o troco para outra mulher, retruca, seca, mas polida, “um momento, senhora, estou terminando de dar o troco para uma passageira”. Senhora bufa. Cobradora a libera. Mulher sentada em algum lugar do ônibus grita, “você tem que ter educação! Tem que respeitar os mais velhos! Você é uma grossa!”. Outras duas mulheres começam a fazer coro e a xingar a cobradora também. Cobradora se recusa a pedir desculpas, diz que apenas pediu para a senhora esperar. Indignada, uma das mulheres grita que conhece os seus direitos, irá dar queixa na polícia, e ordena ao motorista que pare no primeiro posto da PM, que a cobradora tem que ir presa! O crime da cobradora. Esquecer o seu lugar na Casa Grande e Senzala.

11.8.15

Begha e seu cine de rua e na bike para crianças na Maré

Deixa eu apresentar pra vocês o Bhega, um desses seres humanos que fazem a gente acreditar na humanidade. Com uma bike e um projetor, ele montou um cineminha de rua em que passa filmes para crianças no Complexo de Favelas da Maré.

E mais não digo, leiam aí. :)

Morador da Maré vende óleo usado para financiar cinema na rua para crianças


Toda quinta, sexta e sábado, por volta das 19h, o músico Begha Silva, 56, escolhe um beco entre o sem fim de vielas que compõem o Complexo de favelas da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, e transforma a rua em um cinema a céu aberto. O público são as crianças do Complexo de cerca de 130 mil habitantes que correm de encontro ao músico a cada nova sessão. 
Begha, que ganha a vida fazendo anúncios pela favela com uma caixa de som presa à inseparável bicicleta, teve a ideia em 2013, ao ver a curiosidade com que os pequenos acompanhavam o seu trajeto. Em novembro, orgulha-se, o 'cinema no beco' completa dois anos. "A comunidade não tem nada para as crianças", diz. "Cinema é caro demais, tudo dentro do shopping. Muitos pais não têm nem como pagar a condução, muito menos o ingresso."
Continua aqui.

9.8.15

Dia dos pais

Desde pequena, decidi que queria ter uma assinatura marcante, inspirada na assinatura do pai, que até hoje me parece linda, altiva e quase que incompreensível. Apesar de ser capaz de desenhar uma letra de professora de colégio (que o jornalismo e a taquigrafia de pautas arruinaram), cresci tentando imitar a assinatura dele. Tentava daqui, tentava dali, nada de igualar a robusteza dos Ps e Bs, a sutileza do formato. Um dia me dei por satisfeita e cheguei, orgulhosa, num arrozoado meu que lembrava, de longe, o do seu Paulo, e que uso até hoje. Daí eu descobri que ele nunca teve assinatura nenhuma, aquela era apenas a forma como ele escreve Paulo Bianchi em sua letra particularmente ruim. Usando o dia dos pais como pano de manga pra reflexão, acho que ainda sigo nessa. Tentando ser mais Paulo Bianchi na vida, repetir a forma generosa como ele vê as pessoas e o mundo, quando ele apenas sai por aí sendo, com a maior naturalidade, sem tomar nem dois segundos para pensar a respeito. Lembro que tem churrascão com a família toda na grande Caxias do Sul e eu estou atrás do pc em mais um domingo de plantão e penso que, em grande parte, é culpa dele. Quem mandou me criar com esse gosto por ver o mundo e essa curiosidade por gente. Almas arrueiras, filhos arrueiros, seu Paulo. Ainda bem.

6.8.15

Sobre mudar

Tava aqui pensando com meus botões como, sim, a gente muda e nem percebe.
Eu, que gostava mais de Rolling Stones, hoje quase só ouço Beatles; que não comia berinjela, coloquei o legume no topo da lista de compras do mercado; que amava a casa cheia me vejo feliz ao constatar que todos os roomies viajaram e poderemos ficar só eu, meus discos, livros e Kafi, lendo até cansar.

Até que ponto essas mudanças são fruto do amadurecimento, até que ponto são irreversíveis? Quanto de nós resiste a passagem do tempo?

4.8.15

Açúcar

Sabe, tenho tentando me recuperar da dependência. De açúcar. A coisa começou inocente. Um cappuccino da máquina da redação no meio da manhã, outro depois do almoço. Um chocolatinho branco só para adoçar à tarde e a sobremesa. Quem sabe só mais um chá antes de ir embora? Quando vi, o te matinal já não vinha com meia, mas com duas colheres cheias de pó branco e o que antes era eventual virou rotina. Gli co se. A çú car. Corpinho pedindo a vida cada vez mais doce, a cintura acompanhando o rebolado, cada vez menos cintura. Mas parou. Chega dessa história, chega, liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós! Para não dizer que metas de segunda não dão certo, começo essa na terça. Adeus às armas. Adeus açúcar desnecessário. Foi bom enquanto durou. Sentirei saudade.