26.12.16

Para 2017

Conheci um dos meus melhores amigos na fila do RU, como ele bem me lembrou na dedicatória do seu primeiro livro (pausa pro jábá: Senho Gelado e outras histórias, do @igornatusch lançado agora em dezembro, disponível no site da Cultura e nas livrarias mais bacanas de Porto Alegre. Que orgulho desse guri, tche!). Nesses tempos de hiperconexão, provavelmente teria passado a meia hora que me separava da querida bandeja de feijão e arroz a R$ 1,30 surfando aleatoriamente pela internet e pelas redes sociais ao invés de decidir dar oi ao simpático moço de barba ruiva e camiseta de metaleiro que compartilhava comigo a fome e a espera nas inevitáveis filas que acompanhavam nossos almoços naqueles tempos de dureza estudantil. Daí que o meu desejo pra esse 2017  -- que encerro meu ano, graças a Alah, hoje, com o fim do plantão, alegria, alegria –, além de que sejam 365 dias mais leves, é que a gente consiga passar mais tempo juntos, rindo e conversando a distância de um abraço, do que na telinha do celular. E saiba ter a delicadeza de olhar mais o que há de bom no mundo e nos outros, que quantos Igors pra vida toda a gente não perde nessas correrias loucas que acompanham nossa rotina atualmente. 

22.12.16

Estou lendo um livro que é de contos e não é – a narrativa é toda a mesma, ocorre mais ou menos no mesmo espaço, mas o narrador não se preocupa em explicar as mudanças de tempo ou de histórias ou mesmo em explicar qualquer coisa --, que me subiu uma vontade de escrever. Penso com meus botões que ele não segue regra nenhuma; os botões respondem, ‘quem liga para as regras se o texto é bom?’. Vejo textos por toda a minha Caxias do Sul que visitei numa folga prolongada que ganhou contornos de natal antecipado. A mãe chama para fazer qualquer coisa. Deixo para escrever depois. Depois vira nunca mais. 

21.12.16

Cenas de verão

Combino com amigos de ir à praia após o trabalho. Biquini na bolsa, o Leme vira aterro. Alguém traz uma bola, jogo basquete pela primeira vez desde o colégio com um estranho que conhecemos na quadra. Meia hora de correria depois, migramos atrás de uma partida de vôlei que nunca começou. Vou descalça pela pista de corrida apreciando a temperatura do asfalto. Algum termômetro no caminho marca 38º. A conversa gira tem torno do clássico diferenças entre cariocas e o resto do mundo. “O bom e o ruim do Rio é que a cidade parece uma pracinha, todos se encontram o tempo todo”. Cruzo com um conhecido que se desculpa pelo suor e desacelera a corrida para um abraço. “Quando alguém diz vamos fazer algo na sexta significa ‘foi bom te ver, a gente se cruza por aí’.” Sentamos na areia. Entrar ou não entrar no mar da baía de Guanabara? Um barraqueiro animado aparece e em pouco tempo minha canga é cercada por uma mesinha, cadeiras e latões de cerveja devidamente acomodados em camisinhas de isopor. O sol cai aos poucos. Chegam amigos de amigos, a mesa aumenta. O fundo é o pão de açúcar. De esguelha, por entre prédios, é possível ver o Cristo. Deixo os amigos e caminho de volta até a minha bicicleta pela areia. Me distraio com os caras que passam correndo por mim e me pego olhando por mais tempo para um deles. Ele para para me cumprimentar; outro conhecido. Desvio de um casal de namorados que escuta música alta, bato os pés na grama para colocar as alpargatas, destranco com calma o cadeado da bicicleta. Um ambulante ao lado quebra um coco para dar de beber ao cachorro. Atravesso a avenida e tomo o rumo de casa. Quase 22h, a rua borbulha de gente, os termômetros seguem namorando os 40º. Verão, enfim.

***
(mais verão. Tomo um banho, me preparo para quebrar um ovo e miro a frigideira. Falta luz. Aos poucos os olhos se acostumam e o breu diminui. Respiro a escuridão e o quase silêncio. Termino o jantar com a lanterna do celular. Da varanda, escuto os burburinhos de reclamação dos vizinhos e vejo pontos de luz intermitentes de uma que outra lanterna. Parte da fiação do poste em frente ao prédio pegou fogo, avisa uma amiga que mora na mesma rua pelo Whatsapp. Melhor ficar sem água ou sem luz? Deito na rede e começo a ler com o que me resta de bateria no telefone. A luz volta, a vizinhança comemora como se fosse um gol. Devia ter entrado na água.)

19.12.16

Cenas serranas

A mãe e a Caro descascam, com carinho, um punhado de physalis recém colhidos que serão mergulhados no chocolate para acompanhar, em algumas horas, o café da tarde. Eu e o pai somos instados a ajudar e tentamos, sem muito jeito, seguir a risca as instruções de dobrar para cima e torcer as folhas já secas dessa frutinha amarela e de nome estranho que a minha memória associa mais a noites dançando em Bogotá, onde faz às vezes de amendoim nos bares, que à serra gaúcha. Desço com o pai na lavoura; cruzamos com pêssegos, peras, romãs, goiabas, abacates, um pé de jabuticaba que “insiste em não jabuticabar”, e uma pitangueira com três pombas rolas - duas pequenas e uma maior -, escondidas por entre os galhos. “Estão tomando lições de vôo”, diz o pai. Chegamos ao tal do physalis, um arbusto baixo, que de longe lembra um tomateiro selvagem e que um senhor contratado para roçar o terreno tomou por mato uns meses atrás. Pergunto como uma planta que ousa ter até ph no nome chegou ao nosso quintal. Ele remexe com delicadeza a terra ao redor, levanta alguns galhos para mostrar os casulos que guardam os frutos, e responde. “Foram os passarinhos.”

19.11.16

A novela das passagens versão 2016

Anualmente passo pela novela de ver o preço das passagens pra casa no natal, sofrer com eles, achar que não vai dar, pensar em ir de carona, a pé, de busão, aceitar, deixar meio rim com as companhias áreas e ficar aliviada porque vai ter natal sim senhora (ainda que, dessa vez, antecipado). Podia tomar vergonha na cara e comprá-las, sei lá, em agosto, mas dai qual seria a graça?

18.11.16

Quanto tempo é tempo?

Pra esquecer alguém, tocar em frente, começar uma história nova.
Mal faz duas semanas que Kafi, a gata com quem dividi apartamento pelo último ano e meio, trocou as Laranjeiras por um novo lar sem varanda mas com terraço na Tijuca. Ainda chego em casa procurando por ela, estranhando não ser acordada pelo seu miado de ‘deu, tu já dormiu demais, é hora de me alimentar’ nem cruzar/tropeçar em seu corpinho peludo pelo corredor.
Me consolava – e isso é errado, eu sei -, pensar numa Kafi com os olhos fixos na porta, achando que estava em um passeio mais longo que o normal, contando o tempo para voltar. Quem sabe assim ela não acabava voltando mesmo?
Mas eis que dona Ana avisa contente – em parte pelo alívio de já não ter quilos de pelos para aspirar pela casa, em parte por não ser na barriga dela que o bicho dormia longas siestas, ciumento dos livros que ousavam chamar mais atenção que o seu ronronado -, que Kafi ‘leva a vida que pediu a deus’, pulando de telhado em telhado e exercitando o lado selvagem que deixou marcas tanto nos meus braços quanto nas visitas desavidas que teimavam em confundi-la com uma gata qualquer.
Duas semanas, e viramos, eu, Daniel e Júnior, história.

17.11.16

Sobre Jonas e outros 8.000 e tantos

'No dia 1º de novembro um grupo de moradores da favela Chapéu Mangueira, na praia do Leme, na zona sul do Rio de Janeiro, desceu o morro arrastando num lençol ensanguentado o jovem Jonas, 20, baleado durante um tiroteio entre criminosos e policiais militares. Eles tentaram colocar Jonas no banco de trás de um carro de polícia; os policiais, assustados, arrancaram em alta velocidade, deixando-o caído no asfalto, a poucos metros da orla. Desesperados, os moradores atiraram pedras contra um ônibus que passava por ali até pará-lo, carregaram o jovem para dentro do coletivo e o levaram até o hospital municipal Rocha Faria, no bairro vizinho de Botafogo. Pouco depois de chegar a unidade, Jonas, baleado na cabeça, não resistiu aos ferimentos e morreu.'

Matéria inteirinha, acá.

16.11.16

A tal da menção honrosa




Começo do mês quebrei protocolos e tietei com gosto o Zuenir Ventura durante a entrega do prêmio Patrícia Acioli de direitos humanos. Tão legal quanto a plaquinha ali com a menção honrosa que vou levar pra dona Marlei no natal foi conhecer um dos jornalistas que leio e admiro desde antes mesmo pensar em pagar o aluguel e viver a vida escrevendo as histórias dos outros. 

A matéria que rendeu a tal da menção honrosa fala justo do aumento desproporcional de mortes de civis por policiais em são Gonçalo após o assassinato da juíza. E vida longa ao jornalismo nosso de todos os dias!

15.11.16

Aniversariantes novembrinos

Novembro calha de vir coalhada de aniversários de amigos do peito/irmãos/camaradas. Alguns deles com um dos melhores fatores para desenhos despretenciosos: barbas!
Algumas, no caso do Kauê, até com trancinhas.



Fica aqui o meu parabéns a canetinha, rabiscado entre um e outro intervalo do plantão. E viva o Rod e o nosso amigo K.!

9.11.16

The Trump Day

Sobre 2016, só consigo pensar que ainda temos 50 dias pela frente e Alah only knows o que pode acontecer ainda.

4.11.16

Vai ter natal, sim senhora

Anualmente passo pela novela de ver o preço das passagens pra casa no natal, sofrer com eles, achar que não vai dar, pensar em ir de carona, a pé, de busão, aceitar, deixar meio rim com as companhias áreas e ficar aliviada porque vai ter natal sim senhora (ainda que, dessa vez, antecipado). Podia tomar vergonha na cara e comprá-las, sei lá, em agosto, mas dai qual seria a graça?

29.10.16

O que o subúrbio carioca quer?

Eleição aí, tal e coisa, coisa e tal, ado, ado, cada um na sua pracinha, mas fato é que quem vai decidir esse pleito é o pedaço da cidade que costuma escapar aos jornais. Mas o que o subúrbio carioca quer? 




(Fernando Maia/UOL)

Ao longo dos trilhos de trem que cortam ao meio o Rio de Janeiro a partir da Central do Brasil, no centro, até as bordas da capital fluminense, corre uma cidade que foge do cartão postal e que será, junto aos seus mais de 4,1 milhões de moradores –cerca de 65,5% da população do município, de acordo com o Instituto Pereira Passos--, o fiel da balança destas eleições.

O subúrbio carioca, que inclui a zona norte e parte da zona oeste, tem memórias e queixas comuns: transporte, saneamento básico, lazer, segurança pública e saúde são questões longe de serem resolvidas.

"São as áreas da cidade que mais demandam direitos públicos", diz o historiador e professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Rafael Santos.

O próprio conceito de subúrbio, diz Santos, passa por uma disputa de representação --recentemente, um vereador apresentou um projeto de lei propondo transformar a região da Barra da Tijuca e do Recreio em "zona oeste-sul", dessassociando-a do restante da região oeste. "A cidade é mutante, as nomenclaturas que estabelecemos são políticas", diz.

Lar da Portela, dos bate-bolas, do viaduto de Madureira e de outras tantas manifestações culturais tipicamente cariocas, essa região esquecida é, de acordo com seus moradores, deixada de lado entre as prioridades da cidade, voltadas mais para a zona sul e o centro. Mas o que o subúrbio carioca quer?

A matéria inteira, bonita, com os trilhos passando e o lindo vídeo da Taís Vilela, acá.

28.10.16

Nível de transmissão de pensamento entre irmãos

Termino um livro, surto com o livro, resolvo que coisas como comprar comida e lavar roupa são menos importantes que ler o livro, e penso, 'caramba, CARAMBA, preciso levar esse livro pra Caroline ler na próxima vez que eu for pra casa'. Dois dias depois, Bianchi Jr. telefona. "Tu PRECISA ler o livro que eu terminei de ler agora!". O que são 2 mil quilômetros pra quem nasceu do mesmo umbigo, ein?

19.10.16

Os 30 da Cris


Formato presente post it (ou, o começo da nova década que vai longe).
E fica também como desejo geral para os amigos, antes, durante e depois dos famigerados 30.

13.10.16

O verão que não vem

O calor, o calorzão, aquela sensação de que o Saara deve ser mais fresquinho que o verão carioca traz de brinde zero me fazem falta. Agora a leveza das noites de verão, poxa, dessas ai eu tô saudosa.

21.9.16

Metas literárias

Acabo de acrescentar o Budapeste, do Chico, aos livros lidos, e sacar que será difícil bater a meta dos dois por mês. Mas,né, nós não vamos colocar uma meta. Nós vamos deixar uma meta aberta. Quando a gente atingir a meta, nós dobramos a meta.

15.9.16

América latina carioca

E tem esses dias em que o centro do Rio é também a América Latina inteira. Como quando sobe o cheiro das goiabas vendidas em carrinhos de mão, cortadas ao meio num ziquezague cuidadoso, e cruza com o cheiro de bolo de milho, de aipim, do pastel chinês da esquina, da poeira, do lixo, do suor e do calor de fim de inverno que faria ruborizar setembros mais ao sul. E passa uma negra linda, e grande, e gorda, de cabelo comprido trançado com fios roxos, calça estampada, tomara que caia e tatuagem do Piu Piu no ombro, e solta uma gargalhada larga e cutuca um apontador de jogo do bixo sentado num banquinho no resto de sombra que foge junto com os últimos minutos da manhã. E “que lindos são seus olhos”, grita um menino que distribui panfletos que prefere não entregar. “Melhor não, não são para moças”. E os alto-falantes ecoam praça afora o som de flautas tocadas por índios equatorianos fantasiados de indios americanos enquanto um morador de rua assiste confortavelmente sentado no chão um show de pagode qualquer que passa por acaso numa banca de jornal, que de jornal já quase não tem nada, ao lado de um vendedor mais interessando em brincar com os arremedos de pipa que oferece do que com os clientes em si. E podia ser Salvador, Cartagena, Havana, mas é só a Uruguaiana, é só a Carioca.

12.9.16

29 quase primaveras

Passo uma boa hora e meia remando uma água com gás e lendo preguiçosamente trechos da pilha de livros que recolhi com gosto pela livraria. Decido pelo bem dos meus fundos levar só um e pergunto pra moça do caixa se há desconto para aniversariantes. Ela diz, sem graça, que não e começa a embalar com capricho o livro para presente. Digo que não precisa, ela retruca. “Mas esse não é um presente de você para você mesma?”. 

31.8.16

E então, que quereis?

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

Vladímir Maiakóvski
*Citado pela presidente Dilma Rousseff em seu discurso de despedida nesta triste, triste, quarta-feira de cinzas da democracia em mais um agosto que entrada para a história marcado de luto.

9.8.16

O transporte carioca e as suas peculiaridades

O ônibus pode tanto te ignorar no ponto fazendo polichinelo pra garantir espaço no campo visual do motorista quanto estacionar fora dele e esperar tranquilamente a sinaleira abrir pra ti embarcar (para o rancor dos outros passageiros).

Sabe q eu tava aqui elaborando uma teoria sobre a relação busão/motora/passageiro. A questão, acredito, é ver os motoristas apenas como meros condutores de um veículo a serviço público. O motorista de ônibus no Rio não é um simples motora, ele é o piloto (como tu bem pontuou, Carol), o dono da bola. Uma vez ao volante, não se prende a questão pueris como respeitar regras de trânsito ou mesmo o trajeto da linha. Rola quase uma transcendência. a gente se entrega por livre e espontânea vontade as decisões dessa pessoa, que podem tanto passar por cantar Kid Abelha a plenos pulmões (imagina isso em Porto, SP?), quanto 'dar um dez' pra fazer um lanche e bater um papo numa esquina qualquer enuqanto geral espera pacientemente (o que não deixa de ser libertador nesses tempos decisões all the time). Já corri atrás de ônibus e bati boca por conta da velocidade e de velhinhos deixados a ver navios no ponto, já vi passageiro reclamar aos berros que o motorista estava querendo agradar a chefia ao parar em todos os pontos e andar de acordo com o permitido pela lei, mas também já vi o cara parar pra me embarcar por trás em outra linha no meio do caminho quando comentei que tinha pegado o ônibus errado e me liberar a catraca numa manhã atrasada em que deixei a cabeça e a carteira em casa. Por essas e por outras que nenhum lugar é capaz de igualar essa cidade.
"É a função do poeta: nomear o inominável, apontar as fraudes, tomar partido, despertar discussões, dar forma ao mundo e impedir que adormeça" (Salman Rushdie)

20.7.16

No consultório, um velhinho gaiato me deseja “bom castigo”, frente ao atraso de uma hora e lá vai pancada que me aguardava. Na pauta, um homem mostra as mãos machucadas, com os nós sangrando. Diz que o dono do morro fez questão de lhe dar uma lição depois que o companheiro foi reclamar que eles haviam brigado. Na redação, ligo pra uma fonte, para confirmar uma entrevista. Ela diz que não pode falar, insisto. “Não posso falar agora, uma amiga acaba de falecer na minha frente.” É um mundo cão. Um cotidiano cão. E a gente já nem tem grito pra prender.

27.6.16

Sabedoria do velhinho acupunturista que me deixou com um terceiro olho em formato de agulha no meio da testa:

“Na vida, a gente se preocupa com um dia por vez. Hoje você se preocupa com hoje. Amanhã com amanhã."

18.6.16

As histórias do pai

Meu pai, meu herói, meu maior leitor (junto com a sra Dona Marlei e minhas tias), veio feliz comentar a história do seu Geraldo, o taxista (estão todos pura revolução digital desde que um tablet entrou porta adentro lá de casa). Animado, disse que eu tinha era que escrever sobre a minha infância com Bianchi jr. e lembrou dois, três casos que ganharam estrelinha no anedotário familiar. Como a vez que atravessamos a cidade com o alarme do carro ligado, abrindo caminho entre as movimentadas avenidas de Caxias do Sul, porque chegar na escola no horário era mais importante que qualquer conserto, ou o fim de tarde em que eu quis ver o pôr-do-sol nas montanhas de uma cidade vizinha e, ao voltar, a luz da camionete sumiu, nos fazendo correr as curvas da BR-116 no escuro, só com o pisca-alerta ligado, grudando em cada carro que aparecia para aproveitar os faróis alheios e assustando os motoristas que cortavam o país mais pro Chuí que por Oiapoque. “Ainda sento pra escrever um livro só com as tuas histórias, pai”, retruquei. “As nossas”, ele contestou. O que boa parte de vocês aí não sabem é que eu me chamo Paula Bianchi por conta do Paulo Bianchi e que só sou eu porque cresci com ele ao meu lado.   

17.6.16

Era uma vez, Laranjeiras

“Você não era nem nascida e eu já morava nesse prédio”, diz o taxista, saudoso, logo que entro no carro, em frente de casa. Pergunto quando ele morou por aqui, ele diz que lá por 1986, 7. Faço algum comentário do tipo, ‘poxa, quase 30 anos’ e reclamo que falta um bar e um mercadinho. Ele lembra que tinha um boteco do outro lado da calçada. Volto para as minhas anotações pré-pauta, ele manobra. Seguimos umas quadras em silêncio. Já quase fora de Laranjeiras ele continua. “Vi o 492 e corri para pegar a corrida. Uma vez por ano cai alguma coisa pra cá ou pra rua.” Comento que é mesmo um lugar muito legal, ele diz que hoje vive em Olaria, na zona norte. Pergunto por que ele deixou o bairro. “Porque ela foi embora”. Fico eu em silêncio dessa vez. “Foi fazer doutorado em Londres. A gente era noivo. Consegui um emprego com um amigo em Lisboa. De trem a gente se arranja, né? Uma semana antes de mudar para lá, meu amigo bateu na minha porta dizendo que tinha brigado com o sócio e que ia ficar de vez no Brasil. Eu sem falar inglês não era capaz nem de trabalhar de garçom na Inglaterra... Ficamos namorando por carta, por telefone. Naquele tempo não tinha a facilidade de comunicação que tem hoje. A minha conta vinha que era um livro. Até que o amor não aguentou. Ela casou com um belga. Eu arrumei uma companheira. É duro um amor dar conta de tanto tempo, tanta distância.” A corrida se encaminha para o fim, pergunto o nome dele. Geraldo. Preencho o voucher e agradeço, ele sorri e me deseja um bom dia e boa sorte. 

16.6.16

Com vocês, Sílvia Pérez

Deixa eu agradecer aqui a Portugal e aos amigos que fiz por lá por terem me apresentado essa espanhola sensacional. E viva o alantejo e suas estrelas sem fim.

When I was a child
I thought I'd
when I were thirty I could be a men
with a family and a dog at home
It was a dream
I am to say child but worse
I'm a dog with no home



15.6.16

(Escrevo aqui para dizer para mim mesma que não vou te escrever. Sonhei com você hoje. Lembrei de você ao atravessar a rua, ao pegar o ônibus, ao sentar e ler no jornal uma colunista que já tínhamos comentando. Queria ser capaz de decifrar você na mesma medida em que queria conseguir te esquecer de vez. Mas lá vou eu, viro uma curva e bum. Você. Na placa da empresa de engenharia que se espalha pela cidade, na propaganda de um grupo universitário na TV, numa avenida perdida no meio de Portugal. Seu nome como um lembrete, uma praga, uma provocação. Seus olhos e o seu perfil no rapaz que achei ter me chamado atenção por acaso num sábado à noite qualquer. Tenho noção de que esse é um você inventado, nenhuma realidade aguentaria tamanha onipresença. Coisas de um coração bobo e saudoso desse estar mais cheio, pulsar mais rápido, sofrer mansinho. A vida, afinal, disse alguém uma vez, é feita das coisas que acontecem e das coisas que poderiam ter acontecido. Como você.)

Sobre Borges

Pra não deixar de marcar aqui os 30 anos e um dia da morte do grande Jorge Luis Borges.


E um bônus track com áudios inéditos dele aqui, num especial do Clarín.

14.6.16

Precisamos falar sobre a cultura do estupro

Cabou que o fim de maio foi marcado pela notícia terrível de um estupro coletivo aqui no Rio de Janeiro envolvendo uma menina de 16 anos. A parte todo o horror da coisa, cresceu pelas redes, jornais e afins um debate até então mais restrito a grupos feministas: a necessidade de falar da cultura de estupro. Contribuindo pro debate, toquei com umas amigas um Mangiare e rabisquei uma matéria em cima de uma conversa com duas pesquisadoras que manjam muito mais do que eu do assunto. Para nã deixar isso passar em branco também aqui pelo Palim, segue o link, no esquema de sempre.

Análise: sociedade não se vê em cultura do estupro, mas condena mulher por sexo


  • Manifestantes se reúnem na avenida Paulista, em São Paulo, e participam do ato "Por todas Elas", contra a cultura do estupro e a violência praticada contra as mulheres

O delegado que pergunta para a vítima de estupro se ela tinha o hábito de praticar "sexo em grupo", como ocorreu no caso da adolescente de 16 anos estuprada noRio de Janeiro, e a pessoa que lê uma notícia de abuso e pensa que a vítima "pediu para isso acontecer" ao tomar determinadas decisões fazem, para a antropóloga Alba Zaluar, parte de uma mesma cultura que culpa a mulher por fazer sexo.
"Quando você pergunta se a pessoa fazia sexo grupal é o mesmo que perguntar: 'você é uma piranha?'", diz Alba, referindo-se à conduta do delegado Alessandro Thiers, titular da DRCI (Delegacia de Repressão aos Crimes de Informação), afastado no domingo (29) da investigação do caso de estupro coletivo. "Tem toda uma condenação moral para as mulheres que dão, o que não existe para os homens", afirma.

25.4.16

Escrevo na varanda, fim da tarde. Kafi deitada na cesta ao lado, o céu a mudar de tom devagarinho. A favela se enche de luzes. O calor dá uma trégua de leve. É uma vida temporária - não sei quanto tempo eu duro no Rio, duramos nós três no apê -, é uma vida boa.

18.4.16

17 de abril de 2016

Domingo de sol em Copacabana. Família brasileira unida. Pais, filhos e avós de verde amarelo, com a bandeira do Brasil nas costas e a camisa da seleção. Cerveja e caipirinha correndo soltas. Teve até quem trouxesse cadeiras de praia para não perder um minuto da votação em Brasília transmitida em três telões instalados à beira-mar. Passa um ambulante com um adesivo da CUT no isopor, alguém com uma camisa do Vem pra rua começa a xingá-lo, até que o homem, constrangido, arranca o adesivo. O baile segue. Cada vez que uma deputada se posicionava contra o impeachment, o povo urrava, “vadia”, “filha da puta”. Quando era um deputado que dizia não, os xingamentos mudavam um pouco. “Traidor”, “vagabundo”. As crianças gritando junto, imitando os pais. Outro ambulante passa, diz algo sobre vermelho, não consigo ouvir. Cinco homens com a camisa da CBF correm atrás dele e começam a chutá-lo. Ele cai no chão, tenta se defender. A alguns passos de distância, um PM come um milho, sem se mover. Corro até ele, pergunto se não vai fazer nada. O policial diz que o ambulante “merece” e dá mais uma dentada no milho. Cai a noite. Um certo deputado justifica o voto citando o coronel Ustra, apontado pelo Ministério Público Federal como torturador do DOI-CODI. A multidão entra em êxtase. Entrevisto uma senhora de idade, que veio ao ato com as duas netas. Ela sorri. “Estou aqui pelo Brasil."

7.4.16

Diário de uma pitangueira

Está brava plantinha nasceu em Caxias do Sul e depois de viajar de ônibus até Porto Alegre e de avião até o Rio de Janeiro fixou residência na varanda cá do apê no mui valoroso bairro das Laranjeiras. Essas duas folhas mais novinhas já podem se dizer cariocas e o plano é que a moça cresça e apareça, incrementando os planos de lar-pomar. Próximos capítulos neste mesmo batblog em god only knows que bathorário.

Um choro e um cheiro pelos 20 anos

Uma vez, em algum lugar da Bolívia, sentei para jantar com um fotógrafo brasileiro e um escritor chileno que conheci nas andanças dessa que foi minha primeira grande viagem solita. Tinha 21, 22 (?) anos, toda aquela sede de mundo, e prôpus um brinde a estarmos ali juntos, até hoje uma das minhas formas favoritas de celebrar encontros. Estávamos num local muito simples, mas com uma comida sensacional, conhecido como ‘agachados’ ou algo assim, por ser em tese frequentado às escondidas pela aristocracia local da imponente Santa Cruz de la Sierra. O fotógrafo parou meu brinde no meio e corrigiu, “Vamos brindar a tua juventude”. O escritor concordou. “O que eu não daria para ter 20 anos e todas as possibilidades pela frente outra vez”. E o brinde engatou numa série de casos dos dois correndo a América Latina com direito até a uma filha gaúcha do chileno no meio da história. À época, eu ri e não dei muita bola. Esses dias lembrei dessa história e a frase bateu. Vejo E lá se vão os 20 anos fazendo a curva.

29.3.16

As aspas, o contexto e o detalhe

Desde a faculdade, sempre me diverti com essa análise de conteúdo informal entre o que nós, como jornalistas, acabamos publicando. Tem muita coisa que é pura coincidência, muita coisa escrita em cima do laço do fechamento e muita coisa que é detalhe mas não é tão detalhe assim. 

Atrás de declarações da ministra Carmem Lúcia me deparei com duas matérias diferentes sobre uma mesma fala dela em um evento público na semana passada. Em uma delas, a ministra era categórica já no título: “impeachment não é golpe”. Na outra, também no título, ela dizia, “impeachment não é golpe se a Constituição for respeitada”.

Olha a aspa completa da Carmem, quando questionada sobre declarações da presidente feitas também na semana passada: "Não ouvi [o discurso], mas tenho certeza que a presidente deve ter dito que, se não se cumprir a Constituição, poderia haver algum problema. Não acredito que ela tenha dito que impeachment é golpe porque ele é previsto na Constituição. O que não pode acontecer é que não se observe as regras constitucionais.”


Num texto essa aspa toda aparece já no segundo parágrafo. Noutro, no pé -- jargão pra fim da matéria. Os dois estão corretos e tal, mas o amigo contexto. Bem, esse fica no detalhe.

25.3.16

Colagens de aniversário

Você aí sabem que eu bem curto rabiscar - na adolescência, passava horas fazendo colagens mil no computador e anualmente me divertia inventando papéis de parede de aniversário pra miss Bianchi Jr. Posto que mais do que crise o que pega é fim do mês e há muitos amigos arianos no mundo, ontem parei uns minutos pra desejar parabéns para uma amiga com alguns traços. Fica aqui um pedaço do desenho e desejos gerais porque acho que ele ficou bacana e tamo aí vivendo.

23.3.16

Sobre esse março

A título de revisão histórica, pra quando um eu do futuro correr os posts desse março sem fim e sem escrúpulos na política nacional: a minha vontade, frente ao mar de lama todo, a possibilidade da saída da presidente, golpe e afins, é colocar a mão na cabeça e ficar repetindo, ad infinitum, “mas gente, mas gente, mas geeeeeeeente!”.

Ah, e também vai ser bom lembrar que ainda existia gente sensata, como a Laerte e seus sempre jugulares cartoons (muito bem lebrado pelo Ramon, lá no Vitralizado).

6.3.16

“Claro que estamos em guerra, e é guerra de sítio, cada um de nós cerca o outro e é cercado por ele, queremos deitar abaixo os muros do outro e continuar com os nossos, o amor será não haver mais barreiras, o amor é o fim do cerco.”

José Saramago, História do cerco a Lisboa

Plantão reflexivo

"A vida é feita das coisas que acontecem e das coisas que poderiam ter acontecido."

2.3.16

Diálogos - versão assessoria de sotaque

Assessor diz, por telefone:  -- Poxa, diminuiu bastante o teu sotaque paulista com o tempo, né?
Eu: -- Deve ser porque eu sou gaúcha.”

29.2.16

O carnaval desconhecido dos bate bolas

Ainda sobre carnaval, esse último post me lembrou que não compartilhei por aqui a matéria que fiz com a minha eterna dupla de reportagem Mauro Pimentel sobre os bate-bolas.  É um carnaval pegado e bem tradicional do subúrbio do Rio, mas que acaba de lado na narrativa oficial, muito pela violência que é associada a eles.
Segue um trechinho do texto. O resto, lá no site.

"Invisível", carnaval de bate-bolas mobiliza centenas de pessoas no Rio

(foto: Mauro Pimentel/UOL)

Enquanto parte do Rio de Janeiro e do país se concentram para acompanhar os desfiles na Marquês de Sapucaí e outros milhares de foliões chegam à capital fluminense para aproveitar o sem fim de blocos que tomam a cidade, um grupo vara noites nos últimos preparativos de um Carnaval que não costuma aparecer na televisão, mas mobiliza centenas de pessoas todos os anos no subúrbio carioca: os bate-bolas.
Adriano Esteves, 41, líder da "Turma da Praça", que reúne cerca de 50 bate-bolas, como são chamados os foliões que saem as ruas com o rosto coberto e roupas elaboradas que tomam conta da zona oeste do Rio e da Baixada Fluminense todos os anos no Carnaval, ainda lembra com carinho do medo e admiração ao ver os mascarados caminhando pelas ruas e fazendo algazarra.
E a história segue lá no site do trampo.

26.2.16

Sobre carnavais e a tal da avenida

(post reciclado de 2014)

Nunca tive muita (nenhuma) paciência para os paranauês de Carnaval de avenida, tão pouco me deslumbrei, como haviam prometido os amigos, quando tive a chance de ver a bateria da Mangueira ao vivo comendo asfalto na Sapucaí -- apesar de admitir que uma bateria de escola de samba passando na tua frente a pleno vapor tem o seu valor e é o tipo de coisa legal de ser ao menos uma vez na vida. Foi só nesse verão, ao ser obrigada por força da profissão a caçar matérias em cada uma das 12 escolas do grupo especial carioca (que não chama grupo A, fica a dica), que entendi a grandeza do negócio. Tem nada a ver com os milhões gastos nos carros, com a purpurina toda da avenida ou as peladonas. É um negócio mais fundo, mais sem explicação, tipo escolha de time de futebol. A beleza tá no povo que põe a vida na roda pra esse negócio que, ok, ainda me parece meio cafona (sorry, Marcus), existir. Tipo a Tia Nilda, que desfila como baiana pela Mocidade há 38 anos e ficou feliz da vida porque a escola agora dá CDs com a letra do samba enredo e muitas das baianas, que não sabem ler, conseguem decorar a música mais fácil. Ou o Tião, que nasceu na mesma casa e no mesmo ano que a Império da Tijuca foi criada e até hoje, aos quase 80 anos, vai para o desfile com agulha, linha, esparadrapo, alfinete de segurança e o que mais conseguir levar para ajudar a salvar a galera na hora do aperto – seja ele uma fantasia rasgada ou um ritmista com as mãos machucadas. Gente, sabe? Ainda passo cobrir a avenida, mas agora olho com mais carinho pra essa bagunça toda.

19.2.16

Sobre descansar cansando

Tava aqui, meditando com meus botões, sobre essa coisa do cansaço. Esses últimos dias - aka, Carnaval -, eu dormi pouco, passei o dia saracotiando, e me senti zero cansada. Verdade verdadeira, me senti bem para caramba.

A mesma coisa acontece quando eu estou trabalhando/estudando muito, mas produzindo também e conseguindo sentar pra encontrar os amigos. Chego naquela canseira em casa, mas acordo novinha.

Daí que essa semana a vida volta ao normal, o nível de trabalho e de estudo também, e eu... tô direto cansada!

Lembrei de uma conversa com a grande Ana Lúcia em que chegamos a conclusão de que as pessoas tem formas diferentes de descansar - no meu caso e no dela, descansamos cansando. Me explico.

Preciso gastar boa parte da energia acumulada que tenho pra conseguir acordar 100% no dia seguinte. Se não, fica aquela sensação de algo embotado, a soneira...

Acho que a energia, o ânimo, é um fluxo que a gente tem que manter em movimento. Se não ela vai acumulando e meio que vencendo, sabe?

Enfim, viva a boa canseira.

18.2.16

Rie chinito

Que es larga la noche y claro el camino

15.2.16

Projeto meditar e projeto dois livros por mês fizeram água por motivos de carnaval. Agora que o ano de fato começou -- esses 45 dias foram só aquecimento --, borá correr atrás do prejuízo e colocar a vida em dia.

12.2.16

Resiliência carnavalesca

Cruzo com um rapaz carregando um tubarão de cerca de um metro a la ‘surfista que brigou com o bicho para não perder o braço’ em um bloco, corretamente batizado de 'Me enterra na quarta'. Dou parabéns pela ideia; ele suspira. “É o último bloco, tá no fim, tá no fim.” 

18.1.16

Ainda sobre o projeto meditar

Eis que chegamos ao dia 18 de janeiro, exatos 13 dias depois de por em prática o plano ‘meditação, agora vai’. Até agora completei oito das dez sessões do cursinho online em que me inscrevi. Ao invés de me autoflagelar e sofrer com não ter conseguido fechar o prazo – ok, no começo foi essa a minha reação --, resolvi olhar o copo meio cheio e ficar feliz de ter chegado até aqui.

Sigo achando que tem algo errado numa vida em que a gente não acha dez minutos por dia para sentar e respirar sem maiores obrigações do que isso, mas é bom ver que o caminho para mudar esse hábito começou. Acrescento aqui mais uma para a listinha de 2016: equilíbrio. Um dia a gente se cruza por aí.

***

Ah, e também procurei umas meditações guiadas em português (fui indicar por meu roomate, Dani, e me liguei que o inglês dele não daria conta dos aúdios) e achei está bela página da Sociedade Budista do Brasil. Tem uns quantos aúdios guiados. Ouvi um comecinho e me lembrou a vibe do Headspace.  

14.1.16

Tinha um tucano na borda do bloco


Livremente inspirado nesses desenhos gracinha do O menino e o mundo, animação tupiniquim indicada ao Oscar, que estão correndo a internet.

7.1.16

Meditar, esse ano vai

Eis que chegamos a mais uma das resoluções a conta-gotas para este 2016 que se desenha e já bateu na casa do dia 7: meditar.

Essa resolução é antiga. Já tentei várias vezes, mas nunca consegui manter ou chegar a um método. Meus planos nem são ambiciosos. Se eu conseguir treinar meu cérebro para parar cinco minutos por dia que seja já fico feliz.

Outro dia cruzei com um texto citando um aplicativo/site commeditações guiadas e acho que pode ser um caminho. Imagino que de pra encontrar várias dessas no Youtube também.

Me inscrevi ontem para a parte de teste, que oferece dez meditações guiadas de dez minutos. Fiz duas e gostei. Ajuda ter o carinha te puxando de volta quando a cabeça começa a viajar.

A ver. 2016, que me aguarde. 

6.1.16

Como ler mais

ou resoluções de ano novo a conta-gotas

Tava de bobeira na internet e me deparei com um desses textos de como fazer não sei o que com um cara pregando, “como ler 20 livros em um ano” e pensei: “rá, moleza!”. Já leio muito mais do que isso! Quem precisa de dicas sobre ler? Só que… não.

Checando meus alfarrábios vi que a conta batia, com força, nos 15 (considerando um livro que passei dezembro lendo e terminei comecin de janeiro). A vida adulta, as redes sociais, os seriados, a pós, o excesso de tarefas e a falta de tempo livre com a cabeça descansada? É sempre fácil apontar culpados. A verdade é que negligenciei as minhas queridas letras, que foram, de fato, quem me trouxeram até aqui – no fundo, no fundo, só cai no jornalismo, assim como tanta gente por aí, porque gostava de ler, e sonhava em, um dia, quem sabe, escrever algo de meu.

Pitangas choradas, é tempo de ação. Acho que 2016 aqui no bloguinho será marcado pelas resoluções a conta gotas. O plano é, portanto, não ler 20, mas 24 livros! Ou não me chamo Joaquina Solange!

A conta é de dois por mês, número que eu matava fácil até pouco tempo atrás e que me pareceria risível quando tinha 14 anos e lia de um a dois livros por semana. Um beijo para você, adolescência (seguido penso, inclusive, que fiz uma cota de aprendizado para a vida de mais até os 20 anos, e que, desde então, venho só emburrecendo e gastando esses neurônios).

Para atingir essa meta, vale seguir algumas dicas do moço e minhas (eu sei, eu sei, não li nem 20 livros e tô querendo dar lição de moral, mas vamos ancorar essa sabedoria na Paula rata de biblioteca do passado):

- Sempre tenha um livro na bolsa/mochila

Essa, amigos, é a regra de ouro. Esquecemos como a vida é cheia desses pequenos momentos de ócio em que bem caberiam uns minutos de leitura. A fila do banco, o busão até o trabalho, a espera por aquele amigo atrasado na mesa do bar.

Claro, a tecnologia colocou um entrave nisso. A diversão automática do celular que, como bem definiu Carolina Oms, nos joga para um buraco negro a cada olhadela, parecem sempre mais interessantes. Mas borá tentar vencer isso! Ao invés de matar o tempo checando o e-mail, Whatsapp, Twitter, Facebook, [preencha aqui com a sua distração telefoniana favorita], abre o livro ai, vai!

Não sei vocês, mas sempre que preencho meus minutos com livros, desenhos, textos ou outras coisas não relacionadas à tecnologia, me sinto melhor e parece que dou uma esticada no tempo, além de sentir também a mente mais leve. Ao invés daquele panorama eterno de informação, tu acaba focando em um relato contínuo, sem hiperlinks, o que permite ao cérebro (eu acho e umas artigos que li por aí concordam), fixar melhor a informação.

Isso pode ser atingido também em um leitor digital, claro. A questão não é a luta contra o hiperlink e a tecnologia em si, que é algo genial por permitir ampliar o que a gente lê, mas de de fato estar focado na leitura, saca?

Mas, ok, me alonguei demais nessa “regra de ouro”. Mas é de ouro, viu. Livro na bolsa é meio caminho pra livro lido. Posto isso, sigamos para o segundo ponto.

- Leia mais de um livro ao mesmo tempo 

Alguns dirão que isso é uma heresia, onde já se viu, mas é fato. Quando a gente lê mais de um livro, lê mais. Como assim, Braziu, você deve estar se perguntado. Primeiro prega o foco e na sequência quer dividir a atenção pelo mundo?

A questão, vejam bem, não é bem essa. Ler mais de um livro ao mesmo tempo significa admitir que nem sempre estamos no mesmo ânimo. E não estando no mesmo ânimo o tempo todo naturalmente não vamos querer ler a mesma coisa. Tens dias para romances russos e dias para contos rasteiros, assim como tem horas que a gente prefere ver um filme iraniano e outras tá só pelo pipoca estadunidense. Uma coisa não exclui a outra.

Pensem na literatura como um cardápio variado, um parquinho, feito para a gente se deliciar, não sofrer. Tem horas que o coração pede um conto do Caio Fernando Abreu, um romance da Clarice Lispector, e tem horas em que a gente se engata em um Alta Fidelidade da vida ou está mesmo por ler mais teoria e se vê de cabeça no Raízes do Brasil.

Lendo só um livro por vez tu acaba lendo menos por ignorar a sazonalidade da vontade. Isso, claro, não impede ninguém de grudar em um livro e contar os minutos para sair do trabalho/aula e querer terminá-lo, outra das delícias da literatura. Joga na bolsa aquele que faz teu coraçãozinho pulsar mais ou for mais leve e vai ser feliz.

O que nos leva ao terceiro ponto deste já longuíssimo texto:

- Não gostou, deixa para lá 

A vida é muito curta para ler livros que não nos dão prazer. Tem um ditado francês que diz que ‘manteiga é prazer’. Pois bem, ler é prazer. Faça porque te faz bem, porque te amplia o horizonte, porque é gostoso e apenas por isso. Ninguém é obrigado a seguir acorrentado a um livro por escolha própria só porque deu o azar de folhear algumas páginas – e as vezes até curtir, lá no começo, vá lá. Não tá legal, salta fora. Sem culpa, sem drama. Qualquer coisa, pensa que a vida também tem essa coisa de fase. Hoje não bateu, vai que ano que vem rola?

- Frequente livrarias/bibliotecas

Da mesma forma que nem sempre queremos ler a mesma coisa nem sempre queremos ler o que temos em casa. Aquela passadinha no sebo da esquina ou na biblioteca mais próxima – fica registrado aqui todo o meu amor às bibliotecas -, pode salvar as semanas em que nada parece nos animar além da página 2. Além, é claro, da mágica que existe nestes lugares. Não acho que encontramos livros, mas que eles nos encontram. E é preciso estar distraído e perto deles para que isso aconteça. Para isso, nada melhor do que flanar por corredores cheinhos de histórias ainda não descobertas. Vale também xeretar bibliotecas amigas. ;) 

E, por fim, a dica que vale tanto para ler quanto para viver mais.

- Dê uma folga ao telefone/tablet/PC

Uma vez em casa, deixe os eletrônicos paradinhos em algum canto, não grudados para cima e para baixo com você. Smartphone não é coleira, o mundo não termina se a gente não acompanhar as atualizações das redes sociais nem para de rodar se tu não responder imediatamente aquela mensagem de whatsapp ou e-mail. (Podemos dizer que é a suja falando do mal lavado, mas estou tentando mudar. Palavra de Joaquina!) 

Menos tempo conectado é igual a menos ansiedade e mais tempo de boa. E tempo de boa é tempo bom para ler.

Ufa. É isso aí. Boa leitura, galera. Nos vemos na linha de chegada no ano que vem.

P.S. Mais dicas são sempre bem vindas! E desculpem o textão. Me animei.