25.4.16

Escrevo na varanda, fim da tarde. Kafi deitada na cesta ao lado, o céu a mudar de tom devagarinho. A favela se enche de luzes. O calor dá uma trégua de leve. É uma vida temporária - não sei quanto tempo eu duro no Rio, duramos nós três no apê -, é uma vida boa.

18.4.16

17 de abril de 2016

Domingo de sol em Copacabana. Família brasileira unida. Pais, filhos e avós de verde amarelo, com a bandeira do Brasil nas costas e a camisa da seleção. Cerveja e caipirinha correndo soltas. Teve até quem trouxesse cadeiras de praia para não perder um minuto da votação em Brasília transmitida em três telões instalados à beira-mar. Passa um ambulante com um adesivo da CUT no isopor, alguém com uma camisa do Vem pra rua começa a xingá-lo, até que o homem, constrangido, arranca o adesivo. O baile segue. Cada vez que uma deputada se posicionava contra o impeachment, o povo urrava, “vadia”, “filha da puta”. Quando era um deputado que dizia não, os xingamentos mudavam um pouco. “Traidor”, “vagabundo”. As crianças gritando junto, imitando os pais. Outro ambulante passa, diz algo sobre vermelho, não consigo ouvir. Cinco homens com a camisa da CBF correm atrás dele e começam a chutá-lo. Ele cai no chão, tenta se defender. A alguns passos de distância, um PM come um milho, sem se mover. Corro até ele, pergunto se não vai fazer nada. O policial diz que o ambulante “merece” e dá mais uma dentada no milho. Cai a noite. Um certo deputado justifica o voto citando o coronel Ustra, apontado pelo Ministério Público Federal como torturador do DOI-CODI. A multidão entra em êxtase. Entrevisto uma senhora de idade, que veio ao ato com as duas netas. Ela sorri. “Estou aqui pelo Brasil."

7.4.16

Diário de uma pitangueira

Está brava plantinha nasceu em Caxias do Sul e depois de viajar de ônibus até Porto Alegre e de avião até o Rio de Janeiro fixou residência na varanda cá do apê no mui valoroso bairro das Laranjeiras. Essas duas folhas mais novinhas já podem se dizer cariocas e o plano é que a moça cresça e apareça, incrementando os planos de lar-pomar. Próximos capítulos neste mesmo batblog em god only knows que bathorário.

Um choro e um cheiro pelos 20 anos

Uma vez, em algum lugar da Bolívia, sentei para jantar com um fotógrafo brasileiro e um escritor chileno que conheci nas andanças dessa que foi minha primeira grande viagem solita. Tinha 21, 22 (?) anos, toda aquela sede de mundo, e prôpus um brinde a estarmos ali juntos, até hoje uma das minhas formas favoritas de celebrar encontros. Estávamos num local muito simples, mas com uma comida sensacional, conhecido como ‘agachados’ ou algo assim, por ser em tese frequentado às escondidas pela aristocracia local da imponente Santa Cruz de la Sierra. O fotógrafo parou meu brinde no meio e corrigiu, “Vamos brindar a tua juventude”. O escritor concordou. “O que eu não daria para ter 20 anos e todas as possibilidades pela frente outra vez”. E o brinde engatou numa série de casos dos dois correndo a América Latina com direito até a uma filha gaúcha do chileno no meio da história. À época, eu ri e não dei muita bola. Esses dias lembrei dessa história e a frase bateu. Vejo E lá se vão os 20 anos fazendo a curva.