27.6.16

Sabedoria do velhinho acupunturista que me deixou com um terceiro olho em formato de agulha no meio da testa:

“Na vida, a gente se preocupa com um dia por vez. Hoje você se preocupa com hoje. Amanhã com amanhã."

18.6.16

As histórias do pai

Meu pai, meu herói, meu maior leitor (junto com a sra Dona Marlei e minhas tias), veio feliz comentar a história do seu Geraldo, o taxista (estão todos pura revolução digital desde que um tablet entrou porta adentro lá de casa). Animado, disse que eu tinha era que escrever sobre a minha infância com Bianchi jr. e lembrou dois, três casos que ganharam estrelinha no anedotário familiar. Como a vez que atravessamos a cidade com o alarme do carro ligado, abrindo caminho entre as movimentadas avenidas de Caxias do Sul, porque chegar na escola no horário era mais importante que qualquer conserto, ou o fim de tarde em que eu quis ver o pôr-do-sol nas montanhas de uma cidade vizinha e, ao voltar, a luz da camionete sumiu, nos fazendo correr as curvas da BR-116 no escuro, só com o pisca-alerta ligado, grudando em cada carro que aparecia para aproveitar os faróis alheios e assustando os motoristas que cortavam o país mais pro Chuí que por Oiapoque. “Ainda sento pra escrever um livro só com as tuas histórias, pai”, retruquei. “As nossas”, ele contestou. O que boa parte de vocês aí não sabem é que eu me chamo Paula Bianchi por conta do Paulo Bianchi e que só sou eu porque cresci com ele ao meu lado.   

17.6.16

Era uma vez, Laranjeiras

“Você não era nem nascida e eu já morava nesse prédio”, diz o taxista, saudoso, logo que entro no carro, em frente de casa. Pergunto quando ele morou por aqui, ele diz que lá por 1986, 7. Faço algum comentário do tipo, ‘poxa, quase 30 anos’ e reclamo que falta um bar e um mercadinho. Ele lembra que tinha um boteco do outro lado da calçada. Volto para as minhas anotações pré-pauta, ele manobra. Seguimos umas quadras em silêncio. Já quase fora de Laranjeiras ele continua. “Vi o 492 e corri para pegar a corrida. Uma vez por ano cai alguma coisa pra cá ou pra rua.” Comento que é mesmo um lugar muito legal, ele diz que hoje vive em Olaria, na zona norte. Pergunto por que ele deixou o bairro. “Porque ela foi embora”. Fico eu em silêncio dessa vez. “Foi fazer doutorado em Londres. A gente era noivo. Consegui um emprego com um amigo em Lisboa. De trem a gente se arranja, né? Uma semana antes de mudar para lá, meu amigo bateu na minha porta dizendo que tinha brigado com o sócio e que ia ficar de vez no Brasil. Eu sem falar inglês não era capaz nem de trabalhar de garçom na Inglaterra... Ficamos namorando por carta, por telefone. Naquele tempo não tinha a facilidade de comunicação que tem hoje. A minha conta vinha que era um livro. Até que o amor não aguentou. Ela casou com um belga. Eu arrumei uma companheira. É duro um amor dar conta de tanto tempo, tanta distância.” A corrida se encaminha para o fim, pergunto o nome dele. Geraldo. Preencho o voucher e agradeço, ele sorri e me deseja um bom dia e boa sorte. 

16.6.16

Com vocês, Sílvia Pérez

Deixa eu agradecer aqui a Portugal e aos amigos que fiz por lá por terem me apresentado essa espanhola sensacional. E viva o alantejo e suas estrelas sem fim.

When I was a child
I thought I'd
when I were thirty I could be a men
with a family and a dog at home
It was a dream
I am to say child but worse
I'm a dog with no home



15.6.16

(Escrevo aqui para dizer para mim mesma que não vou te escrever. Sonhei com você hoje. Lembrei de você ao atravessar a rua, ao pegar o ônibus, ao sentar e ler no jornal uma colunista que já tínhamos comentando. Queria ser capaz de decifrar você na mesma medida em que queria conseguir te esquecer de vez. Mas lá vou eu, viro uma curva e bum. Você. Na placa da empresa de engenharia que se espalha pela cidade, na propaganda de um grupo universitário na TV, numa avenida perdida no meio de Portugal. Seu nome como um lembrete, uma praga, uma provocação. Seus olhos e o seu perfil no rapaz que achei ter me chamado atenção por acaso num sábado à noite qualquer. Tenho noção de que esse é um você inventado, nenhuma realidade aguentaria tamanha onipresença. Coisas de um coração bobo e saudoso desse estar mais cheio, pulsar mais rápido, sofrer mansinho. A vida, afinal, disse alguém uma vez, é feita das coisas que acontecem e das coisas que poderiam ter acontecido. Como você.)

Sobre Borges

Pra não deixar de marcar aqui os 30 anos e um dia da morte do grande Jorge Luis Borges.


E um bônus track com áudios inéditos dele aqui, num especial do Clarín.

14.6.16

Precisamos falar sobre a cultura do estupro

Cabou que o fim de maio foi marcado pela notícia terrível de um estupro coletivo aqui no Rio de Janeiro envolvendo uma menina de 16 anos. A parte todo o horror da coisa, cresceu pelas redes, jornais e afins um debate até então mais restrito a grupos feministas: a necessidade de falar da cultura de estupro. Contribuindo pro debate, toquei com umas amigas um Mangiare e rabisquei uma matéria em cima de uma conversa com duas pesquisadoras que manjam muito mais do que eu do assunto. Para nã deixar isso passar em branco também aqui pelo Palim, segue o link, no esquema de sempre.

Análise: sociedade não se vê em cultura do estupro, mas condena mulher por sexo


  • Manifestantes se reúnem na avenida Paulista, em São Paulo, e participam do ato "Por todas Elas", contra a cultura do estupro e a violência praticada contra as mulheres

O delegado que pergunta para a vítima de estupro se ela tinha o hábito de praticar "sexo em grupo", como ocorreu no caso da adolescente de 16 anos estuprada noRio de Janeiro, e a pessoa que lê uma notícia de abuso e pensa que a vítima "pediu para isso acontecer" ao tomar determinadas decisões fazem, para a antropóloga Alba Zaluar, parte de uma mesma cultura que culpa a mulher por fazer sexo.
"Quando você pergunta se a pessoa fazia sexo grupal é o mesmo que perguntar: 'você é uma piranha?'", diz Alba, referindo-se à conduta do delegado Alessandro Thiers, titular da DRCI (Delegacia de Repressão aos Crimes de Informação), afastado no domingo (29) da investigação do caso de estupro coletivo. "Tem toda uma condenação moral para as mulheres que dão, o que não existe para os homens", afirma.