17.6.16

Era uma vez, Laranjeiras

“Você não era nem nascida e eu já morava nesse prédio”, diz o taxista, saudoso, logo que entro no carro, em frente de casa. Pergunto quando ele morou por aqui, ele diz que lá por 1986, 7. Faço algum comentário do tipo, ‘poxa, quase 30 anos’ e reclamo que falta um bar e um mercadinho. Ele lembra que tinha um boteco do outro lado da calçada. Volto para as minhas anotações pré-pauta, ele manobra. Seguimos umas quadras em silêncio. Já quase fora de Laranjeiras ele continua. “Vi o 492 e corri para pegar a corrida. Uma vez por ano cai alguma coisa pra cá ou pra rua.” Comento que é mesmo um lugar muito legal, ele diz que hoje vive em Olaria, na zona norte. Pergunto por que ele deixou o bairro. “Porque ela foi embora”. Fico eu em silêncio dessa vez. “Foi fazer doutorado em Londres. A gente era noivo. Consegui um emprego com um amigo em Lisboa. De trem a gente se arranja, né? Uma semana antes de mudar para lá, meu amigo bateu na minha porta dizendo que tinha brigado com o sócio e que ia ficar de vez no Brasil. Eu sem falar inglês não era capaz nem de trabalhar de garçom na Inglaterra... Ficamos namorando por carta, por telefone. Naquele tempo não tinha a facilidade de comunicação que tem hoje. A minha conta vinha que era um livro. Até que o amor não aguentou. Ela casou com um belga. Eu arrumei uma companheira. É duro um amor dar conta de tanto tempo, tanta distância.” A corrida se encaminha para o fim, pergunto o nome dele. Geraldo. Preencho o voucher e agradeço, ele sorri e me deseja um bom dia e boa sorte. 

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