15.9.16

América latina carioca

E tem esses dias em que o centro do Rio é também a América Latina inteira. Como quando sobe o cheiro das goiabas vendidas em carrinhos de mão, cortadas ao meio num ziquezague cuidadoso, e cruza com o cheiro de bolo de milho, de aipim, do pastel chinês da esquina, da poeira, do lixo, do suor e do calor de fim de inverno que faria ruborizar setembros mais ao sul. E passa uma negra linda, e grande, e gorda, de cabelo comprido trançado com fios roxos, calça estampada, tomara que caia e tatuagem do Piu Piu no ombro, e solta uma gargalhada larga e cutuca um apontador de jogo do bixo sentado num banquinho no resto de sombra que foge junto com os últimos minutos da manhã. E “que lindos são seus olhos”, grita um menino que distribui panfletos que prefere não entregar. “Melhor não, não são para moças”. E os alto-falantes ecoam praça afora o som de flautas tocadas por índios equatorianos fantasiados de indios americanos enquanto um morador de rua assiste confortavelmente sentado no chão um show de pagode qualquer que passa por acaso numa banca de jornal, que de jornal já quase não tem nada, ao lado de um vendedor mais interessando em brincar com os arremedos de pipa que oferece do que com os clientes em si. E podia ser Salvador, Cartagena, Havana, mas é só a Uruguaiana, é só a Carioca.

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