26.12.16

Para 2017

Conheci um dos meus melhores amigos na fila do RU, como ele bem me lembrou na dedicatória do seu primeiro livro (pausa pro jábá: Senho Gelado e outras histórias, do @igornatusch lançado agora em dezembro, disponível no site da Cultura e nas livrarias mais bacanas de Porto Alegre. Que orgulho desse guri, tche!). Nesses tempos de hiperconexão, provavelmente teria passado a meia hora que me separava da querida bandeja de feijão e arroz a R$ 1,30 surfando aleatoriamente pela internet e pelas redes sociais ao invés de decidir dar oi ao simpático moço de barba ruiva e camiseta de metaleiro que compartilhava comigo a fome e a espera nas inevitáveis filas que acompanhavam nossos almoços naqueles tempos de dureza estudantil. Daí que o meu desejo pra esse 2017  -- que encerro meu ano, graças a Alah, hoje, com o fim do plantão, alegria, alegria –, além de que sejam 365 dias mais leves, é que a gente consiga passar mais tempo juntos, rindo e conversando a distância de um abraço, do que na telinha do celular. E saiba ter a delicadeza de olhar mais o que há de bom no mundo e nos outros, que quantos Igors pra vida toda a gente não perde nessas correrias loucas que acompanham nossa rotina atualmente. 

22.12.16

Estou lendo um livro que é de contos e não é – a narrativa é toda a mesma, ocorre mais ou menos no mesmo espaço, mas o narrador não se preocupa em explicar as mudanças de tempo ou de histórias ou mesmo em explicar qualquer coisa --, que me subiu uma vontade de escrever. Penso com meus botões que ele não segue regra nenhuma; os botões respondem, ‘quem liga para as regras se o texto é bom?’. Vejo textos por toda a minha Caxias do Sul que visitei numa folga prolongada que ganhou contornos de natal antecipado. A mãe chama para fazer qualquer coisa. Deixo para escrever depois. Depois vira nunca mais. 

21.12.16

Cenas de verão

Combino com amigos de ir à praia após o trabalho. Biquini na bolsa, o Leme vira aterro. Alguém traz uma bola, jogo basquete pela primeira vez desde o colégio com um estranho que conhecemos na quadra. Meia hora de correria depois, migramos atrás de uma partida de vôlei que nunca começou. Vou descalça pela pista de corrida apreciando a temperatura do asfalto. Algum termômetro no caminho marca 38º. A conversa gira tem torno do clássico diferenças entre cariocas e o resto do mundo. “O bom e o ruim do Rio é que a cidade parece uma pracinha, todos se encontram o tempo todo”. Cruzo com um conhecido que se desculpa pelo suor e desacelera a corrida para um abraço. “Quando alguém diz vamos fazer algo na sexta significa ‘foi bom te ver, a gente se cruza por aí’.” Sentamos na areia. Entrar ou não entrar no mar da baía de Guanabara? Um barraqueiro animado aparece e em pouco tempo minha canga é cercada por uma mesinha, cadeiras e latões de cerveja devidamente acomodados em camisinhas de isopor. O sol cai aos poucos. Chegam amigos de amigos, a mesa aumenta. O fundo é o pão de açúcar. De esguelha, por entre prédios, é possível ver o Cristo. Deixo os amigos e caminho de volta até a minha bicicleta pela areia. Me distraio com os caras que passam correndo por mim e me pego olhando por mais tempo para um deles. Ele para para me cumprimentar; outro conhecido. Desvio de um casal de namorados que escuta música alta, bato os pés na grama para colocar as alpargatas, destranco com calma o cadeado da bicicleta. Um ambulante ao lado quebra um coco para dar de beber ao cachorro. Atravesso a avenida e tomo o rumo de casa. Quase 22h, a rua borbulha de gente, os termômetros seguem namorando os 40º. Verão, enfim.

***
(mais verão. Tomo um banho, me preparo para quebrar um ovo e miro a frigideira. Falta luz. Aos poucos os olhos se acostumam e o breu diminui. Respiro a escuridão e o quase silêncio. Termino o jantar com a lanterna do celular. Da varanda, escuto os burburinhos de reclamação dos vizinhos e vejo pontos de luz intermitentes de uma que outra lanterna. Parte da fiação do poste em frente ao prédio pegou fogo, avisa uma amiga que mora na mesma rua pelo Whatsapp. Melhor ficar sem água ou sem luz? Deito na rede e começo a ler com o que me resta de bateria no telefone. A luz volta, a vizinhança comemora como se fosse um gol. Devia ter entrado na água.)

19.12.16

Cenas serranas

A mãe e a Caro descascam, com carinho, um punhado de physalis recém colhidos que serão mergulhados no chocolate para acompanhar, em algumas horas, o café da tarde. Eu e o pai somos instados a ajudar e tentamos, sem muito jeito, seguir a risca as instruções de dobrar para cima e torcer as folhas já secas dessa frutinha amarela e de nome estranho que a minha memória associa mais a noites dançando em Bogotá, onde faz às vezes de amendoim nos bares, que à serra gaúcha. Desço com o pai na lavoura; cruzamos com pêssegos, peras, romãs, goiabas, abacates, um pé de jabuticaba que “insiste em não jabuticabar”, e uma pitangueira com três pombas rolas - duas pequenas e uma maior -, escondidas por entre os galhos. “Estão tomando lições de vôo”, diz o pai. Chegamos ao tal do physalis, um arbusto baixo, que de longe lembra um tomateiro selvagem e que um senhor contratado para roçar o terreno tomou por mato uns meses atrás. Pergunto como uma planta que ousa ter até ph no nome chegou ao nosso quintal. Ele remexe com delicadeza a terra ao redor, levanta alguns galhos para mostrar os casulos que guardam os frutos, e responde. “Foram os passarinhos.”