7.8.17

Rotinas


Aos poucos os dias vão ganhando contorno de rotina. E a rotina, tão maldita, tem sua beleza.
O acordar, passar o café também para o amigo enquanto esquenta a água do chá. Ler o jornal (ainda que não mais no papel) comentando amenidades, seriedades, todo o rol de assuntos que brotam na gente pela manhã.
Chegar à redação perto da hora do almoço sempre correndo, porque o quase atraso também ficou rotineiro. "Bom dia, pessoal, bom dia". As 8h, 9h, 10h frente ao PC e o quiçá mais aparecer.
A volta para casa de ônibus, às vezes metro. O mercado apressado. A falta da Kafi. Algum filme, um livro, a rede. O sono que leva até a cama para recomeçar amanhã tudo de novo.

31.7.17

Grande Sertão Veredas: a leitura

Fato é. A vida é curta, o tempo ruge, os 30 se aproximam com velocidade e nunca li Grande Sertão Veredas.
O livro me olha da estante faz anos. Folheio, começo, começo outro livro qualquer e a vida segue deixando Riobaldo e Diadorim para depois.
Como é bom traçar objetivos, venho por meio desta me lançar o desafio pessoal de terminal a turma de neologismos de Guimarães Rosa até o final do ano. Ou não me chamo Joaquina.
Quem viver, verá (ou me lerá reclamando por aqui).

24.7.17

Desassossego


Tem um trecho de um livro para-crianças-e-ainda-mais-para-adultos do Valter Hugo Mãe em que a narradora, uma menina, diz, “sofro de um problema de desassossego. Não sei estar sossegada”. 

Nesses dias que me vem um banzo não sei bem de ontem – pelo futuro, pelo passado? A ansiedade como modo de vida --, a frase fica pairando em mim. Estar sossegada, pois. Não sou capaz.


3.7.17

Há estes dias em que pressentimos na casa
a ruína da casa
e no corpo
a morte do corpo
e no amor
o fim do amor
estes dias
em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo
e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde
não são coisas que se expliquem
apenas são dias em que de repente sabemos
o que sempre soubemos e todos sabem
que a madeira é apenas o que vem logo antes
da cinza
e por mais vidas que tenha
cada gato
é o cadáver de um gato
(Ana Martins Marques, in "O livro das semelhanças")

8.3.17

A Val e o desapego

Fica aqui meu pequeno agradecimento a Val que impede que a minha mesa na redação se torne um iglu de papel e jornal (e que, de quebra, me lembra da efemeridade do papel impresso, do que escrevi hoje e será ignorado amanhã ou mais tardar semana que vem, da vida). Toda a manhã, suspeito que propositalmente antes de eu trazer meu corpinho para o trabalho, ela confisca as folhas do que vê como passado e, em troca, deixa um amontoado de novas velhas notícias fresquinho, num exercício que com frequência me obrigada a um rancoroso desapego. Afinal, por que raios eu ia querer consultar uma reportagem da semana retrasada?

22.2.17

Fast food à moda antiga

Sento pra bater uma matéria, tomar um café e filar alguma internet. Por indicação do Mauro, acabamos na Leiteira Carioca. O cardápio tem mingau e não tem vergonha de oferecê-lo mesmo com o relógio marcando 16h. Na parede, um quadro com uma página de jornal já amarelada lembra glórias passadas. A manchete: 'Lanches rápidos, e a vida segue'.

25.1.17

Sobre 2016, para 2017

2016 quase fazendo a curva e uma alvorada mineira pra deixar saudade

Faz uns anos que uns dias antes da virada ou um que outro depois, sento por aqui, faço algum balanço do ano que passou e na medida das expectativas, que também variam com as viradas de folhinha no calendário, traço planos.

Eis que chegamos a 2016, ou ao fim dele, e a minha necessidade de que esse ano terminasse era tão grande que estava mais fácil ficar agachada debaixo da cama gritando ‘vem disco voador’ em posição fetal do que querer refletir sobre o que passou.

Então borá traças estas linhas antes que se encerre também o primeiro mês do ano.

Para ser justa, até tentei um ano novo no fim de julho, com direito a espumante e tudo, para ver se o tal do 2016 B vinha mais leve, má che, como diria a minha colônia querida, o ano seguiu – e tomo a liberdade de colocar de usar o plural aqui -, nos patrolando.

A imagem que me vem à mente quando penso nos últimos doze meses, embalada pelo calor e leveza desses primeiros 25 dias de 2017 -- ainda tão coalhados de notícias terríveis quanto seu antecessor --, é a de lutar, com mais ou menos forças, para não submergir. E ainda assim engolir água para caramba e passar boa parte do tempo desnorteada.

Em 2016, penso, envelheci.

Os cabelos brancos, antes raros, se não abundantes, ganharam espaço cativo. Lado esquerdo do cocoruto, meiuca da cabeça, ainda escondidos por uma boa porção de mechas castanho-alouradas-despentedas, mas ali, à espreita.

Tento lembrar de 2015. Não sou capaz. Tudo me parece tão, mas tão longe. Quantos anos vivemos nesses 366 malfadados dias?

Claro, a situação se agrava por conta da síndrome de Estocolmo que é o jornalismo, que nos obriga não apenas a ser testemunha dos fatos, mas a narrá-los, enxerta-los de informações não necessariamente necessárias, e agarrar com força, ainda que muitas vezes sem fôlego, a próxima tragédia.

Ainda assim, acho que o caos foi geral. Como bem disse a Caro, entre janeiro e dezembro ‘a bruxa estava solta’. E tudo leva a crer que só terminamos a mala onda que nos trouxe até aqui em 2018.

Encerrei esse turbilhão no meio do mato, cercada de amigos, acordando e dormindo com uma represa de águas claras e mornas a poucos passos -- me pareceu a versão mais agradável do tal ficar em posição fetal esperando o fim. E foi bom. Se não apagou 2016, resetou boa parte da amargura que me tomava (sdds MG).

(Até escrevi uma carta de intenções, sem grandes ambições, para ver se, de alguma forma, eu procurar ser uma pessoa melhor para o ano que vem aí ao invés de apenas esperar que ele não seja tão dramático ajuda um pouquinho.)

Não há como pedir que 2017 venha assim, facinho e sem ondas – viesse também, talvez me entediasse --, e tampouco é assim que as coisas se desenham, então peço apenas que pelos próximos 11 meses eu tenha a serenidade e a força necessárias para encarar as ondas que aparecerem, mergulhar fundo antes da rebentação e sair nadando, não cuspindo água e quase me afogando, dessa história toda.

Alguma matemática

O plano era passar 2016 tendo ao menos mais 24 livros na lista dos lidos. Posto que 2016 foi, bem, 2016 -- como lidar com esse ano? Como entendê-lo? Como viver depois dele -, terminamos em 18. Matemáticas a parte, me incomoda não ter riscado os dois por mês a que me propus, mas, já citei 2016?, também não ficamos em recuperação.
Pra esse ano, a gente não vai traçar meta. Mas quando chegar na meta, dobra a meta.

20.1.17

Tia Virgínia

E tinham as histórias da família, contadas quase como lendas, nos momentos de descontração e chimarrão. Serviam para rir e também pontuar algum desafeto, temperado pelos laços de sangue que tão bem explicavam os Bianchi.

A tia Virginia, contava o pai, começava a enlouquecer “assim que as folhas começavam a cair”. Por um tempo, deu para ligar lá para casa duas, três vezes por dia. Eram telefonemas longos, azar de quem os atendesse, em que passava 40 minutos, uma hora, discorrendo sobre as dores reais e imaginárias que sentia e fofocando de parentes distantes que entravam e saiam do léxico familiar assim que ela desligava.

A ordem era dizer sempre que o pai não estava ou estava no banho ou não podia falar. Foi também por conta dela que a casa ganhou uma bina, evitando o desconforto de ter que espera-la cansar de falar ou desconversar para cortar a ligação.

Uma vez, num rompante de impaciência e sinceridade após um longo inverno de ligações indigestas, minha irmã disse que não queria falar com ela pois ela só sabia falar mal dos outros. A velha, revoltada, espalhou pelo bairro que havia sido destratada e foi com seus 80 e tantos anos até a padaria da mãe reclamar pessoalmente.

Diz o pai que a tia Virginia passou meia vida dormindo com um facão debaixo do travesseiro para espantar o marido, que tinha como o capeta. Para falar bem a verdade, lembro do homem apenas como um velho mirrado cheirando a mijo, como tantos outros velhos, e das paredes bege daquela casa que eu odiava visitar e que parecia nos consumir tal qual um buraco negro conforme as horas passavam e o café da tarde se tornava jantar.

E havia também as noites em que tia Virginia decidia que estava morrendo. No começo, ligava para os quatro filhos que acudiam apavorados para encontrar a mãe sadia e indignada com a demora na cozinha da casa, que tinha como principal decoração um enorme quadro já meio esverdeado pelo tempo com um Jesus Cristo caucasiano, de ar bondoso e olhos azuis.

Com o tempo, eles também pararam de atender e ela deu para chamar a ambulância do plano de saúde. Ligava e já ia logo para a cozinha. Recebia os médicos com a mesa posta, com todas as gostosuras que seu passado de descendente de italianos e mãe de quatro marmanjos a fizeram aprender, e o café quentinho.

“Tão tarde, vocês devem estar com fome”, dizia aos jovens médicos. Um parente do outro lado da família que trabalhou um tempo como plantonista na madrugada dizia que ele e os colegas adoravam atender os chamados da velha, que já associavam a mesa farta e ao lanche, quase um recreio durante o trabalho.

Passou o tempo, deixei a Serra e perdi parte das histórias – com poucos dias em casa, é difícil que o pai escolha comentar justo sobre essa tia tão peculiar. Mas ao menos duas vezes por ano a mãe conta que eles estão indo ao hospital ou a casa dela fazer uma visita, porque parece que agora é sério, a velha está para morrer.

17.1.17

Sobre Sísifo nos anos 10

"se [Sísifo] vivesse agora, saberia demais a respeito da pedra, da montanha e de si mesmo para se entregar eternamente ao absurdo de sua tarefa”. “Saberia demais sobre a tarefa em si. Teria a ciência e a tecnologia. Teria a história dos últimos dois mil anos e a nuvem de informação. Teria a superpopulação de Sísifos, o multiverso dos Sísifos. Se fosse uma cria de nosso tempo, Sísifo leria O mito de Sísifo. Chegaria ao ponto em que não entenderia mais nada, nem mesmo a liberdade que conseguira encontrar em seu castigo.
O que ele pensaria se seu heroísmo absurdo aparecesse na forma de zonas coloridas em imagens de ressonância magnética do cérebro, feitas em laboratórios de neurociência? O que restaria de sua rebeldia em meio a considerações sobre gasto calórico e explicações evolucionistas para juízo moral do ser humano? Nem nos deuses ele poderia seguir acreditando”.
Trecho do Meia noite e vinte, do Daniel Galera

11.1.17

Passando rapidinho só pra guardar uma citação que ganhei de um amigo, do Julio Ramón Ribeyro

"A única maneira de continuar vivendo é manter serena a corda de nosso espírito, tenso o arco, apontando em direção ao futuro".

3.1.17

Zuck e os likes

Passei uma semana no meio do mato, longe de sinal de telefone e, principalmente, da internet. As mensagens pingavam volta e meia, quando calhava de entrar algum fiozinho de sinal no telefone durante os passeios. Resultado: livros lidos, horas conversando com amigos, grandes momentos, poucos registros -- teria lido, conversado e tido grandes momentos com internet também, mas admito que eles seriam permeados por outros tantos rolando a barrinha das redes mais por um (mau) hábito do que qualquer outra coisa. Abro o e-mail hoje, numa daquelas abas separadas das mensagens principais, o Facebook, saudoso dos meus likes e horas de ócio, me avisa, ‘fulano curtiu isso, ciclano aquilo, não sei quem atualizou não sei o que’. E eu com isso, Zuck? 

E vamos de Chico César, que reflete sobre isso melhor que eu nessa doçura de canção.