20.1.17

Tia Virgínia

E tinham as histórias da família, contadas quase como lendas, nos momentos de descontração e chimarrão. Serviam para rir e também pontuar algum desafeto, temperado pelos laços de sangue que tão bem explicavam os Bianchi.

A tia Virginia, contava o pai, começava a enlouquecer “assim que as folhas começavam a cair”. Por um tempo, deu para ligar lá para casa duas, três vezes por dia. Eram telefonemas longos, azar de quem os atendesse, em que passava 40 minutos, uma hora, discorrendo sobre as dores reais e imaginárias que sentia e fofocando de parentes distantes que entravam e saiam do léxico familiar assim que ela desligava.

A ordem era dizer sempre que o pai não estava ou estava no banho ou não podia falar. Foi também por conta dela que a casa ganhou uma bina, evitando o desconforto de ter que espera-la cansar de falar ou desconversar para cortar a ligação.

Uma vez, num rompante de impaciência e sinceridade após um longo inverno de ligações indigestas, minha irmã disse que não queria falar com ela pois ela só sabia falar mal dos outros. A velha, revoltada, espalhou pelo bairro que havia sido destratada e foi com seus 80 e tantos anos até a padaria da mãe reclamar pessoalmente.

Diz o pai que a tia Virginia passou meia vida dormindo com um facão debaixo do travesseiro para espantar o marido, que tinha como o capeta. Para falar bem a verdade, lembro do homem apenas como um velho mirrado cheirando a mijo, como tantos outros velhos, e das paredes bege daquela casa que eu odiava visitar e que parecia nos consumir tal qual um buraco negro conforme as horas passavam e o café da tarde se tornava jantar.

E havia também as noites em que tia Virginia decidia que estava morrendo. No começo, ligava para os quatro filhos que acudiam apavorados para encontrar a mãe sadia e indignada com a demora na cozinha da casa, que tinha como principal decoração um enorme quadro já meio esverdeado pelo tempo com um Jesus Cristo caucasiano, de ar bondoso e olhos azuis.

Com o tempo, eles também pararam de atender e ela deu para chamar a ambulância do plano de saúde. Ligava e já ia logo para a cozinha. Recebia os médicos com a mesa posta, com todas as gostosuras que seu passado de descendente de italianos e mãe de quatro marmanjos a fizeram aprender, e o café quentinho.

“Tão tarde, vocês devem estar com fome”, dizia aos jovens médicos. Um parente do outro lado da família que trabalhou um tempo como plantonista na madrugada dizia que ele e os colegas adoravam atender os chamados da velha, que já associavam a mesa farta e ao lanche, quase um recreio durante o trabalho.

Passou o tempo, deixei a Serra e perdi parte das histórias – com poucos dias em casa, é difícil que o pai escolha comentar justo sobre essa tia tão peculiar. Mas ao menos duas vezes por ano a mãe conta que eles estão indo ao hospital ou a casa dela fazer uma visita, porque parece que agora é sério, a velha está para morrer.

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