21.12.17

As histórias para além das histórias dos livros rodados

Depois das bibliotecas, os sebos estão entre meus lugares preferidos. Muito pelos tantos golpinhos a menos que levar para casa um exemplar alegremente rodado representa e pela mágica dos livros que parecem brotar nas estantes e nos encontram ao acaso, mas também pelas histórias para além da história que páginas já lidas costumam guardar.
Eis que num desses dias de flanagem (e vá lá, começo do mês), cruzei com uma edição bonita e bem cuidada de A Vida Breve, do Onetti. Mas ao contrário das tradicionais dedicatórias de afeto e afins e/ou assinaturas (se passou por mim, por exemplo, ganha sempre a data e a cidade em em que foi comprado mais um garrancho carinhoso de rúbrica), o último dono resolveu cruzar nas páginas de rosto uma mistura de bloco de anotações com código secreto.
Começamos com uma letrinha de forma miúda com um Caim Jambu que não sei dizer se é o nome do ser, apelido ou mistura de citação bíblica com lista de feira. Partimos, em letra cursiva, para o que a minha dislexia já tinha corrigido para “literatura elementar” e vinha concordando até a necessidade de checar a letra com a lanterna do celular por conta da pouca luz do voo atrasado (substituir por rigor jornalístico) mostrou ser na verdade um “literato”, o que me faz pensar se o nosso suposto CJ falava de si ou do amigo autor uruguaio.
Após essa pequena homenagem ao realismo fantástico latino-americano passamos para o que a contra capa do livro -- quem vem com uns elogios parrudos de Cortázar, Carlos Fuentes e Mário Benedetti, entre outros --, talvez definisse como a “realidade da ficção” (mentira, essa aspa é do Juan José Saer): uma humilde anotação de exame médico. 5 de agosto de um passado qualquer na ACM, que chuto se tratar da relativamente vizinha ao sebo, Associação Cristã de Moços.
Nova página de rosto, nova história e parece que novo dono… Fagundes sem caixa alta delimita entre colchetes uma série de números que parecem aleatórios e passariam por uma identificação de biblioteca não fosse a inscrição abaixo, de uma sequência parecida, precedida por um enigmático Galo Branco.
Jogo do bicho, será? Um apontador literato elementar leitor da bíblia e fã dessa fruta bonita com gosto de flor que só fui conhecer pessoalmente na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro?
O terrorista, ao menos, escreveu a lápis.
E lá vai um Rio/dezembro de 2017, a lápis também, com a letra que a profissão ajudou a tornar um garrancho, à espera dos seus prováveis leitores futuros (o voo, por sinal, enfim resolveu decolar).

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